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A caça é uma grande ameaça para a vida selvagem, particularmente nas regiões tropicais, e uma equipa internacional de cientistas quis saber, com mais exatidão, qual seria o verdadeiro impacto desta atividade na biodiversidade. Para o descobrir, decidiram quantificar os declínios que ela provoca nas populações de mamíferos e aves nas selvas e florestas da América Central e do Sul, África e Ásia, e em outros biomas tropicais, como a savana africana e o Cerrado amazónico.

Os investigadores descobriram que o impacto da caça era maior do que estavam à espera.
Nas zonas onde há caça, a abundância de mamíferos sofreu, em média, um declínio de 83% e a de aves um declínio de 58%, em comparação com as áreas às quais os caçadores não chegam. Como estas são médias, há regiões que veem declínios ainda mais elevados, na ordem dos 90%.

“As populações de aves e mamíferos foram dizimadas dentro de uma distância de 7 a 40 quilómetros [respetivamente] dos pontos de acesso dos caçadores (estradas e povoações)”, escreveram os investigadores no estudo publicado na Science. “Além disso, a pressão da caça era mais elevada nas zonas com melhor acessibilidade a grandes cidades, onde a carne de animais selvagens podia ser comercializada.”


Foto: Radboud University/Joeri Borst

“Como ponto de partida, usámos o pressuposto de que os seres humanos reúnem recursos num círculo à volta das suas aldeias e outros pontos de acesso. Daí, as densidades das espécies vão aumentando até a uma distância na qual já não se observa qualquer efeito da caça. Chamámos a isto as distâncias de empobrecimento das espécies e quantificámo-las na nossa análise”, explica, Ana Benítez-López, investigadora da Universidade Radboud, na Holanda, que liderou o estudo.

Desta forma, os cientistas estimaram que, num raio de 500 metros à volta de um destes centros humanos, apenas existiam aves. Relativamente aos mamíferos, 90% destes animais desapareceram nos primeiros 700 metros. A abundância de aves só recupera, equiparando-se à de zonas sem caça, a partir dos 7 km de distância do centro. Para os mamíferos, são necessários 40 km para recuperarem os seus números.

O trabalho de investigação sintetizou 176 estudos e utilizou dados de 254 espécies de mamíferos e 97 de aves. Segundo os investigadores, a diferença de impacto entre aves e mamíferos prende-se com o facto de estes últimos serem maiores e fornecerem mais carne, o que os transforma em presas mais desejáveis. “Valem uma viagem maior. Quanto maior é o mamífero, maior a distância que um caçador percorreria para o apanhar”, diz Ana Benítez.

Com o aumento da procura de carne de animais selvagens, tanto nas zonas rurais como urbanas, os caçadores têm levado as espécies de maior porte à quase extinção na proximidade das aldeias, o que significa que têm de percorrer maiores distâncias para os encontrar. Além disso, para espécies com maior valor comercial, como os elefantes e os gorilas, as distâncias percorridas são muito maiores, já que os lucros são mais elevados.


Exemplares encontrados durante uma operação contra a caça furtiva nos Camarões | Foto: LAGA

A investigadora espanhola destaca também a dimensão internacional do comércio desta carne, que pode ser de todo o tipo de animais, desde macacos a roedores. “Em alguns casos, esta carne é vista como uma iguaria, em outros, como sucede com o pangolim na China, o seu drama deve-se à medicina tradicional."

Os cientistas também descobriram que os caçadores comerciais têm um impacto maior na biodiversidade do que os de subsistência, que caçam para alimentar as suas famílias, e que as populações de mamíferos sofreram declínios mesmo dentro das áreas protegidas. No caso dos felinos, estes animais são exterminados por competirem com os seres humanos.

“Graças a este estudo, estimamos que apenas 17% da abundância original de mamíferos e 42% da de pássaros permaneçam nas zonas de caça”, escreveram os autores do trabalho. Este impacto, avisam eles, será cada vez maior. “Em África, 90% dos bosques que restam estão a menos de 50 km de uma estrada”, lembra Ana Benítez. Aliado à proliferação de tecnologias baratas de caça, como armas de fogo, armadilhas e redes verticais, o aumento previsto da população destas regiões fará com que haja povoações e estradas cada vez mais próximas destes locais, assim como caçadores.

“São urgentemente necessárias estratégias para gerir de forma sustentável a caça de animais selvagens, tanto em ecossistemas tropicais protegidos como não-protegidos, para se evitar mais defaunação”, disse a investigadora. “O que inclui a monitorização das atividades cinegéticas através de um aumento das patrulhas anti-caça furtiva e o controlo da sobre-exploração através do cumprimento da lei.”

1ª foto: Tapir-malaio (EPA)



A Arábia Saudita foi eleita pela ONU para a Comissão dos Direitos das Mulheres, para o mandato de 2018 a 2022, tendo obtido 47 votos dos 54 países que participaram na eleição. Este organismo tem como objetivo promover a igualdade de género e os direitos das mulheres.

“Eleger a Arábia Saudita para proteger os direitos das mulheres é como escolher um incendiário para chefe dos bombeiros”, afirmou Hillel Neuer, diretor da UN Watch, que se referiu à Arábia Saudita como o "o regime mais misógino do mundo". “Este é um dia negro para os direitos das mulheres, e para todos os direitos humanos”, disse.
“Hoje, as Nações Unidas enviaram a mensagem que os direitos das mulheres podem ser vendidos por petrodólares e políticas”, afirmou.



As mulheres na Arábia Saudita “são obrigadas a ter um guardião masculino que toma todas as decisões fundamentais em seu nome, controlando a sua vida desde o nascimento até à morte”, continuou Neuer. Na Arábia Saudita as mulheres estão, por exemplo, proibidas de conduzir automóveis.


Segundo Hillel Neuer, pelo menos 5 estados da UE votaram na Arábia Saudita, entre o Reino Unido, a Bélgica, a Suécia, a França, a Alemanha, a República Checa, a Estónia, Finlândia, Grécia, Irlanda, Itália e Portugal. A Arábia Saudita é o país para o qual o Reino Unido mais exporta armas, segundo o Independent.


Legenda: "Fantástico! Porque a Arábia Saudita, o regime mais atrasado, repressivo, misógino no planeta, sabe TUDO sobre os direitos das mulheres!"

Recentemente, a Arábia Saudita entrou para o Conselho da ONU para os Direitos Humanos, que tem por objetivo o combate à discriminação e violência de género.


O Congresso de Guatemala aprovou, em fevereiro de 2017, um projeto de lei múltipla contra a crueldade para com os animais, que cria proteções para os animais de companhia, a fauna selvagem e os animais em laboratórios e circos.

A nova legislação proíbe os testes de cosméticos em animais e as lutas de cães, prevendo sanções para os espectadores desta atividade.

Entre outras medidas, a lei promoverá programas de esterilização e campanhas de sensibilização para a posse responsável de animais de estimação. Também passa a ser ilegal o abandono de animais.

“A lei cria uma plataforma oficial do governo para atender ao bem-estar animal”, declarou Wayne Pacelle, presidente da organização Humane Society, que louvou a decisão do governo guatemalteco.


A salicórnia, também conhecida como sal verde ou espargos do mar, é uma planta que substitui o sal. Antigamente, era vista como uma erva daninha, mas agora é usada em pratos gourmet.

Em Portugal, a salicórnia cresce naturalmente nas salinas da ria Formosa e da ria de Aveiro.
Pode ser usada em várias receitas, para temperar pratos e saladas, no arroz, em pickles e para aromatizar o azeite.






Salada turca de salicórnia (vídeo em inglês)



Há centenas de toneladas de plástico a poluir as águas do Ártico, levadas por uma corrente do Oceano Atlântico, diz um novo estudo publicado na revista científica Science Advances.

Os investigadores estimam que existam, atualmente, cerca de 300 mil milhões de pequenas peças de plástico nas águas do Ártico, principalmente nos mares da Gronelândia e de Barents, mas admitem que a quantidade real poderá ser mais elevada e que possa haver ainda mais plástico depositado no fundo do mar.

“Quando [o plástico] entra no Ártico, não tem forma de sair e fica lá preso”, dizem os cientistas, que apelidam esta região, a este da Gronelândia e a norte da Escandinávia, um “beco sem saída para os plásticos flutuantes”.

“Ainda só passaram cerca de 60 anos, desde que começámos a usar o plástico a nível industrial, e a utilização e produção têm estado a aumentar, desde então”, disse Carlos Duarte, um dos coautores do estudo e diretor do Centro de Investigação do Mar Vermelho. “Portanto, a maioria do plástico que colocámos no oceano ainda está em trânsito com destino ao Ártico.”



Cientistas a bordo do navio Tara recolhem plâncton e microplásticos (Anna Deniaud/Tara Expeditions Foundation)

Os detritos de plástico mais encontrados pelos investigadores foram pequenos fragmentos, medindo, na sua maioria, entre 0,5 mm e 12,6 mm. A equipa também encontrou linhas de pesca, película e granulados de plástico.

De acordo com os cientistas, o tamanho reduzido e o estado desgastado e envelhecido do plástico encontrado parecem indicar que estes detritos já se encontravam há vários anos no oceano e que “o plástico tinha, em grande medida, viajado de fontes distantes, incluindo as costas do noroeste da Europa, do Reino Unido e a costa este dos EUA”.

“As peças de plástico, que, a princípio, poderiam medir centímetros ou metros, foram quebradas pela exposição solar e depois fragmentadas em partículas cada vez mais pequenas, dando, eventualmente, origem a este plástico, que mede milímetros, a que chamamos microplástico, contou Carlos Duarte ao Washington Post. “Esse processo demora anos ou décadas. Por isso, o tipo de material que estamos a observar lá parece ter entrado no oceano há décadas.”


Fragmentos de linha de pesca encontrados pelos investigadores | Foto: Andrés Cózar

O trabalho foi dirigido por Andrés Cózar Cabañas, professor de biologia da Universidade de Cádiz (Espanha), e contou com a participação de outros 11 investigadores de universidades de oito países: Arábia Saudita, Dinamarca, Espanha, Estados Unidos, França, Holanda, Japão e Reino Unido.

Para a realização do estudo, os cientistas recolheram amostras do lixo plástico flutuante em 42 locais no Oceano Ártico, a bordo do navio de investigação Tara, que, em 2013, circum-navegou este oceano, e descobriram que os mares da Gronelândia e de Barents continham 95% dos plásticos do Ártico.

Esta área do oceano é importante na circulação termohalina, uma corrente global profunda, alimentada pelas diferenças de temperatura e salinidade das águas. A corrente parece estar a levar com ela resíduos plásticos de linhas costeiras mais densamente povoadas.


Localizações e concentrações do plástico recolhido | Mapa: Andrés Cózar

O mar de Barents é uma importante área de pesca de bacalhau, eglefim, arenque, entre outras espécies, e os cientistas não sabem como o lixo marinho estará a afetar estes animais.

“Não compreendemos inteiramente as consequências que o plástico está a ter ou terá nos nossos oceanos”, disse o autor do estudo, Andrés Cózar, ao The New York Times. “O que sabemos é que estas consequências serão sentidas em maior escala num ecossistema como este.”

Todos os anos, cerca de 8 milhões de toneladas de plástico vão parar ao mar e estima-se que poderão existir 110 mil milhões de toneladas deste material no oceano. O plástico no mar é responsável por ferir e matar inúmeras espécies da fauna marinha e de estar a fazer o seu caminho, através da cadeia alimentar, até aos nossos pratos.

Pensava-se que o plástico no mar se acumulava em grandes “ilhas”, principalmente nos giros subtropicais – grandes correntes que convergem no meio do oceano –, mas os cientistas estimam que só cerca de 1% da poluição de plástico esteja localizada nestes giros e em outras águas superficiais no mar aberto.

O estudo descobriu ainda que o plástico flutuante no Ártico corresponde a menos de 3% do total global, mas os autores avisam que continuará a acumular-se, com o passar dos anos.

Para Andrés Cózar, a lição a reter deste trabalho de investigação é a de que este problema “requererá acordos internacionais”. “O plástico provém de nós, no Atlântico Norte”, declarou. “E quanto mais soubermos sobre o que acontece no Ártico, maior será a probabilidade que temos” de resolver o problema.

1ª foto: Fragmentos de plástico encontrados no Oceano Ártico pela equipa de investigação (Andrés Cózar)



O governador do estado de Nova Iorque, Andrew Cuomo, promulgou, em abril, uma lei que prevê que os estudantes que frequentem as universidades públicas do estado possam estudar de forma gratuita, o que torna Nova Iorque o primeiro estado norte-americano a oferecer as propinas durante a totalidade dos quatro anos dos cursos universitários.

“Estamos a recuperar a promessa do Sonho Americano para a próxima geração e a consolidar um caminho arrojado de acesso e oportunidade para o resto do país seguir”, declarou o governador. “Sendo que o ensino superior é agora uma necessidade para se ser bem-sucedido na economia atual, orgulho-me de promulgar esta legislação inédita no país, que tornará o ensino superior acessível.”

O dinheiro da bolsa estará disponível exclusivamente para as despesas diretamente ligadas à educação, o que significa que os estudantes terão de procurar outras formas de pagar o alojamento, a alimentação e outras despesas indiretas. À semelhança do que acontece noutros estados, os estudantes só receberão subsídios destinados à educação para cobrir os custos que não sejam pagos por outras bolsas de estudos, conta a PBS.

Para que os estudantes sejam elegíveis para a bolsa, o valor auferido pelos seus agregados familiares tem de ser inferior a 100 000 dólares (93 000 euros) por ano – um valor que subirá até aos 125 000 dólares em dois anos. Os estudantes terão de viver e trabalhar no estado durante o mesmo número de anos em que receberam o apoio. Caso isto não se verifique, a bolsa converter-se-á num empréstimo.

Também terão de estar inscritos em regime de tempo integral, embora cerca de um terço dos alunos das universidades públicas de Nova Iorque estejam inscritos em regime de tempo parcial, e de completar 30 créditos por ano para continuarem a ser elegíveis. Regra geral, 30 créditos equivalem, nos EUA, a um ano completo, com todas as disciplinas aprovadas.

Estas restrições estão a ser criticadas por vários professores universitários, mas há quem as veja com bons olhos e considere o programa um exemplo a ser seguido por outros estados que queiram promover o ensino superior.

“O requisito de 30 créditos do programa – que tem sido criticado por alguns – é uma estratégia provada para subir a pontuação média de desempenho académico, aumentar as taxas de continuação dos estudos e, em última análise, incentivar a conclusão do ensino superior no estado”, defendeu Tom Sugar, presidente da organização Complete College America.


Escova de dentes com cabeças substituíveis da Yaweco


O melhor:
Não ser preciso substituir toda a escova de dentes, basta substituir a cabeça;
Não ter HAP, ftalatos ou bisfenol;
Permitir uma boa lavagem dos dentes.

O pior:
Ser feita de plástico.


Preço: 2,29€ (escova de dentes) e 3,29€ (4 cabeças para a escova) - Celeiro







Segundo um estudo da Universidade de Vigo, as plantações de eucaliptos reduzem a diversidade de macroinvertebrados em pequenos ribeiros florestais. Os investigadores descobriram também que os ribeiros cujas bacias hidrográficas estão maioritariamente cobertas por eucaliptais apresentam uma maior probabilidade de secar completamente no Verão.

O estudo, publicado na revista científica Animal Biodiversity and Conservation, analisou os efeitos das alterações do uso do solo e, em particular, das plantações de eucaliptos nos ecossistemas fluviais de 16 afluentes do rio Lérez (em Pontevedra, Espanha).

A equipa de investigadores contou os macroinvertebrados e identificou-os até ao nível da família. Estes animais invertebrados, tais como moluscos, crustáceos, insetos e anelídeos, habitam principalmente sistemas de água doce e são indicadores da qualidade da água, para além de serem fundamentais para toda a cadeia trófica dos ecossistemas fluviais.

O uso do solo foi classificado, utilizando fotografias aéreas, em cinco categorias diferentes: bosque autóctone, zona agrícola, matagal e zona urbana.

Os cientistas descobriram que a diversidade de macroinvertebrados aumentava com o tamanho da bacia hidrográfica e com a proporção de superfície da bacia coberta por bosque autóctone. Por outro lado, a riqueza de macroinvertebrados, assim como a sua diversidade, diminuía à medida que aumentava o solo ocupado por eucaliptos.

Constatou-se assim que, quantos mais eucaliptos havia numa bacia, menor era a diversidade e riqueza de espécies lá, conta o jornal Galicia Confidencial.


Regato de Maneses | Foto: Universidade de Vigo

Outra descoberta feita no estudo, dirigido por Adolfo Cordero Rivera, diretor do Laboratório de Ecologia Evolutiva e de Conservação da Faculdade de Engenharia Florestal da Universidade de Vigo, foi a de que os regatos cujas bacias de drenagem estão cobertas principalmente por eucaliptais apresentam uma maior probabilidade de secar completamente no Verão.

Os cientistas notaram que a temperatura média das águas dos ribeiros subia quando o número de eucaliptos aumentava, já que, por um lado, os ribeiros que passam por eucaliptais têm menos caudal e, por outro, são menos sombreados por estas árvores. Isto faz aumentar a temperatura da água e a evaporação.

De facto, dos 16 ribeiros estudados, os que se localizavam em zonas exclusivamente dominadas por eucaliptais secaram completamente no Verão. O mesmo não se verificou no caso dos que se localizavam em zonas de bosque autóctone.

As descobertas deste estudo juntam-se às de trabalhos anteriores, os quais concluíram que as plantações de árvores de crescimento rápido afetam os recursos hídricos.
Para minimizar os efeitos da silvicultura industrial, os autores sugerem que a manutenção ou recuperação de bosques ribeirinhos poderia mitigar as repercussões das monoculturas intensivas de eucaliptos.


O Fashion Revolution é um movimento global que nos desafia a olhar para as etiquetas e a perguntar: quem fez a nossa roupa?
O UniPlanet falou com Salomé Areias, coordenadora do Fashion Revolution em Portugal, para ficar a conhecer melhor esta iniciativa.


UniPlanet (UP): Como nasceu o movimento Fashion Revolution?

O movimento Fashion Revolution começou no Reino Unido, pelas mãos da Carry Somers e Orsola de Castro que, tal como milhares de pessoas em todo o mundo, assistiram a 24 de abril de 2013 ao ruir do Rana Plaza em Dhaka, Bangladesh, que provocou mais de mil mortes e 2500 feridos - um evento trágico sem precedentes causado pela grande pressão do ocidente em produzir muita roupa, a baixo preço, sob fracas condições, tão rápido quanto possível. Assim surgiu a necessidade de criar elos fortes de ligação na indústria da moda, entre os seus consumidores, criadores, operários e organizações comerciais e políticas em prol da transparência, sustentabilidade e justiça no sector, a fim de evitar que um evento desta natureza jamais voltaria a acontecer.



UP: Qual é a sua opinião sobre a indústria da moda hoje em dia? Porque é importante sabermos quem fez a nossa roupa?

A moda é amplamente subestimada e entendida como algo fútil, supérfluo, mas extasiante. Em grande parte, é com base neste estigma (alimentado pelos media e pela necessidade de acelerar as tendências de moda e aumentar as vendas) que surge uma falta de respeito pela roupa que usamos, cada vez mais descartável e de baixa qualidade. Na verdade, o adorno responde a necessidades básicas humanas, tal como a auto-estima, proteção, sentido de pertença – tudo fatores vitais para a construção social.

Hoje em dia a pressão para gerar lucro infinitamente, num contexto em que os recursos materiais são finitos e a mão-de-obra tem limites, obriga as marcas de moda a explorar ininterruptamente ou a morrer, num mercado cada vez mais competitivo. Por outro lado, em poucas décadas neste formato económico, o consumidor perdeu a sua liberdade sem se dar conta, assistindo à extinção do artesanato e à supressão da oferta de produtos sustentáveis, inebriados pela oferta barata.

Pouco lhe resta senão corroborar com a cultura do consumo rápido, que lhe ensinou a ter muito pagando muito pouco, relativizando o estrago ambiental, o sofrimento de quem faz a roupa, e a estagnação das ideias para novos produtos, que não se multiplicam neste formato estéril.‘Longe da vista, longe do coração’: só quando conhecermos a história das nossas roupas e só quando reflectirmos sobre o seu destino, é que vamos reconhecer o nosso peso na equação quando as compramos, quando as desenhamos, quando as criamos, quando as distribuímos, quando as publicitamos.
O movimento #WhoMadeMyClothes é a arma que o Fashion Revolution usa para lutar pela transparência. Acreditamos que as pessoas que fazem as nossas roupas têm de sair do anonimato, as técnicas devem ser valorizadas, a atividade económica estimulada, os ecossistemas e tempo de produção respeitados.




UP: Vai decorrer, de 24 a 30 de abril, a Fashion Revolution Week. Quer falar-nos um pouco sobre o programa?

Nesta edição, para além de repetirmos alguns eventos de sucesso como o Swap Market, conferência sobre “Como consumir sustentável e justo em Portugal”, e workshops vários no fim de semana de 29 e 30 de abril, juntámo-nos à Montra e criámos o Mercado Justo e Sustentável, que vai ter lugar no Mercado de Arroios nos mesmos dias. Devido a várias sinergias que surgiram com escolas em Lisboa, foi possível criar também um programa riquíssimo de palestras e workshops ao longo da semana de 24 a 28 de abril a acontecer na Faculdade de Arquitectura de Lisboa, E. S. José Gomes Ferreira, E. S. Leal da Câmara e E. S. António Arroio. Juntem-se também a nós no dia 25 de abril, na Gulbenkian, no Dialogue Café para falar sobre moda sustentável e sobre como devemos repensar o sistema de moda.





UP: O que podemos fazer para que as nossas compras de roupa sejam mais éticas e sustentáveis?

Perante a necessidade em adquirir roupa, se o consumidor já descartou a hipótese de reutilizar ou reformar a roupa que já tem ou de trocar de roupa com familiares e amigos, a decisão de compra pode ainda passar por produtos em segunda mão. A compra é uma mensagem poderosíssima que o consumidor envia às marcas, um sinal verde para produzirem mais e mais, dentro dos valores que as próprias marcam advogam.

Por isso é tão importante questionar esses valores. A compra em segunda mão tem um impacto importante na medida em que, por um lado estamos a prolongar a vida de algo que já foi produzido, e por outro estamos a optar por um produto que geralmente tem maior durabilidade (regra geral, quanto mais antiga a roupa é, melhor a qualidade de confecção e material, devido à evolução da obsolescência planeada que se verificou ao longo do último século). No caso da compra de um novo produto, a estimulação da economia local é profícua para toda a comunidade, incluindo designers, makers, produtores da matéria-prima e consumidores.

O consumidor pode questionar sobre a origem dos produtos e perceber o impacto que está a criar no ambiente e no desenvolvimento económico das comunidades envolvidas e perceber se está de acordo com esse sistema. Existem marcas de moda sustentável um pouco por todo o mundo, e é possível comprar estes produtos online. Este tipo de comportamento de consumo requer mais tempo e um olhar mais analítico sobre o mercado, mas no fim compensa pela qualidade, pelo respeito à arte e pelo designer, pela durabilidade, e pela ligação emocional.




UP: Como podemos saber se um produto se enquadra nestas duas categorias?

Não é possível saber com toda a certeza enquanto não testemunharmos todo o processo, nem haverá um produto totalmente sustentável. É importante em primeiro lugar aceitar esta verdade, para que possamos começar a caminhada com um primeiro passo. É importante tentar e começar por algum lado. No momento da compra, o vendedor é a primeira pessoa que nos pode ajudar, e só o facto de questionarmos sobre a origem do produto a cada compra, já é um passo impactante.

Se puder conhecer o produtor ou artesão e saber que o seu trabalho é justamente remunerado e se lhe oferece todas as condições para evoluir e sustentar a sua comunidade, essa compra abrirá portas para o desenvolvimento económico, social e ambiental. Uma rápida pesquisa no site oficial das marcas, ou em fóruns com reviews pode esclarecer algumas dúvidas em segundos.

É importante que a marca respeite por um lado a sustentabilidade da extracção da matéria-prima, protegendo os ecossistemas, e por outro a ética no local de trabalho que permitirá aos artesãos/designers desenvolverem-se pessoal e profissionalmente, contribuindo para a inovação e desenvolvimento económico local. Toda a gente pode seguir o movimento online do Fashion Revolution e perguntar às marcas das suas roupas #WhoMadeMyClothes. As respostas que as marcas dão a estes pedidos não são tão raras quanto as pessoas pensam. Experimentem!




UP: O que esperam que as pessoas aprendam durante a Fashion Revolution Week?

Esperamos que as pessoas tentem entender o seu próprio comportamento de consumo, identifiquem as dificuldades em obter o que procuram, ganhem uma maior perspectiva sobre a vida do produto e sobre a energia que é investida para que o produto chegue às suas mãos, e sobretudo que pensem em soluções que respeitem todos os processos da sua produção. Nos eventos do Fashion Revolution Week em Portugal, os participantes vão poder aprender a fazer/reformar a sua própria roupa de forma criativa e a trocar roupa com outras pessoas (e assim acrescentar duas alternativa que pode preceder a decisão de compra), conhecer artesãos e designers nacionais e promover a economia local no Mercado Justo e Sustentável, e estabelecer novos contactos que podem ser profícuos para a produção sustentável, entre designers, consumidores e makers. Queremos que, acima de tudo, todos sintamos que temos uma quota parte de responsabilidade, e que todos temos uma voz para sugerir novas ideias.


UP: Onde podemos encontrar mais informação sobre o Fashion Revolution Portugal?

Podem saber tudo sobre a semana do Fashion Revolution Portugal na nossa página do Facebook e também seguir-nos no Instagram e Twitter.