Os resíduos plásticos estão a acumular-se no Ártico norueguês e a ameaçar a vida selvagem, avisou uma equipa de cientistas.



Pensamos no Ártico como uma região selvagem e remota, sem vestígios de atividade humana. No entanto, também esta região já foi tocada pela poluição por resíduos plásticos que está a assolar o planeta.

Uma equipa de cientistas avisou, num novo relatório, que os resíduos plásticos se estão a acumular no Ártico norueguês.

Os investigadores do Instituto Polar Norueguês afirmaram ter encontrado resíduos plásticos em praticamente todos os lugares onde procuraram e mostraram-se particularmente preocupados com as grandes concentrações de fragmentos de microplástico presentes no gelo marinho.

“Estamos a encontrar cada vez mais resíduos plásticos em Svalbard [arquipélago norueguês no oceano Ártico], onde trabalho”, contou Geir Wing Gabrielsen, um dos autores do estudo.

Os detritos de plástico representam uma ameaça para os animais marinhos, que podem ingeri-los ou ficar presos neles.

“Os pombaletes nidificam em Svalbard. No final dos anos 70, descobrimos muito pouco plástico nos seus estômagos. Em 2013, a última vez que investigamos, alguns tinham mais de 200 peças de plástico nos seus estômagos”, disse o investigador.

A proliferação de resíduos plásticos no Ártico está a afetar muitos outros animais para além das aves marinhas, causando a morte de peixes, focas e até mesmo renas. “Outros animais estão a ficar presos nas redes que dão à costa – como as renas. Algumas morrem porque não conseguem libertar as suas hastes – encontramo-las todos os anos.”



Segundo Gabrielsen, a poluição no sul da Noruega está dominada por detritos de plástico provenientes das habitações, mas, em Svalbard, 80% dos resíduos provêm das atividades de pesca, locais ou distantes.

Em algumas zonas, os investigadores descobriram concentrações de até 234 partículas de plástico em apenas um litro de gelo marinho derretido, o que é superior aos níveis encontrados em mar aberto.

Estes microplásticos (partículas com menos de 5 mm de diâmetro) incluem as fibras das roupas sintéticas e das artes de pesca e os fragmentos de resíduos maiores.

As sondagens sugerem que as tripulações dos navios de pesca estão cada vez mais conscientes da sua responsabilidade nesta questão e já há esquemas, na região, através dos quais os pescadores recolhem o lixo plástico que encontram no mar.


Foto: Stig Onarheim

Bo Eide, consultor ambiental da câmara municipal de Tromsø, organiza, há vários anos, limpezas nas praias do país.

“As pessoas veem as fotografias do Ártico pristino nas brochuras e reservam acomodações para virem cá passar as férias”, contou à BBC News. “Às vezes, ficam bastante chocadas ao descobrir que, de perto, o Ártico já não é como nas brochuras.”

“Só no ano passado, acho que retirámos 30 toneladas [de detritos e plásticos marinhos] – lixo das casas, película para guardar comida, garrafas”, lembra. “Mas a maior parte, em termos de peso, são artes de pesca. Enormes quantidades de pedaços de corda.”


Foto: Guri Tveito

“Descobrimos claros sinais de que [a frota de pesca internacional] contribui para este problema. Mas, de qualquer modo, encontramos lixo proveniente de toda a Europa e algum que vem do outro lado do Atlântico", disse Bo Eide. “Quero dizer, podemos atirar uma coisa ao oceano na Flórida e pensar que nos livramos dela. E depois esse objeto poderá acabar por vir parar às nossas praias.”

“É tão óbvio que o que estamos a fazer aqui é a ponta do iceberg. Mas é apenas a ponta visível”, declarou.

Ola Elvestuen, ministro norueguês do Ambiente, classificou a situação como “inquietante”. “Não há nenhum lugar na Terra que seja tão longínquo que não tenha sido afetado pelos plásticos. Isto deveria ser um apelo à tomada de medidas. Já se sabe [deste problema] há anos, mas a sua magnitude não foi assimilada como deveria ter sido. Temos de parar a poluição por resíduos plásticos.”

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