Todos os anos, 640 mil toneladas de redes de pesca são descartadas ou perdidas no mar, com impactos devastadores para a vida marinha.



Para chegarem ao seu prato, o peixe e o marisco são pescados com redes de pesca que podem ter centenas de metros de comprimento. Quando estas redes ficam demasiado desgastadas para continuarem a ser usadas na pesca comercial, algumas acabam, mesmo assim, por regressar ao mar. Só que, desta vez, como “redes fantasma”.

Todos os anos, 640 mil toneladas de redes, cordas e outras artes de pesca são descartadas ou perdidas no mar, com impactos devastadores para a vida marinha. Estas “redes fantasma” continuam a assombrar os oceanos muito depois de serem abandonadas, capturando e matando, entre outros animais, 136 mil focas, leões-marinhos e baleias.

Os peixes que morrem presos nelas atraem necrófagos, que, por sua vez, também ficam enredados e acabam por morrer, num ciclo sem fim. “Estas redes pescam 24/7”, disse Karim Hamza, membro de uma equipa de mergulhadores que recupera redes fantasma. Matam de tudo, peixes, crustáceos e mamíferos como leões-marinhos e golfinhos. São indiscriminadas.”

E não se tratam de um problema passageiro. “São feitas, essencialmente, para durar uma eternidade”, explica Kim Detloff, diretor da organização ambiental NABU. Podem durar 600 anos no oceano.”



Criando Soluções

A necessidade de se fazer frente a este problema tem feito surgir algumas start-ups que recolhem e reciclam utensílios de pesca velhos, tornando-os em matérias-primas, que podem ser usadas para se criarem produtos novos. Duas delas já o fazem em grande escala, a empresa italiana Aquafil e a dinamarquesa Plastix, trabalhando com portos espalhados pelo mundo.

Em 2013, por exemplo, a Aquafil contactou o Porto de Steveston, o maior do Canadá, para lhe fazer uma proposta: o porto enviaria as suas redes de nylon velhas para a sua unidade de reciclagem em Liubliana, na Eslovénia, e a empresa pagaria os custos de envio, assim como uma pequena quantia pelas redes. Na unidade de reciclagem, as redes são transformadas num fio que pode ser usado para fazer produtos como alcatifas, meias e, até mesmo, calças da Levi’s.

“Eles queriam expandir-se, estavam à procura de fontes de redes de pesca e de portos e nós somos o maior no Canadá”, explica Joel Baziuk, supervisor de operações na zona portuária de Steveston, ao Ensia. “Eu pensei: ‘Bem, finalmente talvez esteja aqui algo que possamos fazer para ajudar’”.

Desde que começaram a trabalhar juntos, em 2014, o Porto de Steveston já reciclou 40 toneladas de utensílios de pesca de nylon.



Como funciona

Antes de serem enviadas para a Eslovénia, as redes são entregues pelos pescadores, de graça, às autoridades portuárias. Em seguida, os componentes não recicláveis são retirados para as preparar para o envio – um trabalho que é realizado por pescadores, que recebem, para o fazer, parte da soma providenciada pela Aquafil. As redes são guardadas em sacos, que pesam entre 400 e 500 kg, e enviadas quando se atinge o peso de cerca de 20 000 kg.

Recolher os "fantasmas" dos oceanos

Desta forma, a Aquafil já reciclou centenas de toneladas de artes de pesca, muitas das quais foram recolhidas pela iniciativa Healthy Seas, uma colaboração entre a Aquafil, a Star Sock e o grupo ECNC. A missão desta iniciativa é “limpar o meio marinho” e “mostrar que [numa] economia circular, o lixo é um recurso, explica Veronika Mikos, coordenadora de projetos da ECNC. Para o fazer, a Healthy Seas recolhe artes de pesca abandonados no mar com a ajuda de equipas de mergulhadores.


A quantidade de redes que recolhemos de ano para ano está a aumentar exponencialmente, diz Veronika Mikos. “Encontrar os parceiros locais certos é a chave para o sucesso de cada iniciativa e, claro, a disponibilidade de recursos financeiros. Se estes critérios forem cumpridos, temos uma grande probabilidade de nos expandirmos para outros países.”



Para além do nylon

No entanto, a Aquafil só recicla o polímero nylon 6, o que deixa de fora vários tipos de utensílios de pesca. Esta é uma limitação que a empresa dinamarquesa Plastix não tem. Para além de reciclar nylon 6, a Plastix também processa redes de arrasto e os componentes metálicos das artes de pesca, tornando-os em matérias-primas que podem ser transformadas em produtos novos.

“O objetivo final é parar o fluxo de resíduos para o meio marinho e descobrir soluções de forma a melhor lidar com o desafio do lixo, conta o diretor da Plastix, Hans Axel Kristensen, acrescentando que pretende com a sua empresa incentivar “uma economia mais verde e circular na indústria marinha.”

Plastix comunica com os portos à volta do mundo através da Global Ghost Gear Initiative (GGGI). “A reciclagem dos utensílios de pesca pode ajudar a reduzir significativamente o volume de redes fantasma que entra nos nossos oceanos”, defende Ingrid Griskes, da organização que fundou o GGGI. Na sua opinião, “métodos e vias claras para a reciclagem dos utensílios [também] incentivam os pescadores a recuperar as artes de pesca e a trazê-las de volta à costa.”



Falta de informação

“Estamos a tentar expandir [este programa] ao longo da costa de [British Columbia] para mostrar que é possível fazê-lo em toda uma costa”, diz Joel Baziuk, embora admita a existência de dificuldades. A primeira prende-se com os custos de envio, já que os portos mais pequenos têm de enviar as redes para os maiores e que as empresas de reciclagem não pagam o transporte das redes entre portos.

A outra dificuldade diz respeito ao desconhecimento destas alternativas por parte dos pescadores. “Atualmente, não há muitos pescadores ligados [à internet]”, explica Joel Baziuk. “Levar a informação a pessoas que não estão ligadas é difícil.” Por outro lado, quando os pescadores descobrem que a reciclagem é uma opção, são muito recetivos, conta.



Um Oceano Circular

Para além do GGGI, há outras organizações e projetos dedicados a sensibilizar para os impactos ambientais das redes fantasma. Um deles, o projeto Circular Ocean, procura oportunidades para a recuperação e reutilização de cordas e redes de pesca velhas com o objetivo de beneficiar as economias locais. O projeto está atualmente a investigar possíveis aplicações das redes em áreas como o tratamento das águas residuais, a impressão 3D e como um material de reforço para o sector de construção.


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