Há centenas de toneladas de fragmentos de plástico a poluir as águas do Ártico, arrastadas por correntes, diz um novo estudo.



Há centenas de toneladas de plástico a poluir as águas do Ártico, levadas por uma corrente do Oceano Atlântico, diz um novo estudo publicado na revista científica Science Advances.

Os investigadores estimam que existam, atualmente, cerca de 300 mil milhões de pequenas peças de plástico nas águas do Ártico, principalmente nos mares da Gronelândia e de Barents, mas admitem que a quantidade real poderá ser mais elevada e que possa haver ainda mais plástico depositado no fundo do mar.

“Quando [o plástico] entra no Ártico, não tem forma de sair e fica lá preso”, dizem os cientistas, que apelidam esta região, a este da Gronelândia e a norte da Escandinávia, um “beco sem saída para os plásticos flutuantes”.

“Ainda só passaram cerca de 60 anos, desde que começámos a usar o plástico a nível industrial, e a utilização e produção têm estado a aumentar, desde então”, disse Carlos Duarte, um dos coautores do estudo e diretor do Centro de Investigação do Mar Vermelho. “Portanto, a maioria do plástico que colocámos no oceano ainda está em trânsito com destino ao Ártico.”



Cientistas a bordo do navio Tara recolhem plâncton e microplásticos (Anna Deniaud/Tara Expeditions Foundation)

Os detritos de plástico mais encontrados pelos investigadores foram pequenos fragmentos, medindo, na sua maioria, entre 0,5 mm e 12,6 mm. A equipa também encontrou linhas de pesca, película e granulados de plástico.

De acordo com os cientistas, o tamanho reduzido e o estado desgastado e envelhecido do plástico encontrado parecem indicar que estes detritos já se encontravam há vários anos no oceano e que “o plástico tinha, em grande medida, viajado de fontes distantes, incluindo as costas do noroeste da Europa, do Reino Unido e a costa este dos EUA”.

“As peças de plástico, que, a princípio, poderiam medir centímetros ou metros, foram quebradas pela exposição solar e depois fragmentadas em partículas cada vez mais pequenas, dando, eventualmente, origem a este plástico, que mede milímetros, a que chamamos microplástico, contou Carlos Duarte ao Washington Post. “Esse processo demora anos ou décadas. Por isso, o tipo de material que estamos a observar lá parece ter entrado no oceano há décadas.”


Fragmentos de linha de pesca encontrados pelos investigadores | Foto: Andrés Cózar

O trabalho foi dirigido por Andrés Cózar Cabañas, professor de biologia da Universidade de Cádiz (Espanha), e contou com a participação de outros 11 investigadores de universidades de oito países: Arábia Saudita, Dinamarca, Espanha, Estados Unidos, França, Holanda, Japão e Reino Unido.

Para a realização do estudo, os cientistas recolheram amostras do lixo plástico flutuante em 42 locais no Oceano Ártico, a bordo do navio de investigação Tara, que, em 2013, circum-navegou este oceano, e descobriram que os mares da Gronelândia e de Barents continham 95% dos plásticos do Ártico.

Esta área do oceano é importante na circulação termohalina, uma corrente global profunda, alimentada pelas diferenças de temperatura e salinidade das águas. A corrente parece estar a levar com ela resíduos plásticos de linhas costeiras mais densamente povoadas.


Localizações e concentrações do plástico recolhido | Mapa: Andrés Cózar

O mar de Barents é uma importante área de pesca de bacalhau, eglefim, arenque, entre outras espécies, e os cientistas não sabem como o lixo marinho estará a afetar estes animais.

“Não compreendemos inteiramente as consequências que o plástico está a ter ou terá nos nossos oceanos”, disse o autor do estudo, Andrés Cózar, ao The New York Times. “O que sabemos é que estas consequências serão sentidas em maior escala num ecossistema como este.”

Todos os anos, cerca de 8 milhões de toneladas de plástico vão parar ao mar e estima-se que poderão existir 110 mil milhões de toneladas deste material no oceano. O plástico no mar é responsável por ferir e matar inúmeras espécies da fauna marinha e de estar a fazer o seu caminho, através da cadeia alimentar, até aos nossos pratos.

Pensava-se que o plástico no mar se acumulava em grandes “ilhas”, principalmente nos giros subtropicais – grandes correntes que convergem no meio do oceano –, mas os cientistas estimam que só cerca de 1% da poluição de plástico esteja localizada nestes giros e em outras águas superficiais no mar aberto.

O estudo descobriu ainda que o plástico flutuante no Ártico corresponde a menos de 3% do total global, mas os autores avisam que continuará a acumular-se, com o passar dos anos.

Para Andrés Cózar, a lição a reter deste trabalho de investigação é a de que este problema “requererá acordos internacionais”. “O plástico provém de nós, no Atlântico Norte”, declarou. “E quanto mais soubermos sobre o que acontece no Ártico, maior será a probabilidade que temos” de resolver o problema.

1ª foto: Fragmentos de plástico encontrados no Oceano Ártico pela equipa de investigação (Andrés Cózar)


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