Um novo estudo revelou que os níveis de microplásticos a acumularem-se no oceano Antártico são "muito piores" do que se esperava.



Apesar de a "Antártida ser considerada uma região selvagem extremamente isolada e intocada”, o plástico já invadiu as águas que a rodeiam. Cientistas britânicos descobriram que os níveis de microplásticos a acumularem-se no Antártico são "muito piores" – cinco vezes mais elevados – do que se esperava.

Os microplásticos são partículas com menos de 5 mm de diâmetro, que estão presentes em alguns produtos do dia-a-dia, como pasta-de-dentes, champô, gel de banho e detergentes, ou que se libertam dos pneus e das roupas de tecidos sintéticos. De cada vez que é lavado, um casaco polar liberta milhares de fibras de plástico.

Estes pequenos fragmentos vão parar ao mar através das águas residuais e da degradação de detritos de plástico maiores e já foram descobertos tanto na superfície do mar, como no oceano profundo e nos sedimentos do fundo do mar.

Como os níveis de microplásticos registados no Antártico são mais elevados do que os que a equipa esperava encontrar com origem local, ou seja, provenientes de navios e estações de investigação, os investigadores admitem a possibilidade de o plástico proveniente de outras regiões estar a atravessar a Corrente Circumpolar Antártica, historicamente considerada quase impenetrável.


Microfibras de plástico encontradas no oceano Antártico | Fotos: Catherine Waller e Claire Waluda

O oceano Antártico ou Austral representa 5,4% dos oceanos do mundo. Para além das ameaças que a pesca, poluição e introdução de espécies não indígenas representam para a região, os cientistas temem os efeitos que a poluição de resíduos plásticos pode ter no ecossistema, sendo que os animais marinhos podem ficar presos nos detritos ou ingeri-los.

“O ecossistema é muito frágil, com as baleias, focas e pinguins a consumir krill e outros tipos de zooplâncton como um elemento essencial da sua dieta”, explicou Catherine Waller, autora do estudo e especialista em ecologia e biologia marinha da Universidade de Hull.

Em março, um cientista filmou o momento em que uma microfibra de plástico é ingerida por plâncton. Segundo ele, a presença de plástico no fundo da cadeia alimentar poderá afetá-la “até ao topo”.

“Temos monitorizado a presença de detritos grandes de plástico na Antártida ao longo de mais de 30 anos. Embora saibamos que as peças maiores de plástico podem ser ingeridas por aves marinhas ou causar o enredamento das focas, os efeitos dos microplásticos nos animais marinhos no oceano Antártico ainda são desconhecidos, disse Claire Waluda, coautora do estudo e bióloga do British Antarctic Survey.



Mais de metade das estações de investigação na Antártida não possui sistemas de tratamento de águas residuais, revelou o trabalho de investigação, que foi publicado na revista científica Science of the Total Environment.

Estima-se que até 500 kg de microplásticos dos produtos de cuidado pessoal e até 25,5 mil milhões de fibras sintéticas da roupa entrem no oceano Austral por década, devido às atividades turísticas, de pesca e de investigação científica. Embora isto seja insignificante à escala do oceano, os investigadores afirmam que pode ser significativo a uma escala local.

“A nossa compreensão das fontes e destino dos plásticos nestas águas é, quanto muito, limitada”, disse Huw Griffiths, coautor do estudo e biogeógrafo marinho do British Antarctic Survey.

“Este trabalho representa um excelente passo em direção ao reconhecimento da presença de microplásticos na Antártida e permite-nos reivindicar esforços internacionais de monitorização da situação enquanto esta ainda está nas suas fases iniciais”, afirmou Claire Waluda.

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