Foram 1730 as espécies vegetais descobertas em 2016, entre as quais pastinacas, café, begónias e gengibre, revelaram os Reais Jardins Botânicos de Kew.



Foram mais de 1700 as espécies vegetais descobertas no ano passado, entre as quais uma variedade nova de pastinaca da Turquia, café de Madagáscar e trepadeiras do Bornéu e do Equador que podem vir a ser usadas no tratamento de doenças, revela o relatório “Estado das Plantas do Mundo”.

Algumas das descobertas mais relevantes, no que toca às plantas comestíveis, foram 11 novas espécies de mandioca no Brasil, assim como alcaparras, gengibre, baunilha e cana-de-açúcar de vários países.

Também foram descobertas 29 novas variedades silvestres de begónias nas florestas da Malásia, orquídeas no Camboja, rosas e alegrias-do-lar na China e violetas na Turquia.

O relatório revelou que há mais de 28 000 espécies de plantas com propriedades medicinais, às quais se poderão juntar as trepadeiras encontradas no Bornéu e no Equador, uma vez que são “parentes” de plantas atualmente utilizadas no desenvolvimento de medicamentos para a doença de Parkinson.


Begonia rubrobracteolata, uma das 29 novas begónias descobertas na Malásia (Jardins de Kew)

“Acho muito encorajador o facto de existirem muitas, muitas plantas novas por descobrir no mundo, disse, ao The Guardian, Kathy Willis, diretora de ciência nos Reais Jardins Botânicos de Kew, que lideraram o estudo. “As plantas são de crítica importância para a vida na Terra e para todos os aspetos do bem-estar humano.”

As variedades silvestres das nossas culturas sobreviveram durante centenas de milhares de anos em todo o tipo de condições. Isto conferiu-lhes características, como a resistência à seca e às doenças, que as nossas variedades comerciais perderam ao longo dos anos em que foram selecionadas e cruzadas de forma a tornarem-se mais produtivas. As 11 espécies de mandioca descobertas, por exemplo, poderão ajudar a criar variedades mais robustas deste produto, do qual dependem milhões de pessoas nos trópicos.

“Existe, atualmente, um afastamento entre as plantas e as pessoas”, contou Kathy Willis. “O facto de tantas delas serem plantas das quais dependemos todos os dias ou que podem fornecer-nos uma nova fonte de medicamentos, comida ou combustível – não consigo pensar num argumento mais forte do que este para se preservarem as plantas.”


Manihot debilis, uma das 11 novas espécies de mandioca descobertas no Brasil (Jardins de Kew)


Englerophytum paludosum, uma nova árvore com frutos comestíveis (Jardins de Kew)

Hoje em dia, uma em cada cinco espécies de plantas está em risco de extinção. Devido à perda de habitat, algumas plantas já quase desapareceram na altura em que são descobertas. É este o caso de uma árvore descoberta durante o desenvolvimento de uma mina de urânio em Mali. Com menos de 10 exemplares adultos conhecidos, a espécie tornou-se automaticamente criticamente ameaçada.

Porém, a tarefa de descobrir variedades silvestres nem sempre é a mais fácil. “Muitas vezes, elas têm um aspeto medonho e não se encontram em áreas protegidas”, confessa a investigadora. O seu comentário sobre a nova pastinaca descoberta na Turquia não é muito lisonjeador: “É a planta mais lastimável que já se viu”.

Entre as descobertas mais surpreendentes conta-se uma espécie de bambu do Madagáscar, que pode demorar meio século a produzir aglomerados de flores espinhosas, que lembram ouriços-cacheiros.


Sokinochloa australis, um novo tipo de bambu do Madagáscar (Jardins de Kew)

Num futuro próximo, os cientistas dos Jardins de Kew vão trabalhar com o governo da Colômbia para explorar novas áreas no país, agora acessíveis graças a um acordo de paz com os rebeldes. É uma das áreas mais ricas em biodiversidade do mundo e as pessoas não fazem ideia de que plantas lá há.”

O relatório também examinou as ameaças que as espécies vegetais enfrentam, como os incêndios florestais, que queimam 340 milhões de hectares de vegetação por ano – uma área do tamanho da Índia –, revelando que algumas regiões estão a assistir a uma maior frequência e intensidade dos fogos, devido à expansão das espécies mais inflamáveis, como os eucaliptos e as mimosas.

As pragas, doenças e espécies invasoras são outras destas ameaças, que podem custar à agricultura mundial quase 450 mil milhões de euros por ano. As principais pragas já são, muitas vezes, resistentes a dezenas de pesticidas.

O relatório cita, como exemplo, a ameaça que o besouro-verde (Agrilus planipennis), nativo da Ásia e que se tem vindo a espalhar pelo mundo, representa para os freixos – acredita-se que este besouro vá matar grande parte dos 8 mil milhões de freixos dos EUA.

E a perda de espécies vegetais tem efeitos colaterais. “Não se perdem só as árvores da nossa rua, há um aumento nas doenças respiratórias e um aumento nos problemas de saúde mental, explica Kathy Willis.

1ª foto: Uma nova espécie de Aspalathus (Jardins de Kew/PA)

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