A crescente popularidade dos superalimentos nos países desenvolvidos tem consequências imprevistas para as populações que dependem deles.

Coco

A crescente popularidade de produtos “exóticos” nos países desenvolvidos tem consequências imprevistas para as populações que dependem deles para mais do que uma receita sem glúten.

Já deve ter visto, na internet, uma das imensas listas que descrevem as centenas de maneiras como o óleo de coco pode melhorar a sua vida. Este produto, que os habitantes do sul e do sudeste da Ásia, assim como das ilhas têm usado para fins terapêuticos, cosméticos e para cozinhar muito antes de Colombo ter feito o caminho errado para os visitar, tem sido verdadeiramente “colombizado” – um termo que se usa “quando os ocidentais descobrem algo que todos os outros já conheciam”, explica Sunili Govinnage, num artigo no The Guardian.

O coco tem, de facto, propriedades fantásticas. A água é usada, com sucesso, para tratar problemas de saúde, o açúcar de coco é uma boa alternativa para o convencional e as fibras são usadas em vários materiais de construção. A súbita popularidade deste fruto deve ter deixado quem cresceu a usá-lo surpreso e perplexo, mas o mesmo se deve ter passado com os sul-americanos em relação à explosão de popularidade da quinoa, nos últimos anos.
A procura de quinoa – uma das bases da dieta de alguns países da América do Sul – pelos países desenvolvidos, fez subir os preços deste pseudo-cereal de tal maneira que as pessoas mais pobres no Peru e na Bolívia já não o conseguem comprar. A “comida de plástico” importada é mais barata. Em Lima, segundo o The Guardian, a quinoa custa agora mais do que o frango. Fora das cidades, e propulsionada pela procura além-mar, a pressão para tornar a terra, que antes produzia uma variedade de plantações diferentes, numa monocultura de quinoa é premente.

Quinoa

O comércio de quinoa é apenas mais um exemplo preocupante de um intercâmbio entre culturas prejudicial, com consumidores bem-intencionados movidos pela ética e pela saúde a criarem, involuntariamente, pobreza do outro lado do mundo.
A “colombização” costuma beneficiar apenas um determinado grupo. Nos produtos primários, ao haver um aumento da procura com a “descoberta” de certas plantações de países menos desenvolvidos, aumenta também o risco de práticas pouco escrupulosas, como a apropriação de terra e a exploração do trabalho.

No Sri Lanka, ao mesmo tempo que aumentou a procura global de produtos de coco, transformando plantações em monoculturas, muitas zonas costeiras tradicionalmente usadas para plantações tornaram-se um alvo para a construção de resorts, enquanto o turismo pós-guerra floresce – isto parece a receita para um desastre alimentar.
O teff da Etiópia e o baobab de Malawi têm sido publicitados como as próximas grandes “descobertas”. O que acontecerá quando estes produtos também ficarem na moda?

Existem, no entanto, exemplos deste tipo de comércio com benefícios para ambos os lados, como no caso do Comércio Justo e do Selo de Origem Única. Para que isto aconteça é preciso tornar os consumidores conscientes e pressionar as cadeias de fornecimento. E por muito admiráveis que sejam as práticas do Comércio Justo, não têm resolvido os problemas das plantações internacionais de cacau e de café.
Como consumidor, tem o poder e a responsabilidade de influenciar estas indústrias. Se tem em consideração o valor nutricional dos alimentos que consome, deve considerar também o seu lado ético. Comprar produtos como quinoa, óleo de coco e teff não tem de ser uma coisa negativa se estes provierem de produtores éticos e os lucros permanecerem nas comunidades que os descobriram em primeiro lugar.
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