Os lançamentos de balões devem ser proibidos porque têm um impacto devastador nos animais selvagens e no ambiente, dizem os cientistas.



O que acontece aos balões de hélio que largamos durante as celebrações ou eventos?
Quando rebentam ou se esvaziam, muitos vão parar ao campo, a matas, a praias e ao mar – onde se juntam aos milhões de detritos a poluir os nossos oceanos – e colocam em risco a fauna selvagem.

Os animais que se deparam com os balões, as suas fitas, clips e suportes de plástico podem ficar presos neles ou ingeri-los e, para muitos, este acaba por ser um encontro fatal.

“Nos últimos 10 anos temos visto um aumento do número de balões que encontramos nas nossas praias. E sabemos que estes são só os balões nas praias. Acreditamos que haja muitos mais na água”, disse Gill Bell, do grupo de conservação marinha Marine Conservation Society (MCS). “Um estudo internacional recente descobriu quase 60 000 balões num período de dois dias, no ano passado. Quem sabe quantos haverá no mar.”

“Quando os balões voam, as aves marinhas morrem”

Esta é a mensagem de uma campanha australiana contra o lançamento de balões. Segundo Jenny Gray, uma das organizadoras, as aves marinhas estão entre os animais mais afetados por esta prática.

Animais presos em balões e fitas | Fotos: Sue Pemberton e Ocean Conservancy

“O nosso lixo está a afetar os animais a um nível muito profundo”, contou. “Encontram-se, frequentemente, crias de aves com falta de peso e famintas, com os seus estômagos cheios de lixo, incluindo balões e os seus adereços.”

Mas o látex natural não é biodegradável?

Embora os balões de látex sejam biodegradáveis, ao contrário dos de mylar, podem, mesmo assim, resistir no meio marinho durante vários anos.

“Existe imensa confusão relativamente aos balões, especialmente no que toca ao material de que são feitos e à forma como se decompõem. Algumas pessoas acreditam que, por o látex ser um material natural, os balões feitos dele são inofensivos quando largados. Mas isto simplesmente não é verdade. O látex pode durar até quatro anos no meio marinho”, explicou Emma Cunnigham da MCS.

“A investigação mais recente também mostra que apenas cerca de 13% dos balões rebentam, dividindo-se em pequenos fragmentos, ao passo que mais de 80% descem intactos. Isto poderia explicar o aumento dos níveis de resíduos de balões que temos visto nas praias, que vão ter um grande impacto na fauna selvagem.”



Cavalos, tartarugas e focas

Não são só as aves marinhas a ser afetadas pelos balões. Jenny Gray salienta ainda os casos de focas e tartarugas que ficam presas neles ou os ingerem.

Da mesma forma, o impacto dos balões não se limita ao meio marinho. Em março, uma égua de três anos morreu depois de encontrar um balão na pastagem, na Inglaterra. A égua Feisty engoliu a fita do balão, o que fez com que começasse a asfixiar e que o balão lhe cobrisse os olhos e as orelhas. O animal em pânico começou a galopar, embatendo contra um portão, partindo duas patas e, eventualmente, o seu pescoço. A dona de Feisty reprovou publicamente a prática de se lançarem balões em casamentos e funerais, designando-a de “egoísta”.

“São atos egoístas de sentimentalismo, sem um verdadeiro propósito, que deixam o campo sujo com balões de hélio e de ar quente. Para além da confusão e inconveniência que criam para as pessoas no meio rural também custaram a vida a um belo cavalo que sofreu a morte mais agonizante imaginável”, disse.


O balão que vitimou a égua Feisty | Foto: Glen Minikin

Recentemente, o Aquário Marinho de Clearwater, nos EUA, resgatou uma tartaruga-verde juvenil, a que chamou Chex, encontrada a flutuar na superfície do oceano, impossibilitada de mergulhar.

As tartarugas-verdes costumam passar grande parte do seu tempo debaixo de água, vindo respirar à superfície de tempo a tempo. Quando se encontra uma tartaruga flutuante como Chex, pode ser sinal de que ela está com problemas gastrointestinais, o que muitas vezes é sinónimo de que o animal ingeriu um detrito, como um saco de plástico ou um balão. O detrito fica preso no seu aparelho digestivo e cria a acumulação de gás no sistema da tartaruga, fazendo com que ela flutue. Como resultado, a tartaruga fica incapaz de se alimentar, defender e muitas vezes acaba por morrer à fome.


A tartaruga Chex ao lado do balão e fita que ingeriu | Foto: Clearwater Marine Aquarium

“A ingestão de lixo, como sacos de plástico, balões e outros plásticos não biodegradáveis, é, para nós, virtualmente impossível de detetar com raios X, tomografias computorizadas ou outros diagnósticos, até ser demasiado tarde”, explicou Laureen Bell, bióloga do Aquário.

À semelhança de tantas outras tartarugas, Chex terá confundido o balão com alimento, provavelmente com uma alforreca.

A reabilitação de Chex durou 66 dias. “O resgate, reabilitação e libertação de Chex salientam o impacto negativo que a largada de balões pode ter na fauna marinha”, disse Bill Potts, do Aquário. “Embora Chex tenha sido afortunado, temos esperança de que esta história lembre as pessoas dos perigos dos balões.”



"Poluição errada e desnecessária"

Mike Hosken é um cidadão britânico que apanha regularmente o lixo que encontra numa praia, em Northumberland, durante os passeios com o cão. É frequente encontrar balões velhos e, quando consegue identificar de onde vieram, envia-os de volta.

“Um dos casos recentes – e lembrem-se que estamos na costa nordeste – foi um balão da cidade de Gloucester [localizada no sudoeste do país]”, contou. “Vêm de todos os lados. Estatisticamente pode não ser uma poluição gigantesca, mas é errada e desnecessária.”


Foto: Virginia Aquarium Stranding Response Program

Proibir os lançamentos de balões

Por todo o mundo, há varias campanhas que tentam persuadir as autoridades locais e organizadores de lançamentos de balões a encontrar outras formas de publicitar as suas causas. A MCS sugere, por exemplo, que os balões sejam enchidos apenas com ar em vez de hélio, para que não percorram centenas de quilómetros no ar.

Estas campanhas estão a obter alguns resultados. Mais de 50 autoridades locais do Reino Unido, assim como os estados da Flórida, Virgínia, Tennessee, Connecticut, Texas e Califórnia, nos EUA, e New South Wales e Queensland, na Austrália, já proibiram os lançamentos de balões.

Também há empresas a juntarem-se a esta causa. A Retail First, uma empresa australiana que gere centros comerciais, proibiu os balões a hélio, depois de ter sido descoberto um balão da sua marca dentro de um albatroz-de-cabeça-cinzenta, uma espécie ameaçada.

“Independentemente da forma como esta ave vulnerável morreu, não queremos contribuir mais para a perda de criaturas tão raras e belas, disse Bec Gascoigne, diretora de marketing da empresa.

1ª Foto: Torda-mergulheira morta, descoberta com o corpo envolto em fitas de balão (Christina McGuinness)

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