Os animais já não conseguem escapar ao ruído causado pelos seres humanos, cujos níveis chegam a ser dez vezes superiores aos dos sons naturais.



A poluição sonora causada pelas atividades humanas está a abafar os sons da natureza, mesmo nas áreas naturais protegidas, alerta um novo estudo publicado na revista científica Science.

Este ruído está a afetar os animais selvagens, comprometendo a sua capacidade de encontrar parceiro ou comida, escapar aos predadores, comunicar e manter relações em grupos socais, explica Rachel Buxton, investigadora da Universidade do Estado do Colorado, que liderou o estudo. “O facto de não conseguirem ouvir estes sons tem consequências graves.”

Com base em mais de um milhão de gravações sonoras realizadas em 492 locais em áreas protegidas dos EUA, a equipa de cientistas calculou que, em cerca de dois terços dos locais, o ruído antropogénico (causado pelas atividades humanas) era duas vezes mais elevado do que os níveis sonoros de fundo. Num quinto das áreas protegidas, os níveis de ruído chegavam a ser 10 vezes superiores, o que significa que os sons naturais que seriam detetáveis a 100 metros de distância, poderiam só ser ouvidos a 10 metros.

“Da próxima vez que for passear na floresta, preste atenção aos sons que ouve – o fluxo do rio, o vento através das árvores, as aves a cantar, o chamamento do uapiti. Estes recursos acústicos são tão formidáveis como os visuais e merecem a nossa proteção”, declarou Rachel Buxton.


Uma estrada movimentada no Parque Nacional de Redwood, na Califórnia | Foto: Tara Schatz

A poluição sonora também afeta a nossa apreciação dos espaços naturais. “[Os sons naturais] fazem-nos sentir bem e são importantes para o nosso bem-estar físico e emocional, disse a investigadora. “Temos estudos que mostram que os sons naturais melhoram a nossa disposição, memória e restituem os nossos sentidos.”

As principais causas de ruído antropogénico identificadas pela equipa são o tráfego rodoviário e aéreo, as povoações e as indústrias extrativas, como a silvicultura industrial, o fracking e a exploração mineira.

Os cientistas também registaram níveis elevados de poluição sonora em habitats críticos para espécies ameaçadas, nomeadamente nos habitats de plantas e insetos em risco de extinção. “Embora as plantas não ouçam, muitos animais que dispersam as sementes ou polinizam as flores ouvem, e sabe-se que são afetados pelo ruído”, explicou a investigadora.

Em 12% das áreas definidas como “natureza em estado selvagem”, que deveriam ser livres de qualquer influência humana, de acordo com as leis dos EUA, o barulho de fundo também duplicou devido às atividades humanas.


Motas para a neve no Parque Nacional de Yellowstone

No entanto, as leis relativas às áreas protegidas nos EUA não incluem medidas para monitorizar e gerir este ruído, o que é “uma oportunidade perdida, já que há técnicas disponíveis para gerir a poluição sonora”.

Estas técnicas, que incluem serviços de ligação para reduzir o tráfego dos visitantes e restringir o ruído a determinados corredores, através do alinhamento dos padrões de voo com as estradas, já estão a ser praticadas em algumas áreas protegidas. Por exemplo, no Parque Nacional de Yellowstone, têm sido tomadas medidas para reduzir o ruído provocado pelos barcos a motor e pelas motas para a neve.

Noelle Kumpel, da Sociedade Zoológica de Londres, acha que este é um assunto que merece mais reflexão e salienta que não faltam provas do impacto do ruído antropogénico na vida selvagem um pouco por todo o mundo, desde explorações petrolíferas que afugentam elefantes no Uganda ao ruído subaquático que provoca encalhamentos em massa de baleias nas Ilhas Canárias, contou ao The Guardian.

“É um impacto oculto no qual não pensamos. Como seres humanos, valorizamos e apreciamos a paz e o sossego, e a vida selvagem reage da mesma forma. Os níveis do ruído são importantes para essa apreciação e para o que nós e os animais recebemos da natureza”, disse Noelle Kumpel.


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