Para produzir os alimentos que são desperdiçados usa-se uma área com 28 vezes o tamanho de Espanha e desflorestam-se 15 milhões de ha por ano.



Imagine um 1 seguido de nove zeros – esse é o número de toneladas de alimentos que se desperdiçam no mundo, todos os anos. De facto, o número é ainda maior: estamos a falar de 1300 milhões de toneladas de comida, por ano.

Para este desperdício global desflorestam-se 15 milhões de hectares anualmente. E para produzir os alimentos que nunca chegarão a consumir-se, cultivam-se 1400 milhões de hectares – 28 vezes a superfície de Espanha –, gasta-se energia equivalente a 300 milhões de barris de petróleo e utiliza-se uma quarta parte da água destinada à agricultura. Todo este esforço é para produzir alimentos que não terminarão na boca do consumidor e que, em grande parte, acabarão no lixo”, diz José Esquinas, professor da Universidade Internacional de Ciências Gastronómicas de Pollenzo, que durante 30 anos exerceu funções na FAO, com a qual ainda colabora.

A Comissão Europeia estima que, na UE, o desperdício chegue a 126 milhões de toneladas de alimentos, em 2020. Só em Portugal, desperdiça-se um milhão de toneladas de alimentos por ano, 132 kg por habitante. Isto numa altura em que “800 milhões de pessoas passam fome no mundo e, deste número, 17 milhões morrem por esta causa, todos os anos”, conta José Esquinas ao El País.

O professor e ex-diretor da cátedra de Estudos sobre Fome e Pobreza da Universidade de Córdova admite a complexidade de um sistema agroalimentar ineficiente e injusto, que tem graves consequências ambientais e sociais, mas aponta medidas para todas as partes envolvidas, como pensar global e agir local, apoiar a agricultura familiar e a produção mais próxima do consumidor, fazer da compra um ato político e só comprar o necessário, reutilizar, reciclar e trabalhar no sentido de facilitar o acesso de toda a população aos alimentos.

Também é vital o envolvimento dos produtores e dos vendedores, que produzem e distribuem mais do que o necessário. Segundo a associação espanhola de empresas de grande consumo AECOC, 2,42% dos produtos nunca chegam a ser comercializados, uma situação que o presidente da associação admite ser “um desperdício que tem um elevado impacto económico, social e ambiental”. Em 2016, o grupo DIA, que faz parte da iniciativa contra o desperdício e para o “aproveitamento de excedentes” da AECOC, recolheu e entregou mais de 4,5 milhões de quilos de comida a bancos alimentar de cinco países – Portugal, Espanha, Brasil, Argentina e China –, 14% mais do que no ano anterior.

Já há países a tentar reduzir o nível de desperdício alimentar que geram. Em alguns países europeus, os restaurantes exibem selos que certificam a reutilização dos excedentes ou pagam mais impostos em função do lixo gerado. A Itália aprovou uma lei que facilita a doação dos alimentos que as empresas e os agricultores não vendem a instituições de caridade. E, em França, os supermercados com mais de 400 metros quadrados não podem deitar fora produtos alimentares fora de validade ou danificados, sendo obrigados a doá-los.

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