Está a crescer o comércio ilegal de dentes de jaguar na América do Sul, avisam os conservacionistas.



Está a crescer o comércio ilegal de dentes de jaguar na América do Sul, avisam os conservacionistas, que ligaram este comércio aos projetos chineses de construção civil nos países sul-americanos.

Quando os habitantes locais descobrem que os trabalhadores das empresas chinesas de construção têm interesse em comprar ossos, chifres e outras partes de animais em virtude das suas supostas “propriedades medicinais”, abrem-se as portas para o comércio ilícito destes produtos.

O tráfico de vida selvagem acompanha assim frequentemente os projetos de construção chineses noutros países, uma vez que os trabalhadores de nacionalidade chinesa podem enviar ou levar os objetos com eles para casa.

“Estes projetos são, essencialmente, como aspiradores gigantes da vida selvagem, que sugam tudo de volta para a China”, disse Vincent Nijman, investigador de conservação da Universidade de Oxford Brookes.

Para substituir as partes corporais outrora fornecidas pelos tigres, a medicina tradicional chinesa está a virar-se para os órgãos de outros grandes felinos. Isto são notícias preocupantes para os jaguares, cujos números sofreram um declínio nas últimas duas décadas devido à desflorestação e aos confrontos com os produtores de gado.


Os remetentes dos dentes costumam ser cidadãos chineses a viver noutros países | Foto: Ecopol

Mais de 100 jaguares poderão ter sido mortos em menos de um ano para satisfazer a procura das suas partes corporais na China.

Um artigo da revista científica Nature dá a conhecer os casos de duas destas mortes. Um dos animais foi encontrado a flutuar num canal de drenagem em Belize, na América Central. “O seu corpo estava fundamentalmente intacto, mas faltavam-lhe os caninos”, lê-se no relatório. “[Umas semanas depois], um segundo felino – desta vez um ocelote que pode ter sido confundido com um jaguar jovem – apareceu decapitado no mesmo canal.”

Na Bolívia, somam-se as apreensões de dentes caninos de jaguar. No norte do país, onde várias empresas chinesas estão a trabalhar, anúncios na rádio e panfletos chegam a oferecer mais de 100 euros por cada dente canino – uma quantia superior ao rendimento mensal de muitos residentes locais.


Cria de jaguar | Fotos: Tambako The Jaguar/Flickr

O problema também já chegou ao Brasil, onde o grande felino é conhecido como onça-pintada. “No ano passado, houve mais de 50 apreensões de pacotes que continham partes de jaguar no Brasil. A maioria parecia ter como destino a Ásia e a China. Também vale a pena notar que há importantes comunidades chinesas no Brasil”, explicou a investigadora brasileira Thaís Morcatty.

Os conservacionistas temem a ameaça que este tipo de comércio representa para a vida selvagem global. As empresas chinesas têm vindo a estabelecer grandes projetos de construção em mais de 60 países, incluindo uma central elétrica na Nigéria, vias-férreas em Angola e uma ponte na Tanzânia.

“Estes projetos são geridos por trabalhadores chineses, que convivem com os habitantes locais e enviam objetos para as suas famílias na China. Entre as coisas que enviam estão ossos, peles e chifres ilícitos valiosos para a medicina tradicional”, disse Vincent Nijman. “No final do dia, quase tudo o que pode ser morto e comercializado acaba por ser vítima deste destino.”

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