A “caça é de longe a maior ameaça imediata” à sobrevivência da maioria dos animais em risco de extinção do sudeste asiático, avisam os cientistas.



Embora se costume pensar que a desflorestação e a degradação das florestas são as principais ameaças à biodiversidade tropical, a verdade é que, segundo um estudo publicado na revista científica Conservation Biology, a “caça é de longe a maior ameaça imediata” à sobrevivência da maioria dos vertebrados ameaçados do Sudeste Asiático.

“O Sudeste Asiático está a passar por uma crise de vida selvagem”, escreveram os autores do trabalho, explicando que grandes áreas de habitat natural se encontram agora quase desprovidas de animais de grande porte, com a exceção de algumas espécies resistentes à caça.

“A não ser que haja uma mudança decisiva nos esforços para reduzir a exploração da vida selvagem para níveis sustentáveis, a região deverá perder a maioria das suas espécies icónicas, e muitas outras para além destas, nos próximos anos”, alertaram os investigadores.

Para examinar os impactos da caça nas populações de animais da região, a equipa realizou uma análise rigorosa de estudos publicados em revistas científicas locais, assim como de relatórios de agências governamentais e não-governamentais. Descobriu que as populações de animais tinham sofrido um declínio acentuado em diversos locais no Sudeste Asiático desde 1980 e que muitas espécies tinham sido totalmente dizimadas de áreas consideráveis dos seus habitats históricos.



As causas desta sobre-exploração incluem a melhoria do acesso às florestas e mercados, a proliferação de tecnologias de caça baratas – como armas de fogo, armadilhas, redes verticais e lanternas, que reduzem a habilidade necessária para se caçar –, assim como a crescente procura de animais selvagens para o consumo da sua carne, para o fabrico de produtos medicinais e para o comércio de animais de companhia.

A caça na região não pode, consequentemente, ser considerada sustentável em nenhuma parte da região e, na maioria dos lugares, a aplicação da legislação das áreas e espécies protegidas é fraca.

Segundo os investigadores, as estratégias de conservação atuais não estão a enfrentar, convenientemente, este problema e o facto de a comunidade internacional de conservação estar excessivamente virada para o comércio internacional desvia a atenção da situação, uma vez que os animais caçados são consumidos localmente, nas aldeias, vilas e cidades vizinhas.

As espécies comuns, como os javalis e as ratazanas, costumam ser caçadas para consumo próprio. Mas a caça de espécies mais raras e valiosas também é generalizada. A carne que sobra e os produtos de valor comercial costumam ser vendidos.

“Os tigres (Panthera tigris) e outros grandes carnívoros são mortos por causa das suas peles, órgãos reprodutores e ossos, os rinocerontes (Rhinoceros sondaicus e Dicerorhinus sumatrensis) pelo seu chifre, os elefantes pelo seu marfim, os ursos (Helarctus malayanus e Ursus thibetanus) e os gauros (Bos guarus) pelas suas vesículas biliares, os langures (Presbytis spp, e Trachypithecus spp.) pelos seus bezoares e os ungulados com hastes como troféus”, explicam os investigadores.


Foto: flowcomm

Rhett Harrinson, da Academia Chinesa de Ciências em Yunnan, investigador que liderou o estudo, disse ao Mongabay que a caça não costuma, contudo, ter alvos específicos na região, devido ao uso de caçadeiras e armadilhas, que permite que um grande número de espécies seja caçado indiscriminadamente.

E à medida que as espécies maiores se tornam mais raras, os caçadores começam a virar-se para espécies cada vez mais pequenas.

“A caça e a sobre-exploração da vida selvagem são problemas gerais”, disse o investigador. “Mas, dependendo de fatores como a eficácia da implementação do controlo de armas, os métodos e as espécies-alvo variam. Por exemplo, na Indonésia a aplicação do controlo de armas é bastante rigorosa, por isso as armadilhas são amplamente usadas e a caça de aves é particularmente descontrolada. Na ilha de Bornéu, a maior parte dos caçadores utiliza caçadeiras e vai em busca de alimento – mas os níveis de exploração são completamente insustentáveis.”

O facto de as agências governamentais e a comunidade internacional de conservação continuarem a não reconhecer a verdadeira escala da sobre-exploração e falharem na aplicação de medidas apropriadas para combater o problema “continua a ser um grande entrave para se fazer frente à crise de vida selvagem no Sudeste Asiático”.

1ª foto: Javali capturado numa armadilha na Indonésia (Rhett Butler/Mongabay)

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