A poluição do ambiente causa mais mortes, todos os anos, do que a guerra, o tabagismo, a fome e os desastres naturais.



Ar poluído, água contaminada: a poluição do ambiente tem custos muito elevados e causa mais mortes, todos os anos, do que a guerra, o tabagismo, a fome e os desastres naturais. Mata três vezes mais pessoas do que a sida, a tuberculose e a malária juntas e causa mais de seis vezes o número de mortes dos acidentes rodoviários e 15 vezes o das guerras e outras formas de violência.

Estas são as conclusões de um importante novo relatório, segundo o qual a poluição foi responsável por uma em cada seis mortes prematuras no mundo – cerca de 9 milhões – durante o ano de 2015. O estudo foi publicado na revista médica The Lancet e coordenado pela Comissão sobre Poluição e Saúde, um projeto de dois anos que envolveu mais de 40 investigadores especializados em questões de saúde e ambiente.

“A poluição compromete a estabilidade dos sistemas de apoio da Terra e ameaça a sobrevivência das sociedades humanas”, concluíram os autores do trabalho.

Os custos financeiros associados à poluição, doenças e segurança social também são substanciais, diz o estudo, que aponta para perdas anuais no valor de cerca de 4,6 biliões de dólares (cerca de 4 biliões de euros), ou mais de 6% da economia mundial.

“Tem havido muitos estudos sobre a poluição, mas ela nunca recebeu os recursos ou a atenção de algo como a sida ou as alterações climáticas”, declarou o epidemiologista Philip Landrigan, coautor do relatório. “A poluição é um problema enorme que as pessoas não estão a ver porque estão a olhar para fragmentos dispersos dela.”

Os peritos dizem ainda que os 9 milhões de mortes prematuras são apenas uma estimativa parcial e que o número real será, indubitavelmente, mais elevado.


Manifestantes protestam contra a poluição atmosférica em Edimburgo | Foto: Maverick Photo Agency/Friends of the Earth

Utilizando dados da Organização Mundial da Saúde, assim como de outras entidades, a equipa de investigação descobriu que a poluição atmosférica é a principal causa de morte, levando ao aparecimento de doenças cardíacas, acidentes vasculares cerebrais, cancro dos pulmões e outras doenças. A esta, segue-se a poluição da água, que resulta em doenças gastrointestinais e infeções parasitárias, entre outros problemas de saúde.

O relatório revelou ainda que costumam ser as populações pobres e vulneráveis as mais afetadas. 92% das mortes associadas à poluição ocorrem em países de rendimento baixo ou médio, onde as normas ambientais costumam ser mais fracas e as indústrias fazem uso de tecnologias ultrapassadas e combustíveis mais poluentes. Mesmo nos países mais ricos, onde a poluição não é tão generalizada, também são as comunidades mais carenciadas as que mais sofrem.

A Ásia e a África são as regiões mais afetadas e a Índia é o país onde a poluição é mais mortífera, com uma em cada quatro mortes prematuras, em 2015, associadas à poluição no país. À Índia segue-se a China, com mais de 1,8 milhões de mortes – ou uma em cada cinco – atribuídas a doenças relacionadas com a poluição. Vários outros países como o Bangladesh, Paquistão, Coreia do Norte, Sudão do Sul e Haiti também veem quase um quinto das suas mortes prematuras causadas pela poluição. A Rússia e os EUA também integram o top 10.

Segundo Landrigan, no sudeste asiático, as mortes associadas à poluição atmosférica poderão duplicar até 2050.


Poluição no Lago de Maracaibo | Foto: The Photographer

Os investigadores descobriram que as mortes associadas à poluição “tradicional”, i.e., água contaminada e queima doméstica de lenha, estão a cair, à medida que os trabalhos no domínio do desenvolvimento vão dando frutos. Por outro lado, as mortes associada à poluição “moderna”, i.e., poluição atmosférica causada por combustíveis fósseis e a poluição química, estão a aumentar. Os EUA e o Japão integram o top 10 das mortes associadas às formas “modernas” de poluição.

“Os custos [associados à poluição] são tão grandes que podem deitar abaixo a economia dos países que estão a tentar crescer”, disse Philip Landrigan. “Ouvimos sempre dizer que ‘não temos condições para se resolver a questão da poluição’ – eu digo que não temos condições para não a resolver.”

“Aquilo de que as pessoas não se apercebem é que a poluição prejudica mesmo as economias. As pessoas que estão mortas ou doentes não podem contribuir para a economia. Precisam de cuidados”, disse Richard Fuller, presidente da organização Pure Earth e coautor do estudo.

O investigador defende que “a poluição pode ser eliminada e a prevenção da poluição pode apresentar uma excelente relação entre custos e resultados, ajudando a melhorar a saúde e a prolongar a longevidade, impulsionando, ao mesmo tempo, a economia”.

De acordo com Landrigan, desde que a Lei do Ar Limpo foi introduzida, em 1970, nos EUA, os níveis dos seis maiores poluentes caíram 70% no país, ao passo que o PIB aumentou 250%. “Isto prova que o argumento que diz que o controlo da poluição destrói postos de emprego e sufoca a economia é falso”, afirmou.

Em abril, o Banco Mundial declarou que reduzir a poluição, em todas as suas formas, seria agora uma prioridade global. A relação entre a poluição e a pobreza é muito clara, disse Ernesto Sanchez-Triana, especialista ambiental do Banco Mundial. “E controlar a poluição ajudar-nos-ia a resolver muitos outros problemas.”

1ª foto: Inchy23

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