No Bangladesh, há crianças de 8 anos expostas a químicos tóxicos, enquanto trabalham na produção do couro dos nossos sapatos e carteiras.



No Bangladesh, crianças com apenas 8 anos estão expostas a um cocktail de substâncias químicas tóxicas que poderá encurtar as suas vidas, enquanto trabalham em fábricas que produzem artigos como o couro, que é posteriormente exportado para a Europa e os EUA e transformado em sapatos, carteiras e casacos.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o quadro é muito alarmante: cerca de 90% dos trabalhadores e famílias que vivem nos bairros degradados de Hazaribagh e Kamrangirchar – onde há descargas de químicos perigosos para o ar, ruas e rio – morrem antes dos 50 anos de idade.

“São as condições mais horríveis que se possa imaginar”, contou Venkiteswaran Muralidhar, professor associado da Faculdade de Medicina de Sri Balaji e um dos autores de um novo relatório sobre este problema. “Eu trabalho nesta zona. Nunca vi nada tão mau como isto.”

Esta situação levou os Médicos Sem Fronteiras a intervir e a abrir clínicas, no cerne destas comunidades, para diagnosticar e tratar 5000 trabalhadores. Esta é “a primeira vez que eles intervieram numa zona por razões não relacionadas com os desastres naturais e a guerra”, diz o relatório, publicado na revista científica BMJ Case Reports.

A negligência industrial generalizada e a apatia dos proprietários das fábricas de curtumes e outros materiais perigosos” relativamente a uma população de 600 mil trabalhadores sem acesso ao sistema de saúde público motivaram a intervenção da organização humanitária.



1ª foto: Reuters/Andrew Biraj | 2ª foto: Arantxa Cedillo/Human Rights Watch

Em Hazaribagh, cerca de 250 fábricas de curtumes produzem o couro “preto bengali”, exportado para os fabricantes de produtos de couro em Espanha, na Itália e noutros países ocidentais, conta o The Guardian. Durante o processamento do couro, as peles dos animais são mergulhadas em caldeirões de químicos. Por dia, estas instalações despejam 6000 metros cúbicos de efluentes tóxicos e 10 toneladas de resíduos sólidos.

“Para além de metais pesados como o crómio, o cádmio, o chumbo e o mercúrio, as fábricas de curtumes despejam um conglomerado de químicos no ambiente”, diz o relatório. Trabalhadores com 8 ou mais anos ficam encharcados, respirando os vapores ao longo do dia e comem e vivem neste ambiente durante todo o ano. O equipamento de proteção individual não [é] fornecido.”

As crianças, que trabalham usando apenas uns calções e um par de botas ou chinelos, estão expostas a químicos como o formaldeído, o ácido sulfúrico e o sulfureto de hidrogénio. Segundo uma investigação da organização Human Rights Watch, os trabalhadores recebem menos de 0,50€ por dia.



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Em Kamrangirchar, um bairro degradado que não faz oficialmente parte da cidade de Dhaka, as fábricas de roupa, reciclagem de plástico e metais também constituem um problema. Nestas fábricas, dizem os autores do relatório, “há riscos relacionados com a poeira do algodão, químicos e metais pesados como o mercúrio, ftalatos, ácidos e dioxinas e riscos ergonómicos”.

Todos estes perigos fazem com que as doenças crónicas dermatológicas e pulmonares sejam comuns. Seis meses após o estabelecimento das clínicas, estas instalações já tinham sido visitadas por 3200 trabalhadores – 468 foram diagnosticados com doenças profissionais e 30 tinham lesões de origem profissional.

No entanto, estes números estão longe de representar todos os danos infligidos a esta população, defende Venkiteswaran Muralidhar, e dado que os trabalhadores gravemente feridos não se dirigiriam a estas clínicas, sendo antes levados a um hospital em Dhaka, o professor manifestou o desejo de que fosse erigido um hospital nestes bairros de lata.

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