O consumo de produtos de origem chinesa na União Europeia e nos EUA está associado a quase 110 mil mortes prematuras anuais na China.



“Algumas regiões consomem enquanto outras produzem e sofrem os efeitos na saúde”, declarou o economista Dabo Guan, investigador da Universidade de East Anglia, no Reino Unido, e autor do primeiro estudo que calcula os impactos do comércio internacional na saúde.
Embora comprar computadores, smartphones e outros produtos feitos na China possa ser mais barato, o verdadeiro custo destes artigos vai muito além do seu preço. Segundo o novo estudo publicado na revista científica Nature, o consumo de produtos de origem chinesa na União Europeia e nos Estados Unidos está associado a quase 110 mil mortes prematuras anuais na China, devido à poluição do ar causada durante a produção. Por outro lado, a poluição atmosférica gerada pela indústria chinesa e deslocada pelo vento também está associada a mais de 3100 mortes prematuras por ano na Europa ocidental e nos EUA.

“Se o preço dos produtos importados é baixo porque nas regiões de produção as leis contra a poluição são menos rigorosas, então a poupança dos consumidores poderia estar a ser gerada à custa de vidas perdidas em outras regiões”, dizem os autores do trabalho.

O ambiente não tem fronteiras. A poeira e a poluição da China instalam-se nos EUA. A radiação nuclear de Chernobyl chegou à Islândia. O que vai para o ambiente dá a volta ao mundo”, explica David Weir, jornalista e coautor do livro Circle of Poison.

Para o estudo, os investigadores utilizaram dados da poluição do ar por partículas finas (PM2,5), registados em 2007 em todo o mundo, conta o El País. Estas partículas, com menos de 2,5 milésimos de milímetro, são responsáveis por provocar doenças respiratórias e cardiovasculares, como acidentes vasculares cerebrais, cancro do pulmão e doenças pulmonares obstrutivas crónicas.



Dos 3,45 milhões de mortes prematuras associadas a este tipo de poluição nesse ano, 12% (ou 411 mil) estavam relacionadas com poluentes atmosféricos emitidos noutra região do planeta. Segundo os autores do estudo, 22% das mortes (ou 762 400) estão relacionadas com a produção de bens e serviços numa região do mundo para serem consumidos noutra.

Por cada milhão de consumidores na Europa ocidental, há 416 mortes associadas à poluição por PM2,5 noutras regiões do mundo. Relativamente aos EUA, por cada milhão de consumidores, há 339 destas mortes.

“O nosso estudo calcula até que ponto a poluição do ar é um problema global numa economia global”, conta Qiang Zhang, especialista em química atmosférica da Universidade de Qinghua, na China. “Os países desenvolvidos deveriam fomentar o consumo responsável para mitigar os efeitos negativos no ambiente. E os países em desenvolvimento deveriam melhorar a eficiência das suas economias para reduzir as emissões locais.”

Envolvidos neste estudo estiveram cerca de 20 cientistas de universidades dos Estados Unidos e da China, entre as quais o Instituto Tecnológico de Califórnia, a Universidade de Princeton e a de Pequim.

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