Só 17% das populações de mamíferos e 42% das de aves sobrevivem nas zonas de caça das regiões tropicais, revela estudo de Ana Benítez.



A caça é uma grande ameaça para a vida selvagem, particularmente nas regiões tropicais, e uma equipa internacional de cientistas quis saber, com mais exatidão, qual seria o verdadeiro impacto desta atividade na biodiversidade. Para o descobrir, decidiram quantificar os declínios que ela provoca nas populações de mamíferos e aves nas selvas e florestas da América Central e do Sul, África e Ásia, e em outros biomas tropicais, como a savana africana e o Cerrado amazónico.

Os investigadores descobriram que o impacto da caça era maior do que estavam à espera.
Nas zonas onde há caça, a abundância de mamíferos sofreu, em média, um declínio de 83% e a de aves um declínio de 58%, em comparação com as áreas às quais os caçadores não chegam. Como estas são médias, há regiões que veem declínios ainda mais elevados, na ordem dos 90%.

“As populações de aves e mamíferos foram dizimadas dentro de uma distância de 7 a 40 quilómetros [respetivamente] dos pontos de acesso dos caçadores (estradas e povoações)”, escreveram os investigadores no estudo publicado na Science. “Além disso, a pressão da caça era mais elevada nas zonas com melhor acessibilidade a grandes cidades, onde a carne de animais selvagens podia ser comercializada.”


Foto: Radboud University/Joeri Borst

“Como ponto de partida, usámos o pressuposto de que os seres humanos reúnem recursos num círculo à volta das suas aldeias e outros pontos de acesso. Daí, as densidades das espécies vão aumentando até a uma distância na qual já não se observa qualquer efeito da caça. Chamámos a isto as distâncias de empobrecimento das espécies e quantificámo-las na nossa análise”, explica, Ana Benítez-López, investigadora da Universidade Radboud, na Holanda, que liderou o estudo.

Desta forma, os cientistas estimaram que, num raio de 500 metros à volta de um destes centros humanos, apenas existiam aves. Relativamente aos mamíferos, 90% destes animais desapareceram nos primeiros 700 metros. A abundância de aves só recupera, equiparando-se à de zonas sem caça, a partir dos 7 km de distância do centro. Para os mamíferos, são necessários 40 km para recuperarem os seus números.

O trabalho de investigação sintetizou 176 estudos e utilizou dados de 254 espécies de mamíferos e 97 de aves. Segundo os investigadores, a diferença de impacto entre aves e mamíferos prende-se com o facto de estes últimos serem maiores e fornecerem mais carne, o que os transforma em presas mais desejáveis. “Valem uma viagem maior. Quanto maior é o mamífero, maior a distância que um caçador percorreria para o apanhar”, diz Ana Benítez.

Com o aumento da procura de carne de animais selvagens, tanto nas zonas rurais como urbanas, os caçadores têm levado as espécies de maior porte à quase extinção na proximidade das aldeias, o que significa que têm de percorrer maiores distâncias para os encontrar. Além disso, para espécies com maior valor comercial, como os elefantes e os gorilas, as distâncias percorridas são muito maiores, já que os lucros são mais elevados.


Exemplares encontrados durante uma operação contra a caça furtiva nos Camarões | Foto: LAGA

A investigadora espanhola destaca também a dimensão internacional do comércio desta carne, que pode ser de todo o tipo de animais, desde macacos a roedores. “Em alguns casos, esta carne é vista como uma iguaria, em outros, como sucede com o pangolim na China, o seu drama deve-se à medicina tradicional."

Os cientistas também descobriram que os caçadores comerciais têm um impacto maior na biodiversidade do que os de subsistência, que caçam para alimentar as suas famílias, e que as populações de mamíferos sofreram declínios mesmo dentro das áreas protegidas. No caso dos felinos, estes animais são exterminados por competirem com os seres humanos.

“Graças a este estudo, estimamos que apenas 17% da abundância original de mamíferos e 42% da de pássaros permaneçam nas zonas de caça”, escreveram os autores do trabalho. Este impacto, avisam eles, será cada vez maior. “Em África, 90% dos bosques que restam estão a menos de 50 km de uma estrada”, lembra Ana Benítez. Aliado à proliferação de tecnologias baratas de caça, como armas de fogo, armadilhas e redes verticais, o aumento previsto da população destas regiões fará com que haja povoações e estradas cada vez mais próximas destes locais, assim como caçadores.

“São urgentemente necessárias estratégias para gerir de forma sustentável a caça de animais selvagens, tanto em ecossistemas tropicais protegidos como não-protegidos, para se evitar mais defaunação”, disse a investigadora. “O que inclui a monitorização das atividades cinegéticas através de um aumento das patrulhas anti-caça furtiva e o controlo da sobre-exploração através do cumprimento da lei.”

1ª foto: Tapir-malaio (EPA)


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