As tintas dos carros de marcas como a BMW, a Volkswagen e a Audi foram ligadas a minas de mica na Índia, onde o trabalho infantil é comum.



As tintas usadas por alguns dos maiores fabricantes de carros do mundo, incluindo a BMW, a Vauxhall, a Volkswagen e a Audi, foram ligadas a minas ilegais na Índia, onde o trabalho infantil e a servidão por dívida são práticas generalizadas.

Uma investigação do The Guardian descobriu crianças, algumas com apenas 10 anos, a trabalhar em minas ilegais no estado indiano de Jharkhand, extraindo a mica que é usada para dar brilho e o especto metalizado à pintura de milhões de carros em todo o mundo.

O dia a dia destas crianças envolve martelar as rochas das paredes para extrair mica e carregar fardos pesados através de túneis escorregadios. À superfície, outras crianças separam a mica do resto dos materiais extraídos.
As condições em que trabalham são perigosas: em agosto de 2016, a Reuters denunciou as mortes de 7 crianças, em apenas 2 meses, nestas minas.
A equipa do The Guardian conseguiu ligar a mica extraída em três das minas a três exportadores indianos: Mohan Mica, Pravin e Mount Hill. Um dos seus maiores clientes é a Fujian Kuncai, uma empresa chinesa que, por sua vez, conta, entre os seus clientes, marcas como a L’Oréal e a Procter & Gamble, assim como a PPG e a Axalta, duas das principais empresas da indústria de tinta para carros.


Karulal de 7 anos trabalha com o seu pai numa mina de mica | Foto: Peter Bengtsen

Muitas das crianças trabalham nas minas juntamente com os pais e irmãos, para quem a mina é a única fonte de rendimentos. Grande parte das famílias está presa às minas por causa de dívidas a prestamistas ou aos proprietários das minas.

“Tenho ajudado a minha mãe, aqui, na mina, todos os dias porque precisam da minha ajuda para ganhar dinheiro”, conta Dharini (nome falso para proteger a sua identidade) de 13 anos, que afirma trabalhar nas minas desde que se lembra e nunca ter ido à escola. Juntamente com a sua mãe, Dharini recebe menos de 6€ por semana, por 6 dias de trabalho.

Basanti, a sua mãe, também passou a vida a trabalhar nestas minas. “Todas as noites nos sentimos mal, depois do trabalho, com náuseas e é difícil respirar por causa da poeira, mas não temos outra hipótese, este é o único trabalho.”

Simitra, de 45 anos e mãe de dois filhos, explica que a sua família está toda a trabalhar na mina apenas para tentar cobrir os juros de um empréstimo de cerca de 230€ feito em 2014, depois do seu marido ter contraído tuberculose.
A utilização dada à mica que extraem é algo que estas famílias desconhecem.
“A mica natural faz parte de uma variedade de produtos, sem que ninguém se aperceba, uma vez que não é listada como ingrediente nas tintas para os carros, tintas decorativas, produtos de plástico, secadores de cabelo, torradeiras e muito mais. O trabalho infantil é uma parte do nosso quotidiano, mas ninguém sabe disso”, disse Aysel Sabahoglu, da ONG holandesa Terre des Hommes Netherlands.
Em 2014, a indústria dos cosméticos já tinha sido alvo de críticas pela existência de trabalho infantil nas suas cadeias de fornecimento de mica, que é utilizada em produtos como a maquilhagem, vernizes e champôs.



Apesar dos esforços do governo indiano para erradicar o trabalho infantil da indústria de mica, monitorizando um pequeno número de minas oficiais, a extração de mica ilegal continua a ser uma realidade muito generalizada e, segundo estimativas de ativistas defensores dos direitos das crianças, haverá até 20 mil crianças a trabalhar em centenas de minas em pequena escala no norte do estado de Jharkhand e no sul de Bihar.

A Índia produziu oficialmente 19 mil toneladas de mica, em 2013-14. No entanto, a quantidade exportada foi quase 7 vezes superior a este valor: cerca de 128 mil toneladas. “Existe uma enorme discrepância entre o que a Índia aparentemente produz e o que exporta realmente – o que indica claramente a existência de exploração mineira e operações ilegais, declarou Phil Bloomer, diretor executivo do Business & Human Rights Resource Centre. “Ninguém quer a maldição da presença de trabalho forçado ou infantil nas suas cadeias de fornecimento, mas (…) é preciso muito mais do que uma simples auditoria ao ‘fornecedor’ aparente para se eliminar a escravatura moderna das cadeias de fornecimento. Há demasiadas empresas a comprar com um olho aberto para o preço e o outro fechado para os abusos.”

Em resposta às alegações do The Guardian e da Reuters, as marcas de automóveis afirmaram que iriam investigar as suas cadeias de fornecimento de tinta. “Se as alegações forem fundamentadas, faremos tudo para garantir que a empresa envolvida já não faz parte da nossa cadeia de fornecimento no futuro”, declarou a BMW.

A Fujian Kuncai disse-se chocada pelo envolvimento dos seus fornecedores nestas práticas e anunciou uma parceria com a ONG Terre des Hommes para erradicar o trabalho infantil nas comunidades de Jharkhand em três anos.

Não é só na indústria mineira da Índia que existem casos de trabalho infantil. Na República Democrática do Congo, há crianças a extrair coltan, um mineral usado na produção dos iPhones, e, no Uganda, crianças com apenas 8 anos trabalham em minas de ouro – uma das piores formas de trabalho infantil, segundo a Organização Internacional do Trabalho.



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