Trabalham 11 h/dia curvadas sobre bateias, em poças de mercúrio e água até aos tornozelos. São 15 mil as crianças nas minas de ouro do Uganda.



Agaba é uma das 15 mil crianças que se crê que estejam atualmente a trabalhar nas minas de ouro artesanais do Uganda, apesar dos registos oficiais do país negarem a existência destes trabalhadores. Como muitos adolescentes de 15 anos, Agaba gosta de futebol e de filmes; ao contrário da maioria, trabalha até 11 horas por dia.

Na mina onde trabalha, em Mubende, na região central do Uganda, Agaba (nome falso para proteger a sua identidade) é uma das crianças mais velhas – alguns dos seus companheiros de trabalho têm apenas oito anos. Estas crianças estão envolvidas no que a Organização Internacional do Trabalho (OIT) descreve como a pior forma de trabalho infantil e que alguns especialistas designam de escravatura infantil.

Agaba passa até 11 horas por dia curvado sobre bateias de ouro improvisadas, extraindo o minério de ouro, em poças de mercúrio e água até aos tornozelos. Com as suas mãos cobertas de cicatrizes, testemunhos do seu trabalho árduo, o jovem afirma que num “dia bom” consegue obter 2,40€.

“O trabalho das crianças que arriscam as suas vidas por alguns dólares por dia está a fomentar um comércio lucrativo de ouro ilegal que é contrabandeado para fora do país e que entra nos produtos e nas cadeias de fornecimento de todo o mundo”, diz o The Guardian.




Após as sanções das Nações Unidas aos ugandeses que comprassem aos comerciantes na República Democrática do Congo em 2007, as exportações de ouro oficiais do Uganda caíram de 6,9 toneladas, em 2006, para 14 kg em 2015. No entanto, segundo dados da organização Stop Child Labour e da empresa belga de investigação Somo, as exportações de ouro das minas artesanais ilegais chegam a 2,8 toneladas por ano.

“Oficialmente não existe uma indústria substancial de exploração de ouro no Uganda, mas a realidade é que existe um próspero comércio ilegal de ouro, onde até 30% dos mineiros são crianças, disse Irene Schipper, investigadora da Somo. “A nossa investigação mostra que a diferença entre os dados das exportações oficiais e a quantidade real de ouro exportada pelo Uganda é enorme (…) É uma indústria livre de qualquer regulamentação e totalmente desprovida de mecanismos de controlo.”

Na mina há crianças que, como Agaba, trabalham por conta própria, vendendo o ouro que encontram a intermediários que se reúnem diariamente à volta da mina. As crianças mais novas trabalham, na maior parte dos casos, para mineiros mais velhos.
Os comerciantes independentes compram o ouro, viajando de mina em mina, e levam-no para a capital. “[Nós] levamo-lo para Kampala e vendemos a maioria a indianos, que depois o exportam para a China e para o Dubai, explicou um destes comerciantes.

De acordo com a análise da Somo, grande parte do ouro proveniente do trabalho de crianças é contrabandeado pelas fronteiras do Uganda, mistura-se com as exportações oficiais e vai parar aos mercados internacionais.

“O maior problema para as crianças é que elas só estão a encarar a possibilidade a curto-prazo de ganharem dinheiro para sobreviver, mas as minas de ouro são desastrosas para os seus futuros”, declarou Irene Schipper. “Elas não vão escapar a este trabalho mal remunerado e perigoso. Todas elas trabalham com mercúrio e nenhuma parece estar ciente dos perigos. Não são só os governos que precisam de abordar este problema. As empresas precisam de verificar as suas cadeias de fornecimento com mais atenção e de tomar medidas para erradicar a utilização de mercúrio nas minas de onde o seu ouro provém.”



Com mais de 60% da população ugandesa a viver com menos de 3€ por dia, com o sistema de educação público em declínio e o desemprego dos jovens a rondar os 65%, as ONGs e as agências locais de defesa dos direitos humanos afirmam não conseguir travar as crianças que procuram trabalho nas minas. “Tornou-se normal para nós”, contou Stephen Turyahikayo, investigador de uma das ONGs ugandesas a trabalhar no terreno. “Ninguém se parece importar com estas crianças. Nem o governo. Nem as empresas.”

“Todos sabemos que não há futuro para quem vai a uma escola pública, era o mesmo do que não ir à escola”, comenta Agaba. Pelo menos aqui ganho dinheiro.”
Agaba divide a tenda feita de polietileno azul e de ramos, onde dorme todas as noites, com oito rapazes.

De 168 milhões de crianças no mundo envolvidas em trabalho infantil, segundo a OIT, cerca de um milhão trabalha em explorações mineiras. Apesar dos esforços para regulamentar o comércio internacional de ouro, o trabalho infantil, o contrabando e a exploração sexual são realidades muito comuns nas minas artesanais e ilegais.

“O que estamos a ver nas minas em pequena escala do Uganda, pelo continente africano e pelo resto do mundo são as piores formas de trabalho infantil associadas a um dos bens mais valiosos do mundo”, declarou Nadine Osseiran da OIT.

“No sector da exploração de ouro artesanal, frequentemente não regulamentado e ilegal, não existem estruturas para proteger estes trabalhadores e é impossível impedir que o ouro extraído por crianças entre nas cadeias de fornecimento mundiais. Quase não existe qualquer controlo sobre a proveniência do ouro e onde este é adquirido. Na OIT acreditamos que o trabalho infantil nas minas de ouro poderia ser eliminado em 10 anos mas, infelizmente, não tem havido financiamento suficiente para tornar isto realidade.”
Vou trabalhar aqui. Viver aqui. Crescer e morrer aqui”, disse Agaba.

Fotos: Eelco Roos/Hivos

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