Uma só espécie de primata está a levar a maioria das outras à extinção, avisa um estudo.



Mais de metade das espécies de primatas não-humanos do mundo estão em risco de extinção, avisa um artigo, publicado na revista científica Science Advances, escrito por 31 cientistas proeminentes dos quatro cantos do mundo.

“A escala disto é enorme”, disse um dos autores do relatório, Anthony Rylands, da organização Conservation International. “Considerando o grande número de espécies que estão atualmente ameaçadas e cujas populações estão em declínio, o mundo assistirá em breve a um grande evento de extinções se não forem implementadas medidas eficazes imediatamente”, alerta o seu artigo.

Existem mais de 500 espécies de primatas no mundo, incluindo macacos, símios, lémures, galagos, társios e lóris. Cerca de 60% destas espécies selvagens estão ameaçadas de extinção e três quartos têm populações em declínio. Ao mesmo tempo que as suas populações são afetadas pela caça e pelo comércio, a desflorestação – impelida por atividades industriais e pela agricultura – está a destruir o seu habitat.

Entre 1990 e 2010, a expansão agrícola ocupou 1,5 milhões de quilómetros quadrados do que antes era habitat de primatas – uma área que é três vezes superior à da França. Nas ilhas de Samatra e Bornéu, as plantações de óleo de palma têm destruído florestas e dizimado as populações de orangotangos. Na China, a expansão das plantações de borracha levou à quase extinção do gibão-de-bochechas-brancas-do-norte e do gibão-de-hainan, do qual só sobreviveram cerca de 30 animais. A borracha também colocou em risco espécies como a Trachypithecus pahyrei na Índia.

Embora existam espécies de primatas em 90 países, dois terços delas vivem em apenas quatro: Brasil, Madagáscar, Indonésia e na República Democrática do Congo. Em Madagáscar, 87% dos primatas estão em risco de extinção, assim como 73% na Ásia, 37% em África e 36% nos Neotrópicos (i.e., América Central e do Sul), avisa o relatório.


Lémure-de-cauda-anelada, uma espécie ameaçada segundo a UICN
1ª imagem: Rhinopithecus roxellana | Foto: pelican/Flickr


Juntamente com a agricultura, as explorações florestal e mineira também têm contribuído para esta situação. Na República Democrática do Congo, os caçadores a trabalhar em torno das explorações de ouro, cobre e estanho estão a levar o gorila-de-grauer à extinção. Nas Filipinas, a exploração mineira é uma ameaça para o társio das Filipinas (Carlito syrichta).

Os investigadores salientam também o papel da extração de petróleo e gás e da construção de barragens e de estradas na perda e fragmentação do habitat destas espécies. Estima-se que, até 2050, para servir as indústrias a trabalhar nas áreas de floresta tropical, venham a ser construídas mais 25 milhões de km de estradas, conta o The Guardian.

Igualmente prejudiciais têm sido a caça e o comércio de carne destes animais. Segundo relatos citados no relatório, são comercializados 150 mil primatas de 16 espécies, por ano, na Nigéria e nos Camarões. No Bornéu, são mortos para o consumo da sua carne, anualmente, entre 2000 e 3000 orangotangos.

As causas são diversas e estão interligadas – uma população mundial em crescimento requer mais comida para se alimentar, o que resulta na desflorestação dos habitats para fazer espaço para a agricultura e no aumento da caça –, defende Eduardo Fernadez-Duque, coautor do estudo e antropólogo da Universidade de Yale, que tem estudado várias espécies de primatas ao longo de duas décadas. “A não ser que atendamos às necessidades das pessoas, não conseguiremos atender às dos primatas”, disse.

“Temos de nos esforçar, mais do que nunca, por trabalhar entre as várias disciplinas. Esta é uma crise iminente que requer que os biólogos e os ambientalistas se juntem a economistas e políticos”, declarou o antropólogo. “Este não é só um problema científico. É um problema global, um que requer colaboração mundial.”


Carlito strychta, uma espécie "quase ameaçada" segundo a UICN

O estudo aponta uma série de estratégias para ajudar a proteger estas espécies antes que elas desapareçam, que vão desde a expansão das áreas de conservação à utilização de práticas agrícolas mais sustentáveis.
Não são só os governos que precisam de abordar este problema, os indivíduos também podem ter um impacto positivo ao se tornarem consumidores mais conscientes, evitando, por exemplo, comprar produtos com óleo de palma ou mobília feita de madeira tropical.
“Precisamos obviamente de lidar com os impulsionadores da extinção, desde a agricultura à exploração mineira e madeireira comerciais”, declarou Russell Mittermeier, coautor do estudo. “Mas se concentrarmos todos os nossos esforços nisso, quando tivermos tido algum impacto, já não restará nada. Por isso temos que, em primeiro lugar, proteger os últimos pedaços de habitat restantes e, se não existirem áreas protegidas, temos de as criar. Sou um otimista e acredito que conseguimos encontrar soluções, mas temos de ser muito específicos agora para garantir que não perdemos nada.”

“Apesar da extinção iminente que muitos dos primatas do mundo enfrentam, insistimos que a conservação dos primatas não é ainda uma causa perdida, escrevem os autores do estudo.

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