Cientistas descobriram “concentrações elevadas” de antidepressivos em peixes como a perca, a truta e o achigã.

Peixe Morone chrysops

Um estudo novo da Universidade de Buffalo revelou que os antidepressivos usados pelas pessoas se estão a acumular nos cérebros de peixes como a perca e a truta. Os autores do trabalho detetaram concentrações elevadas destes medicamentos no tecido cerebral de dez espécies de peixes do rio Niágara.

Segundo a cientista que liderou o estudo, Diana Aga, a descoberta de antidepressivos na fauna fluvial é motivo de grande preocupação.

“Estes ingredientes ativos dos antidepressivos, que provêm das estações de tratamento de águas residuais [ETAR], estão a acumular-se nos cérebros dos peixes”, declarou a cientista. “É uma ameaça para a biodiversidade e devíamos estar muito preocupados. Estes medicamentos podem afetar o comportamento dos peixes.”

“Outras equipas de investigação mostraram que os antidepressivos podem afetar o comportamento alimentar dos peixes e os seus instintos de sobrevivência”, disse.

Se este tipo de mudanças ocorrer na natureza, poderá afetar o frágil equilíbrio entre as espécies, que ajuda a manter o ecossistema estável, afirmou um dos coautores do estudo, Randolph Singh.

Medicamentos

Só nos EUA, verificou-se uma subida de 65% na percentagem de pessoas que tomam antidepressivos entre 1999-2002 e 2011-2014, de acordo com o Centro Nacional de Estatísticas da Saúde. À medida que a utilização destes químicos aumenta, torna-se cada vez mais importante a deteção de contaminantes no ambiente.

Diana Aga defende que as ETAR não têm acompanhado a evolução dos tempos e não se têm adaptado a este crescimento, ignorando geralmente estes medicamentos, que são assim libertados no ambiente.

Como é que os antidepressivos acabam nos peixes?

De um modo geral, o tratamento das águas residuais incide na eliminação de bactérias patogénicas e na extração de matéria sólida, explicam os investigadores. Mas os antidepressivos presentes na urina das pessoas que os tomam são amplamente ignorados, juntamente com outros químicos preocupantes, que se foram tornando comuns. “Estas estações centram-se na remoção do nitrogénio, fósforo e carbono orgânico dissolvido, mas existem muitos outros químicos que não são priorizados e que afetam o nosso ambiente”, explicou a investigadora.

“Como resultado, a vida selvagem está exposta a todos estes químicos. Os peixes estão a receber este cocktail de medicamentos 24 horas por dia e estamos a descobri-los nos seus cérebros.”

Peixe achigã

Prozac, Zoloft, Sarafem e Celexa: um cocktail de antidepressivos nos peixes

Os investigadores procuraram uma variedade de químicos de produtos farmacêuticos e de cuidado pessoal nos órgãos e músculos de dez espécies de peixes, entre as quais a perca, o picão-verde, o achigã e a truta arco-íris.

Descobriram que os antidepressivos eram um grande problema: estes medicamentos ou os seus metabolitos (substâncias produzidas durante os processos metabólicos) foram encontrados nos cérebros de todas as espécies de peixes estudadas.

A concentração mais elevada de um só composto foi descoberta num Ambloplites rupestres, que tinha cerca de 400 nanogramas de norsertralina por grama de tecido cerebral. A norsertralina é um metabolito da sertralina – o princípio ativo do medicamento Zoloft, utilizado para tratar a depressão, POC, PSPT e outras perturbações mentais.

No mesmo peixe foram encontrados muitos outros compostos, incluindo citalopram, o princípio ativo de Celexa (um antidepressivo) e norfluoxetina, um metabolito do princípio ativo do Prozac e Sarafem, usados para tratar a depressão, POC, bulimia e o síndrome de pânico.

Mais de metade das amostras dos cérebros dos peixes apresentava níveis de norsertralina de 100 nanogramas por grama ou ainda mais elevados. Muitos dos peixes tinham uma mistura de antidepressivos e dos seus metabolitos nos cérebros.

Niágara

Uma questão de concentração

Embora os estudos de laboratório que mostram que os antidepressivos podem alterar o comportamento dos peixes costumem expor os animais a concentrações de medicamentos mais elevadas do que as que se encontram no rio Niágara, os cientistas fizeram uma descoberta preocupante: os antidepressivos detetados nos cérebros dos peixes tinham-se acumulado com o passar do tempo, chegando a concentrações muito mais elevadas do que os níveis presentes no rio.

A sertralina detetada em metade das espécies era cerca de 20 ou mais vezes superior aos níveis na água do rio. Os níveis de norsertralina eram ainda mais elevados, alcançando concentrações que eram frequentemente 100 vezes superiores às descobertas no rio.

Segundo Diana Aga, são precisos mais trabalhos de investigação para se perceber que níveis de antidepressivos poderão ser uma ameaça para os animais ou como os diferentes medicamentos poderão interagir uns com os outros.

“Os níveis de antidepressivos descobertos não constituem um perigo para quem come o peixe, especialmente nos EUA, onde a maioria das pessoas não come os órgãos como o cérebro”, disse Randolph Singh. “No entanto, o risco que estes medicamentos representam para a biodiversidade é real e os cientistas só agora estão a começar a perceber quais poderão ser as consequências.”

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