Entre 2015 e 2016, foram desflorestados mais de 29 000 ha de Mata Atlântica no Brasil, um amento de 60% em relação ao período anterior.



Entre 2015 e 2016, foram desflorestados mais de 29 000 hectares (290 km2) de Mata Atlântica no Brasil, diz o relatório anual da Fundação SOS Mata Atlântica e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. Isto representa um amento de 57,7% em relação ao período anterior.

Os novos valores são os piores da última década. “O que mais me impressionou foi o enorme aumento no desmatamento no último período. Tivemos um retrocesso muito grande, com índices comparáveis aos de 2005”, disse Marcia Hirota, diretora-executiva da SOS Mata Atlântica.

Quase três quartos da população do Brasil vive na zona da Mata Atlântica, que hoje ocupa menos de 15% da sua extensão original. Desde que a fundação começou a monitorizá-la em 1985, já se perderam 1,9 milhões de hectares de florestas. Apesar de tudo isto, a Mata Atlântica é um dos focos de biodiversidade do mundo, lar de muitas espécies endémicas e ameaçadas.


Tucano-de-bico-preto, uma espécie ameaçada | Foto: Ana Cotta
1ª foto: Heris Luiz Cordeiro Rocha


Os quatro campeões da desflorestação

Quatro dos 17 estados brasileiros do bioma Mata Atlântica foram responsáveis por 90% de todas as perdas. A liderança do ranking de desflorestação coube ao estado da Bahia, com mais de 12 000 ha desflorestados e quatro dos cinco dos municípios que registaram as maiores perdas.

Apesar de ter liderado as últimas nove edições do Atlas da Mata Atlântica, Minas Gerais aparece em segundo lugar este ano, com 7410 ha desflorestados. Em conjunto, estes dois estados foram responsáveis por 68% da desflorestação deste período.

O terceiro estado mais afetado, o Paraná, perdeu 3453 ha de florestas, o que representa um aumento de 74%. Neste estado, a destruição concentra-se na região das araucárias (Araucaria angustifolia), uma espécie de árvore classificada pela UICN como “criticamente ameaçada”.

Em quarto lugar ficou o estado de Piauí, com 3125 ha. Os restantes estados registaram perdas inferiores a 1000 ha.



Eucaliptos, carvão, silvicultura e agropecuária

Em Minas Gerais, o abate de árvores para a produção de carvão e a conversão da floresta em plantações de eucaliptos são algumas das causas de desflorestação. A silvicultura também é um importante factor de desflorestação na Bahia.

Mário Mantovani, diretor de Políticas Públicas da SOS Mata Atlântica, considera esta uma situação gravíssima, que indica uma reversão na tendência de queda da desflorestação registada nos últimos anos, e acha que não é por acaso que os quatro estados campeões no ranking de desflorestação são conhecidos pela sua produção agropecuária.

“O sector produtivo voltou a avançar sobre as nossas florestas, não só na Mata Atlântica, mas em todos os biomas, após as alterações realizadas no Código Florestal e o subsequente desmonte da legislação ambiental brasileira. Pode ser o início de uma nova fase de crescimento do desmatamento, o que não podemos aceitar”, reiterou.

“No momento em que o caos está instalado em Brasília, numa crise política que tem no seu centro a maior empresa de carnes do mundo, a bancada do agronegócio e o núcleo central do governo federal avançam, de forma orquestrada e em tempo recorde, sobre o nosso sistema de proteção ambiental.”


Araucaria angustifolia, uma espécie arbórea criticamente ameaçada | Foto: Felipe Micaroni Lalli

Desflorestação Zero

Em 2015, os secretários do Ambiente dos 17 estados da Mata Atlântica assinaram a carta “Nova História para a Mata Atlântica”, na qual se comprometeram a ampliar a cobertura vegetal nativa e a abolir a desflorestação ilegal até 2018.

Dois anos depois do acordo, o relatório deste ano revela que apenas cinco estados estão no nível de desflorestação zero, ou seja, com menos de 100 ha (1 km2) desflorestados. São eles o Rio Grande do Norte, Alagoas, Paraíba, Pernambuco e Rio de Janeiro.

Embora o relatório não distinga entre o abate de árvores legal e ilegal, Mário Mantovani diz que a maioria dos 29 075 ha perdidos foram, provavelmente, resultado de atividades ilegais.

“A Mata Atlântica é o único bioma no Brasil que tem uma lei específica e a desflorestação só é permitida para uso público ou de interesse social”, disse. “Se alguma é legal, certamente que é uma percentagem muito pequena.”

Para Mantovani, uma das chaves para dar a volta a esta situação passa pelo envolvimento da população na gestão da floresta. “A sociedade não pode ficar alheia às decisões tomadas pelos nossos governantes e legisladores. Precisamos de nos mobilizar para frear o desmonte da legislação”, afirmou.

“De acordo com a lei, os municípios da Mata Atlântica podem criar um plano para definir o que querem fazer com as suas florestas: promover o turismo, criar zonas de recarga de aquíferos para o abastecimento de água, protegê-las. É uma responsabilidade que precisa de ser partilhada”, defendeu.


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