A Nestlé, McDonald’s e outras empresas foram implicadas na destruição do último habitat partilhado por elefantes, rinocerontes, orangotangos e tigres.



As empresas Pepsico, Unilever e Nestlé foram acusadas de cumplicidade na destruição da última área de floresta tropical onde elefantes, orangotangos, rinocerontes e tigres vivem lado a lado.

Segundo um relatório da organização Rainforest Action Network (RAN), o óleo de palma produzido nas plantações que resultam da destruição ilegal da floresta da ilha de Samatra, na Indonésia, terá sido usado por dezenas de marcas populares, entre as quais também se contam a McDonald’s, Mars, Kellogg’s e Procter & Gamble.

“Se não forem tomadas medidas mais urgentes para impor políticas de não-desflorestação, estas marcas serão recordadas como as grandes empresas responsáveis pela destruição do último lugar na Terra onde os elefantes, orangotangos, rinocerontes e tigres de Samatra viviam lado a lado”, diz o estudo.

Através de dados obtidos por satélite, aliados a registos fotográficos e coordenadas GPS, o estudo mostra a desflorestação que está a decorrer em faixas do ecossistema de Leuser, apesar de uma moratória anunciada em 2016.



Destas plantações, o óleo de palma chega às marcas através de uma cadeia de fornecimento pouco transparente, que começa na empresa madeireira PT Agra Bumi Niaga (ABN), passando pelos moinhos da empresa PT Ensem Sawita (ES), que, por sua vez, vende o produto a alguns dos maiores distribuidores do mundo.

“Depender de organizações não governamentais para desvendar a verdade, simplesmente, não é suficiente”, disse Gemma Tillack da Rainforest Action Network. “Se a RAN, com o nosso orçamento relativamente limitado, o conseguiu descobrir, então as multinacionais multimilionárias certamente o podem fazer. O facto de não o fazerem demonstra que não é a falta de capacidade que as está a deter, mas sim a falta de vontade.”

O ecossistema de Leuser é a maior floresta tropical da ilha de Samatra e um habitat de importância crítica para animais ameaçados como os leopardos-nebulosos, ursos-malaios e elefantes de Sumatra. Entre 2012 e 2015, pelo menos 35 elefantes foram mortos em Leuser. Os conflitos entre os seres humanos e os animais também estão a aumentar, à medida que as plantações de palma fragmentam os seus habitats. Esta fragmentação também deixa os animais mais vulneráveis à caça furtiva.


Leopardo-nebuloso-do-Bornéu (Neofelis diardi) | Foto: Spencer Wright

A taxa de desflorestação de Leuser é uma das mais elevadas do mundo. Em 2015, os incêndios florestais de Samatra – muitas vezes ligados às plantações – destruíram mais de 20 000 km2 de floresta tropical, o que se estima que vá contribuir para a morte prematura de cerca de 100 000 pessoas, conta o The Guardian.

Em 2016, o governador de Aceh, no noroeste de Samatra, Zaini Abdullah, ordenou a todas as empresas de óleo de palma que parassem todas as operações de desflorestação. No entanto, o estudo da RAN mostra que as empresas continuaram a desflorestar, mesmo depois da ordem do governador.

“As marcas mundiais, como a Pepsico, não podem continuar a esconder-se atrás de promessas em papel e culpar, simplesmente, os seus parceiros internacionais por crimes florestais. O ecossistema de Leuser vai sofrer uma morte lenta se as marcas não começarem a tomar medidas urgentes para enfrentar a principal causa desta crise”, disse Gemma Tillack.

Em resposta a este relatório, a Pepsico identificou “fornecedores diretos que tinham nas suas cadeias de fornecimento estes moinhos” e a Unilever admitiu ter comprado, indiretamente, óleo de palma da PT ABN através dos seus fornecedores. A Nestlé, a Cargill e a Musim Mas afirmaram que estavam a investigar estas alegações. A Mars, Kellog’s e Procter & Gamble frisaram as suas políticas de óleo de palma sustentável e a McDonald’s negou qualquer ligação à PT ABN.

No entanto, as empresas já tinham sido avisadas, em 2014, da presença deste óleo de palma nas suas cadeias de fornecimento através dos fornecedores da PT ES.

“As marcas e os distribuidores costumam esconder-se atrás das complexidades das cadeias de fornecimento”, disse Gemma. “Mas os consumidores precisam de saber se o óleo de palma que eles utilizam está ligado à destruição das florestas tropicais.”

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