Praticamente todas as explorações poderiam reduzir significativamente o uso de pesticidas e produzir a mesma quantidade de alimentos.



Praticamente todas as explorações agrícolas poderiam reduzir significativamente o uso de pesticidas e, ainda assim, continuar a produzir a mesma quantidade de alimentos, revelou um novo e aprofundado estudo publicado na revista científica Nature Plants. Segundo o trabalho, mais de três quartos das explorações poderiam cortar na utilização de pesticidas sem sofrer prejuízos.

Atualmente, muitos agricultores gostariam de reduzir o uso de produtos fitofarmacêuticos nas suas explorações, sendo um dos principais motivos para este desejo de mudança a preocupação com os efeitos na saúde. Contudo, não têm acesso adequado à informação sobre as alternativas, já que muito do seu aconselhamento é-lhes prestado por representantes das empresas que vendem não só sementes, mas também pesticidas, dizem os cientistas.

Em março, um relatório realizado por peritos em alimentação e poluição da ONU declarou que a ideia, defendida pela indústria agroquímica, de que os pesticidas são essenciais para alimentar a população mundial crescente é um mito, acusando os pesticidas de terem “impactos catastróficos no ambiente e na saúde humana” e os seus fabricantes de negarem sistematicamente os danos causados pelos seus produtos. Assim como o relatório da ONU, o novo estudo também desafia as alegações do sector dos pesticidas.

Para realizar o estudo, os investigadores analisaram a utilização de pesticidas, a produtividade e a rendibilidade de quase 1000 explorações agrícolas de todos os tipos em França.

Através da comparação de explorações semelhantes que utilizavam níveis baixos ou elevados de pesticidas, os cientistas descobriram que 94% das explorações não registariam perdas em termos de produção, se reduzissem significativamente o uso destes produtos e que dois quintos até produziriam mais.

Os investigadores descobriram ainda que níveis mais baixos de inseticidas se traduziriam num aumento da produção em 86% das explorações e que nenhuma veria uma redução na sua produção, conta o The Guardian. De acordo com o trabalho, 78% das quintas seriam tão ou mais lucrativas caso usassem menos pesticidas de todos os tipos.



“É curioso”, disse Nicolas Munier-Jolain do Instituto Nacional para a Investigação Agrícola de França, um dos autores do estudo. “Os nossos resultados coadunam-se com o relatório da ONU.”

“Mas [isto] não significa que os pesticidas sejam inúteis”, acrescentou, explicando que as explorações que utilizam menos químicos fazem uso de outros métodos para controlar as pragas, como a rotação de culturas, a monda mecânica, a utilização de variedades resistentes e a gestão cuidadosa das datas de sementeira e do uso de fertilizantes. “Se quer ver uma verdadeira redução na utilização de pesticidas, forneça aos agricultores a informação sobre como os substituir. Isto não é, de maneira alguma, o que se verifica, neste momento”, disse.

“Embora tenhamos um sistema no qual os agricultores são aconselhados por agrónomos, a maioria destes trabalha à comissão para empresas agroquímicas, o que torna inevitável a utilização excessiva de pesticidas. Até mesmo os poucos agrónomos independentes têm dificuldade em conseguir informações e aconselhamento independentes para dar aos agricultores”, declarou Dave Goulson, professor da Universidade de Sussex, no Reino Unido.

“Não me parece que a principal preocupação [destas empresas] seja reduzir a quantidade de pesticidas usados”, comentou Nicolas Munier-Jolain.

“Apesar das provas de que muito do uso de pesticidas é desnecessário e de uma grande iniciativa da União Europeia para incentivar a sua utilização sustentável, a agricultura continua a estar dominada pelo emprego de pesticidas”, declarou Matt Shardlow, director executivo da organização Buglife.

Entre as plantações mais sensíveis aos cortes nos pesticidas estão as batatas e as beterrabas sacarinas – duas culturas que utilizam níveis elevados de pesticidas e que são muito lucrativas. O trabalho mostrou, todavia, que a maioria das terras aráveis poderia reduzir em mais de 40% o uso de pesticidas sem prejuízos. “A redução do uso de pesticidas é um dos motores de importância crítica para a preservação do ambiente e da saúde humana, escreveram os autores do estudo.

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