O problema dos microplásticos não é exclusivo ao oceano, avisam investigadores, e a sua presença e efeitos em solos agrícolas são preocupantes.



O problema dos microplásticos nos oceanos e os seus efeitos na vida marinha têm merecido, cada vez mais, a atenção de cientistas e investigadores. A presença destas partículas de plástico em terrenos tem, contudo, sido ignorada, avisam os investigadores, que apontam como particularmente inquietante o facto de se desconhecerem as suas possíveis consequências nas paisagens rurais, onde entram através da aplicação de lamas de depuração.

As lamas de ETAR ou de depuração são os lodos provenientes de estações de tratamento de águas residuais domésticas, urbanas, entre outras, e são utilizadas como suplemento para os fertilizantes tradicionais, na agricultura e na horticultura.

Chegam às estações de tratamento grandes quantidades de microplásticos, a maioria dos quais se acumula nestas lamas, provenientes de fontes domésticas e industriais, através, por exemplo, da lavagem de roupa de fibras sintéticas, da utilização de produtos com micropartículas de plástico, como alguns cosméticos e produtos de limpeza, e da fragmentação de detritos de plástico de maior dimensão.

A aplicação das lamas nos terrenos agrícolas costuma ser bem regulada, uma vez que estas podem conter vários tipos de substâncias indesejáveis e perigosas. Contudo, os níveis de microplásticos não são atualmente regulados. As possíveis consequências para a sustentabilidade e para a segurança alimentar ainda não foram adequadamente analisadas, dizem os autores de um trabalho publicado na revista científica Environmental Science & Tecnology, Luca Nizzetto e Sindre Langaas, do Instituto Norueguês de Investigação em Recursos Hídricos (NIVA), e Martyn Futter, da Universidade de Ciências Agrícolas da Suécia, em Uppsala.

“Descobrimos valores dos países nórdicos que sugerem que uma grande parte de todos os microplásticos gerados pelas sociedades ocidentais costumam acabar nas lamas das estações de tratamento de águas residuais, disse Luca Nizzetto.

A quantidade de lamas de ETAR utilizadas como fertilizante varia de país para país, na Europa e na América do Norte, em média, o valor aproxima-se dos 50%. Na Noruega, cerca de dois terços destes lodos são reutilizados desta forma.

Segundo estimativas dos autores do artigo, todos os anos são transferidas para os solos agrícolas, na Europa e na América do Norte, entre 110 mil e 730 mil toneladas de microplásticos. Este valor é mais elevado do que o total estimado de microplásticos atualmente presentes nos oceanos e é um motivo de preocupação dado que os efeitos da acumulação de microplásticos em solos agrícolas não são conhecidos.
“Sabemos muito pouco sobre o efeito dos microplásticos em organismos do solo e o seu impacto na produtividade das explorações agrícolas e na segurança alimentar é desconhecido.”


Foto: 5 Gyres

Num estudo anterior dos mesmos autores, juntamente com investigadores da Universidade de Oxford, a equipa criou um modelo matemático capaz de simular a aplicação de microplásticos na terra e o consequente destino destes materiais em solos e rios, chamado INCA Microplastics. Devido à falta de dados empíricos sobre as emissões de microplásticos e as concentrações em solos e rios, este estudo foi concebido para oferecer uma avaliação puramente teórica, se bem que rigorosa, da circulação de microplásticos.

As simulações demonstram uma forte influência das condições meteorológicas e das características dos caudais dos rios no transporte de microplásticos dos solos agrícolas para os oceanos. A utilização de lamas de depuração nos terremos representa, provavelmente, uma fonte considerável destes fragmentos de plástico para os ambientes costeiros e marinhos, argumentam os autores.

“São claramente necessários mais trabalhos de investigação para se obter uma visão geral do problema – e para se encontrarem soluções – para que a crescente necessidade de reciclar da comunidade e a chamada economia circular possam ser asseguradas”, declarou Luca Nizzetto.
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