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Mercado de vida selvagem

Elizabeth Maruma Mrema, a responsável das Nações Unidas para a biodiversidade defende a proibição global dos mercados de animais selvagens como os de Wuhan, na China, para evitar o aparecimento de novos surtos e ajudar a proteger a biodiversidade.

“Seria bom banir os mercados de animais vivos, algo que a China e outros países têm vindo a fazer”, afirmou Mrema. “A mensagem que estamos a receber é que, se não tratarmos da natureza, ela trata de nós.”

A China proibiu temporariamente, devido à pandemia de Covid-19, os mercados de animais onde são comercializados para consumo humano pangolins, morcegos, civetas ou crias de lobos, entre outras espécies. Muitos cientistas defendem que Pequim devia tornar a proibição permanente.

Os animais, nestes mercados, são mantidos em jaulas sob fracas condições de higiene, o que pode originar o desenvolvimento de doenças que podem, por vezes, ser transmitidas aos humanos.

“A perda de biodiversidade está a tornar-se fortemente relacionada com o aparecimento de alguns destes novos vírus. E a desflorestação em larga escala, a degradação de habitats naturais, a intensificação da agricultura, o nosso sistema alimentar, o comércio de espécies de animais e plantas, as alterações climáticas – todos estes fatores levam à perda da biodiversidade”, lamentou Mrema.

“Sabemos que no fim da década de 1990, na Malásia, o surto do vírus Nipah terá resultado da desflorestação, dos incêndios e da seca, fenómenos que levaram os morcegos da fruta, os portadores naturais do vírus, a mudarem-se das florestas para as plantações. Os agricultores terão então sido infetados e contagiado outros humanos”, explicou.

“Preservar ecossistemas intactos e a biodiversidade vai ajudar-nos a reduzir a presença de algumas dessas doenças. Portanto, a maneira como cultivamos, como utilizamos os solos, como protegemos os ecossistemas costeiros e como tratamos as nossas florestas, vai destruir o futuro ou então vai ajudar-nos a viver durante mais tempo”, refere.

Também a World Wide Fund for Nature (WWF) com base num estudo recentemente divulgado, pediu em comunicado aos Governos locais que fechem os mercados de vida selvagem da Ásia oriental.

1ª Foto: Dan Bennett Flickr: DSC_4970

burro

O Quénia proibiu o abate comercial de burros e a exportação das suas peles.

A medida pretende evitar a “dizimação” da população dos animais e combater o surto de roubos que se está a verificar no país, impelido pela crescente procura da pele do animal na China, onde é utilizada na medicina tradicional.

O ministro da Agricultura, Peter Munya, explicou que os matadouros de burros têm um mês para acabar com a prática, e comentou que a legalização do comércio de carne e couro de burro em 2012 tinha sido um erro.

Cerca de 1000 burros são mortos todos os dias no Quénia, tendo como destino a China, onde a pele é usada para produzir uma gelatina castanha, conhecida como “ejiao”, utilizada na medicina tradicional e na cosmética. Um quilo de “ejiao” pode chegar a ser vendido por 388 dólares (cerca de 350€).

Muitos habitantes das zonas rurais estão a ser gravemente afetados pelo aumento do roubo de burros, dos quais dependem para o transporte de água, lenha e produtos agrícolas. Ao mesmo tempo, os preços dos animais, inflacionados pela procura de peles, colocam-nos fora do alcance dos pequenos agricultores.

A população de burros da China caiu de 11 milhões em 1990 para 3 milhões, levando o país a virar-se para a África para colmatar a procura de “ejiao”.

Vários países africanos já proibiram a exportação de peles de burro para a China, entre os quais o Uganda, Tanzânia, Botswana, Níger, Burkina Faso, Mali e o Senegal.
Atividade escolar

Pela primeira vez, milhões de crianças do Vietname, com idades entre os 6 e os 11 anos, vão ter aulas sobre animais selvagens ameaçados, incluindo rinocerontes, elefantes, pangolins, tigres, calaus e primatas.

O objetivo é combater o comércio ilegal de vida selvagem no país – que é um consumidor ávido de produtos como chifre de rinoceronte, marfim de elefante e ossos de tigre –, levando a geração mais nova a apreciar a fauna e a conhecer as ameaças que esta enfrenta.

O projeto é uma iniciativa conjunta da organização Humane Society International (HSI), da autoridade administrativa do Vietname para a Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies Ameaçadas, do Ministério de Agricultura e Desenvolvimento Rural e do Ministério de Educação e Formação.

O tráfico de vida selvagem é um dos mais lucrativos crimes transnacionais organizados, sendo apenas superado pelo comércio clandestino de droga, armas e pelo tráfico de seres humanos.

Nos últimos 15 anos, o Vietname esteve implicado em mais de 600 apreensões ligadas a espécies cujo comércio é interdito.

Estas apreensões incluíram 105,72 toneladas de marfim, o que equivale a mais de 15 779 elefantes mortos; 1,69 toneladas de chifres, que se estimam que provenham de até 610 rinocerontes; peles, ossos e outros produtos de pelo menos 228 tigres; e as carcaças e escamas de 65 510 pangolins, de acordo com a HSI.

Desenhos de animais
Fotos: Mai Thi Nguyen/HSI

“No que toca à procura por parte dos consumidores de espécies traficadas, o Vietname é um dos principais países do mundo e, por isso, se pretendemos alimentar qualquer esperança de mudar as mentalidades dos cidadãos vietnamitas, temos de começar na sala de aula, tão cedo quanto possível”, disse Phuong Tham, diretor da HSI no Vietname.

“O nosso projeto está vocacionado para incutir nas gerações vindouras o apreço pelos animais selvagens, através da mudança das atitudes em relação ao consumo da vida selvagem e à forma como este comércio pode ameaçar a própria sobrevivência de espécies icónicas.”

“O programa dá-nos uma excelente oportunidade para aprender sobre a vida selvagem e sobre as espécies ameaçadas que são traficadas com maior frequência”, contou Duong Nhung, professora da Escola Básica de Quynh Loi.

“Cada lição é concebida de forma criativa, em linguagem simples, e com atividades divertidas e interativas. Eu, pessoalmente, sinto-me entusiasmada com estas aulas que pretendem inspirar as crianças a interessarem-se pelos animais e a nunca pensarem em consumir produtos de espécies selvagens.”

Chan Nguyen, estudante de 10 anos da Escola Básica de Tan Son Nhi, também acha esta notícia entusiasmante. “Quero aprender mais sobre a vida selvagem e as espécies ameaçadas”, disse. “Vou dizer aos meus pais e aos meus familiares para deixarem de comprar e utilizar produtos de espécies selvagens porque esta é uma forma como os seres humanos estão a matar os animais e a empurrá-los para a extinção. Adoraria vê-los a viver, felizes e em liberdade, na natureza.”
Urso-malaio

O comércio ilegal de partes e derivados de urso para utilização na medicina tradicional persiste na Malásia, havendo, atualmente, mais lojas a vender produtos que alegam conter alguma forma de bílis destes animais do que havia há quatro anos.

Um novo estudo da TRAFFIC – organização que monitoriza o comércio da vida selvagem – descobriu medicamentos derivados de urso à venda em 69% das lojas de medicina tradicional chinesa inspecionadas na Malásia peninsular entre 2017-2018.

Como nos relatórios anteriores, os comprimidos de bílis de urso foram os produtos observados com maior frequência, perfazendo 88% dos itens encontrados, seguidos, de longe, pelas vesículas biliares (7%).

Embora os comprimidos fossem fáceis de encontrar, a sua autenticidade não era clara, devido à inconsistência das alegações dos comerciantes e à falta de clareza ou ausência de rótulos em alguns produtos.

O urso-malaio (Helarctos malayanus) é a única espécie de urso nativa da Malásia e a caça e comércio ilegais impulsionados pela procura por medicamentos tradicionais representam uma séria ameaça para as populações destes animais, incluídos na Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da UICN.


Comprimidos de bílis de urso encontrados durante as inspeções | Foto: Traffic

Em comparação com o estudo anterior, apenas uma fração dos vendedores afirmou possuir comprimidos de bílis de urso em estado puro. A maioria disse aos investigadores que a venda de produtos à base desta substância era proibida ou que alguns dos comprimidos continham, de facto, uma mistura de ervas medicinais e a bílis de outros animais.

“Apesar de o comércio persistir, tornou-se menos claro se os comerciantes estão a vender produtos genuínos, à base de bílis de urso, ou se estão simplesmente a tentar contornar a lei ao alegarem que os seus produtos só contêm plantas e a bílis de outro animal”, disse Kanitha Krishnasamy, diretora da TRAFFIC no sudeste asiático.

“Se um número crescente de comerciantes estiver realmente a fazer passar outros ingredientes – sejam eles de origem animal ou não – por medicamentos com bílis de urso, isto acrescenta outro aspeto preocupante ao problema, e um que requer escrutínio por parte das entidades reguladoras. Mas, independentemente disto, esta prática perpetua a crença de que os medicamentos à base de urso são eficazes e impulsiona a procura e comércio ilegal destes animais.”


Bílis de urso alegadamente importada da China | Foto: TRAFFIC

O Território Federal de Kuala Lumpur e Selangor foram os que apresentaram a maior percentagem de lojas com produtos de bílis de urso. O estudo não abrangeu os estados de Sabá e Sarawak.

Em junho de 2019, foi lançado um plano de ação para a conservação global do urso-malaio, que inclui uma estratégia de 10 anos para salvaguardar esta que é a espécie de urso mais pequena do mundo e que continua a ser vítima do comércio ilegal.
1ª foto: Urso-malaio (BirdPhotos.com/Wikimedia Commons)

Pangolim

O governo chinês anunciou que vai remover as “decocções” de pangolim da lista de medicamentos reembolsáveis pela segurança social.

As escamas de pangolim são usadas na medicina tradicional chinesa para supostamente tratar uma variedade de problemas de saúde, desde artrite a dificuldades na amamentação.

A procura por estas escamas está a colocar em risco todas as oito espécies de pangolim. Em fevereiro, as autoridades de Hong Kong apreenderam oito toneladas de escamas deste pequeno mamífero ameaçado de extinção.

Juntamente com os remédios de pangolim, o governo também removerá da lista de medicamentos reembolsáveis outros produtos de espécies selvagens, incluindo os de tartaruga-de-escamas, cavalo-marinho, coral e os chifres de antílope saiga.

Embora o comércio internacional de pangolins asiáticos e africanos esteja proibido desde 2000 e 2017, respetivamente, a China continua a permitir a sua venda, insistindo que as escamas provêm de reservas armazenadas antes de as proibições terem entrado em vigor.

Segundo a National Geographic, o país também poderá estar a considerar transferir os pangolins da Classe II para a Classe I na sua legislação de proteção de espécies selvagens. Isto significaria que a venda e utilização de pangolins e dos seus produtos só seriam permitidas em determinadas circunstâncias, como para investigação científica.
Foto: David Brossard/Flickr

Leão

O Tribunal Superior de Gauteng, na África do Sul, declarou “ilegais” e “constitucionalmente inválidas” as quotas anuais de exportação de ossos de leão definidas pelo governo sul-africano nos anos de 2017 e 2018.

O tribunal concluiu que a ex-ministra do Ambiente, Edna Molewa, e o Departamento dos Assuntos Ambientais não tiveram em conta o bem-estar dos animais em cativeiro ao estabelecerem as quotas, que permitiram a exportação de 800 esqueletos de leão criados em cativeiro em 2017 e de 1500 em 2018.

“Se, como país, decidimos tomar parte no comércio de ossos de leão, o que parece ser o caso por ora, então, no mínimo, as nossas obrigações constitucionais e legais exigem que se tome em consideração as questões relativas ao bem-estar dos animais”, declarou o juiz Jody Kollapen.

Existem mais de 200 instalações de reprodução de leões e cerca de 8000 destes grandes felinos em cativeiro na África do Sul. Quando atingem a idade adulta, muitos destes animais são mortos por caçadores de troféus em recintos fechados, dos quais não podem escapar ("canned hunting"). Os seus ossos são exportados para os mercados asiáticos para serem usados na medicina tradicional.

O grupo por trás do documentário Blood Lions (“Leões de Sangue”) aplaudiu a decisão do tribunal.

“O dia de hoje traz boas notícias para os leões e para todos os que se opõem às indústrias de criação de predadores, de 'canned hunting' e ao turismo abusivo”, disse o grupo. “Esperamos que este parecer suscite um debate inteiramente novo sobre estas indústrias atrozes e sobre a fixação de limites [de exportação] de ossos de leão. A Blood Lions apela uma vez mais ao fim da criação e uso abusivos dos predadores em cativeiro.”

“Estamos felizes com o facto de a importância do bem-estar dos animais selvagens ter sido legalmente reconhecida na África do Sul”, disse Karen Tendler, do Conselho Nacional das Sociedades para a Prevenção da Crueldade contra os Animais (NSPCA), que moveu a ação contra o ministério. “Não podemos pura e simplesmente usar, abusar e comercializar animais selvagens sem ter em consideração o seu bem-estar.”

A quota relativa ao ano de 2019 ainda não foi definida pela nova ministra do Ambiente, Barbara Creecy.
Puma

Foram apreendidos nove dentes caninos de puma na cidade chinesa de Xiamen, descobertos pelas autoridades num pacote enviado do Peru com destino à China.

Para os conservacionistas, esta apreensão reflete o perigo que o “apetite” da China pelos grandes felinos faz pairar sobre todas as espécies destes animais.

Para substituir as partes outrora fornecidas pelos tigres, após o declínio drástico destes animais na natureza, o mercado asiático está a virar-se para as outras espécies de grandes felinos. Na América do Sul, por exemplo, os cientistas avisam que este comércio está a colocar em risco as populações de jaguares.

“A procura dos consumidores chineses e vietnamitas por caninos de tigre – usados como jóias [para demonstrar riqueza] ou talismãs [contra o mal] – está a impulsionar a caça furtiva e o comércio ilegal não só de tigres, mas também de outras espécies de grandes felinos, cujos dentes podem ser vendidos como sendo de tigre ou como uma alternativa mais barata”, disse a EIA (Agência de Investigação Ambiental), uma ONG que investiga e luta contra os crimes ambientais.

Caninos de puma
Os caninos de puma apreendidos na China

A EIA acusa as plataformas WeChat e Facebook de facilitarem a venda ilegal de dentes e garras destas espécies no sudeste asiático. “Este é um mercado que está a ser largamente ignorado pelas autoridades, o que proporciona aos criminosos a oportunidade de obter lucros elevados com poucos riscos”, explicou a ONG.

“As notícias de que o mercado [de partes de tigre] também está a impulsionar o comércio ilegal de dentes de puma deveria ser um alerta para todos os que trabalham na conservação dos grandes felinos e para o governo chinês”, disse Aron White, da EIA.

“Até que a procura no principal mercado de consumo seja contida, incluindo a aplicação de uma proibição inequívoca deste comércio (…), todos os grandes felinos do mundo continuarão em perigo.”
1ª foto: Debs/Flickr
Rinoceronte

A China suspendeu a alteração à lei que iria permitir o comércio de ossos de tigre e chifres de rinoceronte, após o protesto de vários grupos de conservação.
Os produtos destes animais em perigo de extinção são usados na medicina tradicional chinesa, apesar da falta de evidência sobre a sua eficácia no tratamento de doenças.

De acordo com Ding Xuedong, um funcionário do Conselho de Estado, a alteração que iria permitir o comércio de chifres de rinoceronte e ossos de tigre sob "circunstâncias especiais" foi "suspensa para análise".

"Os departamentos relevantes do Governo chinês vão em breve continuar a organizar campanhas especiais de combate focadas em travar o comércio ilegal de rinocerontes, tigres ou produtos derivadas destes animais", afirmou Ding. "Vamos lidar com ações ilegais de forma rigorosa".
Rinoceronte

O governo do Quénia criticou a decisão da China de revogar a proibição do comércio de ossos de tigre e chifres de rinoceronte.

O Ministério do Turismo e da Vida Selvagem do país africano defendeu que a medida servirá apenas para tornar os traficantes e os caçadores furtivos mais audaciosos, apesar do número decrescente de rinocerontes no país.

“A posição do Quénia é de que o comércio de chifres de rinoceronte não deveria ser legalizado”, afirmou o ministério, num comunicado. “O comércio ilegal de chifres de rinoceronte atingiu os seus níveis mais elevados desde (…) os anos 90. No ano passado, 2000 chifres de rinoceronte africanos entraram no comércio ilegal, de acordo com o grupo de conservação TRAFFIC.”

O comunicado do ministério também acusou a China de propagar a falsa crença de que os chifres têm propriedades medicinais, algo que não foi provado cientificamente.

“Permitir que os chifres de rinoceronte sejam comercializados como medicamentos é desonesto e transmite mensagens contraditórias ao mercado, numa altura em que só uma mensagem clara precisa de ser comunicada aos milhares de milhões de potenciais clientes”, disse o ministério.

A China anunciou, no dia 29 de outubro, que iria retomar o comércio de produtos feitos à base de partes de tigres e de rinocerontes para fins medicinais e de investigação.
Tigre

A China anunciou ontem, 29 de outubro, que vai retomar, ainda que de forma limitada, o comércio de produtos feitos à base de partes de tigres e de rinocerontes, animais em perigo de extinção.

Os chifres de rinoceronte e os ossos de tigre só poderão provir de animais criados em cativeiro e ser utilizados em "hospitais qualificados por médicos acreditados". "Sob circunstâncias especiais, a regulação da venda e uso destes produtos vai ser reforçada (...) o volume do comércio vai ser rigorosamente controlado", pode ler-se no comunicado do governo.

Apesar da falta de evidência sobre a eficácia no tratamento de doenças, os ossos de tigre e os chifres de rinoceronte são usados na medicina tradicional chinesa mesmo tendo um impacto catastrófico na vida selvagem.
A medicina tradicional atribui virtudes, principalmente afrodisíacas, aos produtos derivados de tigres (ossos, garras, bigode e pénis). Os chifres de rinoceronte eram prescritos na medicina tradicional para combater a febre.

A WWF considerou que esta decisão vai ter "consequências devastadoras a nível global", pois vai permitir que os caçadores furtivos e contrabandistas se escondam por trás do comércio legal.
"Com a população de tigres selvagens e rinocerontes num nível tão baixo e sob várias ameaças, a legalização do comércio de partes do corpo é simplesmente um risco demasiado grande", afirmou Margaret Kinnaird, diretora da WWF.
"A decisão parece contradizer a liderança que a China tem assumido, recentemente, no combate ao comércio ilegal de espécies selvagens".

"Com este anúncio, o governo chinês assina a sentença de morte dos rinocerontes e dos tigres selvagens", acusou Iris Ho, diretora da Humane Society International.

O tigre está classificado como espécie em risco de extinção pela UICN. Atualmente existem menos de 4000 tigres em estado selvagem. A UICN classifica as espécies distintas de rinocerontes em várias categorias: "vulneráveis", "quase ameaçado" ou "em risco crítico de extinção".

Kate Nustedt, diretora em Londres do programa da associação Animals in the Wild é contra a criação de animais selvagens para fins farmacêuticos. "Existem alternativas sintéticas que são o futuro, sem crueldade, para a medicina asiática tradicional", afirma.

A China tinha proibido o uso e comércio de ossos de tigre e de chifres de rinoceronte em 1993, depois de ter aderido à Convenção sobre o comércio internacional de espécies em perigo de extinção, que inclui mais de 170 países.

Rinoceronte juvenil

Na África do Sul, um rinoceronte é morto a cada oito horas. A manter-se o ritmo atual de matança, o futuro destes gigantes está em sério risco.

Olivia Mokiejewski, realizadora do documentário “Rhino dollars”, investigou o comércio lucrativo que ameaça este animal, o tráfico do seu chifre, um produto que chega a valer mais do que o ouro ou a heroína.

“Estima-se que restem hoje cerca de 25 mil rinocerontes brancos e negros. Na África do Sul, 1000 [destes animais] morrem todos os anos. Podemos, portanto, presumir que o seu desaparecimento está programado para daqui a uma vintena de anos”, alertou a realizadora.

“Isto aplica-se a muitas espécies. No caso dos leões, estima-se que terão desaparecido em 2050. O problema é que quanto menos animais houver, menor é a diversidade genética e mais rapidamente desaparece a espécie.”

Com o novo documentário, fruto de um trabalho de investigação de dois anos, Olivia Mokiejewski quis mostrar que por trás do comércio ilegal de chifres de rinoceronte se esconde “uma nova face do crime organizado”.

“A forma como funciona é idêntica ao tráfico de drogas ou de armas. Não se trata apenas de ‘um problema para ecologistas’. Aqueles que dizem que ‘a Terra continuará a girar’ esquecem-se de que a pilhagem da natureza é uma das principais fontes de financiamento para o submundo e os grupos terroristas”, contou ao jornal francês Le Monde. “Portanto, não se trata apenas de salvar uma espécie animal. As ameaças não são só ecológicas, mas também económicas e de segurança.”



As máfias que organizam o tráfico de chifres estão “organizadas como empresas”, disse. Na base encontram-se os caçadores furtivos. O topo é ocupado com frequência por empresários asiáticos, sediados na China ou em Hong Kong, que dirigem sociedades perfeitamente legais.

“Estas máfias têm ramificações em vários continentes e são muito bem organizadas. Quando rolam cabeças, são imediatamente substituídas”, explicou Olivia.

A realizadora esteve cara a cara com alguns caçadores furtivos, para melhor compreender o que está na origem destes crimes.

“[Não basta] dizer: ‘quem mata rinocerontes é mau, quem os defende é bom’”, afirmou. “Na África do Sul, as consequências do apartheid são um dos lados do problema. Nesta guerra dos chifres, encontram-se tensões raciais muito fortes. Muitos veem todos os dias os autocarros e os automóveis cheios de turistas, mas não recebem os benefícios económicos da fauna. E quando são contratados como guardas-florestais, recebem um salário de miséria. Desta forma, quando veem um animal, veem dinheiro. Não têm qualquer interesse em proteger os animais. Com um tiro, ganharão 50 ou 100 vezes mais.

“Consegui abordá-los, perguntando-lhes porque o fizeram, mas sem os julgar”, continuou. “Não estão orgulhosos do que fazem, mas explicam-no. Quando lhes dizemos: ‘E o que farão quando já não houver rinocerontes?’, eles respondem: ‘Mataremos elefantes’. Estas pessoas têm desejos como todo a gente, querem ter t-shirts da moda e ouvir música.”


Vídeo: O documentário "Rhino Dollars"

Para Olivia, as soluções devem passar pela colaboração internacional e pela sensibilização do público.

“Seria necessária uma perspetiva global deste tráfico, uma verdadeira colaboração internacional para desmantelar as redes criminosas. Também seria necessária formação no sector aduaneiro, porque, hoje em dia, os chifres já não são transportados numa única peça, mas sob a forma de joias, e as autoridades não aprendem isto. A outra ideia, um pouco idealista, seria trabalhar em colaboração com as populações locais para que os sindicatos do crime tenham menos facilidade em recrutar. Do lado asiático, é preciso explicar-se que as virtudes do chifre de rinoceronte são totalmente imaginárias, que não foram provadas cientificamente.”

O chifre de rinoceronte é muito procurado na Ásia, especialmente no Vietname, por se acreditar, erroneamente, que tem propriedades curativas e afrodisíacas e que é capaz de curar o cancro, a ressaca e outros problemas de saúde. É ainda visto como um símbolo de status.
Cavalos-marinhos secos

Estima-se que, todos os anos, 37 milhões de cavalos-marinhos sejam retirados dos seus habitats, capturados sobretudo por artes de pesca não seletivas.

Mais de metade deles são mortos, secos e comercializados internacionalmente para serem utilizados na medicina tradicional chinesa, que lhes atribui qualidades medicinais.

Uma pequena percentagem acaba ainda em aquários particulares um pouco por todo o mundo ou é vendida como souvenirs.

O comércio internacional, a pesca e a perda de habitat estão a dificultar a vida ao pequeno cavalo dos mares.

Existem mais de 40 espécies de cavalo-marinho e muitas delas estão classificadas pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) como “vulneráveis” e “em perigo”. Sobre muitas outras não existem dados suficientes para se proceder à avaliação do seu risco de extinção.

Em Portugal, também as populações residentes de cavalos-marinhos da ria Formosa estão em declínio, ameaçadas pela degradação ambiental, a pesca não seletiva e a captura ilegal com destino ao mercado asiático.

Cavalo-marinho
Foto: shellac/Flickr

O cavalo-marinho, ou “hai ma”, é usado há séculos, talvez milénios, na medicina tradicional chinesa. Os animais são mergulhados em vinho de arroz ou reduzidos a um pó que se adiciona ao vinho ou à sopa, alegadamente para aumentar a virilidade e curar a impotência.

Embora, segundo Victor Cheng, praticante de medicina tradicional chinesa na Califórnia e em Xangai, já não sejam usados frequentemente nos principais hospitais chineses e tenham adquirido um estatuto de “remédio popular”, a medicina tradicional continua a impulsionar a procura global.

Para compreendermos porquê, devemos considerar a dimensão da população chinesa, diz Victor. A China tem mais de mil milhões de habitantes. Se 1% destes comprarem um só cavalo-marinho todos os anos, no total, estaríamos a falar de 14 milhões de animais por ano.

Cavalos-marinhos secos
50 gramas destes cavalos-marinhos, importados da Tailândia para Hong Kong, custam 70 dólares (esquerda) e 80 dólares (direita), ou aproximadamente 4-6 dólares por cada animal. | Foto: Anita Wan Hong/Project Seahorse

Mas o problema não se fica por aí. A maioria dos cavalos-marinhos não é pescada propositadamente. Muitos pescadores capturam estes animais acidentalmente, utilizando redes de arrasto, armadilhas para caranguejos e redes de emalhar destinadas à pesca de outros animais. As capturas acessórias de cavalos-marinhos seriam descartadas, se não existisse a procura asiática.

“Mesmo que os cavalos-marinhos não estivessem a ser usados pela medicina tradicional, continuariam a ser capturados em quantidades imensas por práticas de pesca indiscriminadas”, explicou Sarah Foster, cientista marinha do grupo de conservação Project Seahorse.

Para complicar ainda mais as coisas, muitos destes métodos de pesca danificam os habitats destes animais, destruindo ecossistemas frágeis.

As pescas acessórias também mantêm o preço dos cavalos-marinhos mais baixo. “Os pescadores podem vendê-los por pouco. Afinal de contas, de outra forma, seriam descartados”, escreveu a Oceana, a maior organização internacional de conservação e defesa dos oceanos. “Os preços vão subindo à medida que os cavalos-marinhos passam dos portos locais para os distribuidores e depois para as lojas espalhadas pelo mundo. E, à medida que estes animais se tornam mais raros, a procura pode conduzir à subida dos seus preços.”

Cavalo-marinho

Segundo Sarah Foster, mesmo se os cavalos-marinhos fossem devolvidos à água depois de capturados, corriam o risco de não sobreviver. “Consideramos um cavalo-marinho capturado, um cavalo-marinho morto”, afirmou.

“Precisamos de áreas marinhas protegidas e que os barcos de arrasto se afastem das costas”, defendeu a cientista.

Há mais de uma década, a CITES (Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies Selvagens) aumentou as restrições ao comércio das espécies de cavalo-marinho e, entretanto, muitos dos principais países exportadores proibiram o comércio destes peixes. A Tailândia, a maior exportadora de exemplares selvagens, decidiu suspender as suas exportações em 2016.

Cavalo-marinho
Foto: Florin Dumitrescu/Wikimedia Commons

Contudo, 96% do comércio global é agora ilegal.
“Um declínio no comércio registado parece uma coisa boa, pelo menos no papel”, disse Sarah Foster. “Mas isso não reflete o que está mesmo a acontecer.”

De acordo com as suas estimativas, entre 20 e 25 milhões de cavalos-marinhos mortos e desidratados continuam a atravessar fronteiras todos os anos. Os países envolvidos são essencialmente os mesmos. “Agora estamos a falar de tráfico de vida selvagem”, sublinhou.

Embora existam projetos que criam cavalos-marinhos em cativeiro para diminuir a pressão sobre as suas populações selvagens, a cientista não considera provável que a criação em cativeiro tenha a dimensão necessária para satisfazer a procura por estes animais.

“Aqui, no Project Seahorse, gostamos de dizer que se conseguirmos salvar os cavalos-marinhos, conseguimos salvar o mar”, argumentou, explicando que as medidas destinadas à proteção destes peixes emblemáticos – como a cessação das práticas de pesca prejudiciais e não seletivas – também ajudam outras espécies de pequenos peixes e os próprios ecossistemas.
1ª foto: Hoang Do Huu/Project Seahorse

Trailer do documentário "Cavalos De Guerra", baseado nas expedições de João Rodrigues, fotógrafo subaquático, biólogo marinho e ambientalista, em luta pela conservação e preservação dos cavalos-marinhos da Ria Formosa.
cria de leão dentro de um recinto fechado com uma vedação

Se está a pensar visitar a África do Sul, saiba que, ao tirar selfies com filhotes de leão ou ao participar em passeios com estes grandes felinos, pode estar, involuntariamente, a apoiar a caça de troféus e o comércio de ossos destes animais.

Os parques sul-africanos onde os visitantes interagem desta forma com os grandes felinos fazem parte da lucrativa indústria de criação de leões da África do Sul.

Os turistas são frequentemente levados a pensar que estão a ajudar crias “órfãs”, que serão libertadas mais tarde na natureza, contribuindo assim para a preservação desta espécie ameaçada.

Mas a verdade não podia ser mais diferente. As crias não são “órfãs”, explicam os investigadores que visitaram as quintas de criação destes animais. São retiradas com poucos dias de idade às suas progenitoras, que se veem forçadas a “entrar num ciclo esgotante e contínuo de reprodução”.

Os filhotes nunca são libertados na natureza e, mesmo que o fossem, não sobreviveriam.

“Assim que as crias deixam de ser adoráveis e fofinhas, são usadas em passeios com leões. Quando os leões já são demasiado perigosos para essa atividade, alguns são vendidos para as ‘canned hunts’, onde são mortos por caçadores de troféus em recintos fechados, dos quais não podem escapar. Outros são mortos para o comércio de ossos, para depois serem exibidos ou usados em falsos tónicos medicinais na Ásia”, explica a organização Humane Society International (HSI).

leão espreita por um buraco na porta do sítio onde se encontra confinado
Foto: Ian Michler/Blood Lions

“A maioria das pessoas vem à África do Sul porque adora os leões e os outros animais selvagens. Ficariam chocadas ao descobrir que os adoráveis filhotes de leão com os quais tiraram selfies serão, um dia, mortos para fins lucrativos”, disse Audrey Delsink, da HSI/Africa.

Embora a África do Sul tenha menos de 3000 leões selvagens em liberdade, existem, no país, entre 6000 e 8000 destes animais mantidos em cativeiro em mais de 200 instalações de reprodução.

Em junho, o Departamento dos Assuntos Ambientais sul-africano autorizou a exportação anual de 1500 esqueletos de leões criados em cativeiro, o que é quase o dobro do número permitido no ano passado.


Vídeo: Alexandra Lamontagne trabalhou como voluntária num “santuário” sul-africano, ajudando a criar cinco crias de leão. Descobriu, mais tarde, que estas estavam destinadas a ser troféus de caça.

Como é impossível distinguir as partes corporais dos animais selvagens das dos criados em cativeiro, a exportação legal favorece a continuação do comércio ilegal de ossos de leões selvagens, para além de representar um risco para as populações de outros grandes felinos, incluindo os tigres.

Os turistas impulsionam involuntariamente esta indústria desprezível ao participarem em atividades como passear com leões e acariciar crias, ao mesmo tempo que os voluntários criam os filhotes de leão sem suspeitas, acreditando erradamente que os animais vão ser libertados na natureza”, declarou Will Travers, presidente e cofundador da Born Free Foundation.

“Agora que conheço a verdade por trás da indústria de criação de leões em cativeiro e a triste exploração destes leões, desde o seu nascimento até à morte, estou horrorizada pelo facto de esta ser a forma como tratamos o rei da selva”, confessou a atriz sul-africana Pearl Thusi.

Muitas crias de leão aos pés de um grupo de turistas. Um dos filhotes está ao colo de um turista.
Os turistas pagam para acariciar e interagir com crias de leão criadas para serem abatidas por caçadores | Foto: Ian Michler/Blood Lions

Veja ainda o trailer do documentário Blood Lions:

Tigre morto

As autoridades checas descobriram um “matadouro” de tigres nos arredores de Praga, durante uma série de rusgas realizadas na República Checa no mês de julho.

Esta operação foi o resultado de mais de dois anos de trabalho de recolha de provas contra cidadãos checos e vietnamitas envolvidos no tráfico de tigres, uma espécie em perigo de extinção.

Entre as descobertas da “Operação Troféu”, contam-se um tigre morto com um tiro no olho para não danificar a sua pele; muitas garras, ossos e peles destes grandes felinos; dezenas de corpos e partes de animais mortos, muitos dos quais em estado de decomposição, e uma panela na qual se “cozinhava” um preparado à base de ossos, conhecido como “cola de tigre”, utilizado na medicina tradicional asiática.

Estavam envolvidos nesta rede de tráfico internacional um criador legal de grandes felinos – proprietário de mais de 40 tigres e 88 leões com documentação CITES e ligações a dois zoos e um circo –, um taxidermista ilegal e um empresário vietnamita, entre outras pessoas. A polícia deteve três suspeitos.



Embora as “quintas” de tigres e a venda de partes destes animais costumem ser associados apenas à Ásia, este comércio lucrativo também está a acontecer no coração da Europa.

“Há vários anos que avisamos que o comércio ilegal de produtos de tigre é um problema muito sério na Europa, não só na Ásia”, disse Pavla Rihova, do Serviço Checo de Inspeção Ambiental, depois das rusgas.

“Existem muitos tigres em cativeiro na Europa sem sabermos quem os possui e onde são mantidos", acrescentou a investigadora, aludindo ainda a uma "elevada taxa de mortalidade" destes animais.

Cola de tigre
"Cola" de tigre encontrada durante a rusga policial

Segundo a Born Free Foundation, a polícia também efetuou buscas num mercado vietnamita nos arredores de Praga e concluiu que existiam fortes indícios para acreditar que alguns dos produtos de tigres e de outros animais selvagens se destinavam a clientes dentro do país. A República Checa é lar da segunda maior comunidade vietnamita na Europa.

“Este caso expôs uma prática brutal e bárbara, ligando as indústrias dos zoos e dos circos na Europa ao comércio ilegal de produtos de animais selvagens”, disse Chris Draper, da Born Free. “É revoltante pensar que os grandes felinos, depois de serem maltratados para entretenimento humano enquanto crias e, mais tarde, em circos, se deparavam com uma morte cruel e insensível para satisfazer a procura pelas suas partes corporais. Os animais selvagens que têm o infortúnio de se encontrarem em cativeiro na Europa merecem, pelo menos, ser protegidos deste destino horrível.”


ATENÇÂO: O vídeo acima contém imagens chocantes.

As descobertas na República Checa não se tratam de casos isolados, defende ainda a organização Four Paws, salientando que as suas investigações mostraram que, nos últimos anos, vários tigres vivos foram exportados da Alemanha, através da República Checa, para o Vietname, Tailândia e Coreia do Sul.

“Aplaudimos Pavla e a sua equipa pelo sucesso da Operação Troféu e por não terem desistido de expor o papel dos criadores privados de tigres no comércio de partes destes animais”, disse Shruti Suresh, da Agência de Investigação Ambiental. “Eles já tinham intercetado partes de tigre a serem comercializadas pela comunidade vietnamita, incluindo ossos escondidos em colunas de som para exportação. A rusga [do dia 16 de julho] é o resultado da tenacidade e integridade para investigar e expor o que está a acontecer.”

Leão

O Departamento dos Assuntos Ambientais da África do Sul anunciou a nova quota de exportação de esqueletos de leão, aplicável a partir do dia 7 de junho de 2018.

De acordo com o estipulado, poderão agora ser exportados anualmente 1500 esqueletos de leões criados em cativeiro, quase o dobro do número permitido no ano passado (800).

O controverso comércio legal de ossos de leão da África do Sul começou há uma década, para preencher a lacuna deixada no mercado pelas medidas para a proteção dos tigres, uma espécie em perigo de extinção. As partes corporais de tigre são usadas na medicina tradicional chinesa há séculos, por se acreditar, erroneamente, que curam diversos problemas de saúde, incluindo úlceras, malária e impotência.

A África do Sul é um dos principais destinos para a prática de caça de troféus de leões criados em cativeiro, sendo também o maior exportador legal de ossos e esqueletos destes grandes felinos. Atualmente, existem, no país, entre 6000 e 8000 leões mantidos em cativeiro em mais de 200 instalações de reprodução.

O governo sul-africano legitima o comércio de ossos, alegando que estes são um “subproduto” da indústria de caça e que as restrições à importação de troféus impostas em países como os EUA têm dado origem a um stock crescente de ossos.

Os cientistas, ativistas e organizações que se opõem a este comércio defendem que há cada vez mais leões a serem criados e mortos com o único propósito de satisfazerem a procura asiática.

Crânio de leão
Crânio de leão | Foto: Roo Reynolds/Flickr

Segundo Michele Pickover, diretora da EMS Foundation, as investigações da sua organização revelaram que foram exportados, no ano passado, “muitos mais” esqueletos de leões do que os 800 permitidos.

“Também acreditamos que cerca de 90% dos esqueletos de leão que foram para a Ásia ainda tinham os seus crânios, o que significa que não foram caçados ou os crânios teriam sido guardados como troféus”, disse a ativista.

“Desenvolver-se uma indústria que abate leões em matadouros para a obtenção dos seus ossos é indefensável e não pode ser justificado.”

O anúncio da nova quota de exportação foi severamente criticado por inúmeras organizações de conservação.

“A quota do ano passado já era suficientemente chocante: o aumento para 1500 em 2018 não possui qualquer fundamento científico e é uma flagrante licença para matar para a indústria de criação de leões. [Esta] quota de exportação normaliza e exacerba a procura por partes de leões e até de outros grandes felinos, incluindo os tigres, como os estudos e as apreensões têm mostrado”, declarou Audrey Delsink, diretora executiva da HSI/Africa. “O aumento da quota pode até incentivar a criação de novas instalações de reprodução.”

Paul Funston, do programa de leões e chitas da organização Panthera, defendeu que o comércio de ossos aceleraria “a matança de leões selvagens por causa das suas partes corporais nos países vizinhos.”

Leão preso
Foto: Ian Michler/Blood Lions

“O comércio de ossos não pode continuar a ser visto como um subproduto conveniente da caça; a caça furtiva de leões, tanto selvagens como em cativeiro, está a crescer, assim como a procura por ossos de leão”, declarou a equipa por trás do documentário Blood Lions (“Leões de Sangue”). “A Blood Lions vê com acrescida preocupação a forma como o Departamento dos Assuntos Ambientais continua a estar envolvido nas questões relativas à indústria de criação de leões em cativeiro, quando o mesmo alega que o seu mandato se limita à conservação da biodiversidade.”

Cerca de 9000 caçadores de troféus visitam anualmente a África do Sul, sendo a maioria proveniente dos EUA.

Os esqueletos de leão podem atingir o preço de 140€/kg, ou cerca de 4000€ por leão. A isto acrescem 940€ pelo crânio, se o caçador não o guardar como troféu.

Desde 2008, foram vendidos legalmente mais de 6000 esqueletos de leões da África do Sul. Cerca de 98% têm como destino o Vietname, a Tailândia e Laos, onde os ossos são reduzidos a um preparado em formato de barra, que os consumidores compram e adicionam, por exemplo, ao vinho de arroz.
Leão

A África do Sul é o maior exportador legal do mundo de ossos e esqueletos de leão. Entre 2008 e 2015, o Departamento de Assuntos Ambientais sul-africano (DEA) concedeu licenças para a exportação de mais de 5360 esqueletos de leões, sendo que quase 98% deles tiveram como destino países asiáticos.

Existem quase 8000 leões a definhar em mais de 200 instalações de reprodução na África do Sul. Estes animais são criados cinicamente com o único propósito de gerarem dinheiro”, disse Will Travers, presidente e cofundador da Born Free Foundation, cujo relatório salienta o papel do governo da África do Sul no comércio de partes de leão.

“Os turistas impulsionam involuntariamente esta indústria desprezível ao participarem em atividades como passear com leões e acariciar crias, ao mesmo tempo que os voluntários criam os filhotes de leão sem suspeitas, acreditando erradamente que os animais vão ser libertados na natureza. Quando atingem a idade adulta, muitos destes animais são transferidos para estabelecimentos de caça para que sejam mortos em espaços cercados por ‘caçadores desportivos’. Os seus ossos são depois vendidos num comércio internacional sancionado pelo governo sul-africano”, explicou.

Em 2017, a ministra do Ambiente, Edna Molewa, aprovou uma quota de exportação anual de 800 esqueletos de leões criados em cativeiro. Esta medida foi criticada por muitos conservacionistas e organizações. “Os lucros estão a ser colocados à frente da gestão saudável e ética da vida selvagem”, acusou o novo relatório da Born Free Foundation.

“A cruel realidade é que os emblemáticos leões da África do Sul são comercializados a uma escala industrial para satisfazerem a procura insaciável da China pelos seus ossos”, disse Ian Michler, membro da equipa por trás do documentário Blood Lions (“Leões de Sangue”).

Leão
Foto: Ian Michler/Blood Lions

Qual é a obsessão da China e do Vietname com estes ossos?

Os comerciantes asiáticos começaram a interessar-se pelos leões africanos após o declínio drástico verificado nos números de tigres na natureza, cujas partes corporais são usadas na medicina tradicional chinesa há mais de 1000 anos. Os ossos destes grandes felinos são transformados em pó e depois usados em comprimidos, emplastros e em diversas preparações medicinais.

A coroa vai, no entanto, para o vinho de osso de tigre, que a medicina tradicional chinesa apregoa como uma cura para diversos problemas de saúde, incluindo úlceras, cãibras, reumatismo, malária e impotência. Para o seu fabrico, os ossos são mergulhados em vinho de arroz. Quantos mais anos for deixado em amadurecimento, mais elevado será o preço da garrafa.

Apesar da ausência de provas científicas que corroborem as suas supostas propriedades curativas, esta bebida é muito popular e os seus produtores estão agora a usar ossos de leão para substituir os outrora fornecidos pelos tigres.

O esqueleto de um tigre mergulhado em vinho de arroz
O esqueleto de um tigre mergulhado em vinho de arroz na China | Foto: International Tiger Coalition

“Não há qualquer dúvida de que a procura por ossos de tigre contribuiu para a quase dizimação das populações de tigres selvagens e há uma profunda preocupação de que a substituição pelos ossos de leão nesta cadeia de fornecimento possa acelerar o declínio das populações de leões selvagens”, declarou a equipa do Blood Lions.

O relatório revela as próprias dúvidas do DEA relativamente à criação de leões em cativeiro. “O próprio DEA reconhece que apenas tem uma compreensão limitada da estrutura económica da criação de leões e do comércio de ossos e também de que não possui informação científica que prove que a indústria tem qualquer valor a nível da conservação da espécie. Vários grupos de conservação e cientistas também fizeram notar que não existe um sistema independente de monitorização do bem-estar dentro da indústria”, diz o estudo.

Segundo a Sociedade para a Prevenção de Crueldade contra Animais (SPCA), terão sido mortos mais de 50 leões em apenas dois dias numa quinta na província sul-africana do Estado Livre, durante a última semana de abril. Os inspetores da SPCA, que vão apresentar uma denúncia formal, disseram ter-se deparado com uma cena “deplorável” na quinta, que descreveram como um “matadouro de leões”.

“Foi terrível. Para mim, o leão é um animal imponente, majestoso. E aqui está ele a ser esquartejado por pessoas só para ganharem dinheiro. É absolutamente repugnante”, disse Reinet Meyer, inspetora da SPCA.

O relatório da Born Free Foundation também chama a atenção para a relação entre a exportação de troféus e produtos de leões criados em cativeiro e o tráfico ilegal de outros produtos de vida selvagem e concluiu que, se o país quiser mostrar que se importa com a segurança da sua vida selvagem, assim como com a do resto do mundo, “são necessárias medidas urgentes para acabar com a criação de leões em cativeiro, a 'canned hunting' [caça desportiva num espaço cercado] e a venda dos ossos e esqueletos destes animais”.


Em muitos países africanos, as populações de burros têm sofrido declínios drásticos nos últimos anos. A população de burros do Quénia, por exemplo, perdeu metade dos seus animais desde 2009. No Botswana, o declínio foi de 60%, entre 2011 e 2016, e no Lesoto de um quinto.

Qual é a principal causa deste fenómeno? A crescente procura das peles destes animais na China, onde são usadas para produzir ejiao, uma gelatina consumida no país há milénios e usada na medicina tradicional chinesa por se acreditar que cura toda uma variedade de problemas de saúde – como a insónia e a anemia – e que até previne o cancro.

Com a ascensão da classe média chinesa, a procura deste produto tem aumentado e a gelatina, outrora de consumo mais modesto, também aparece agora em cremes faciais, doces e licores, para além das diversas preparações medicinais.

Ao mesmo tempo, com o êxodo rural, passaram a ser utilizados menos burros na agricultura e transporte. Estes fatores fizeram com que o número destes animais na China caísse mais de 40% entre 1990 e 2016.

O país asiático necessita de aproximadamente 4 milhões de peles de burro por ano para produzir 5000 toneladas de ejiao, mas a oferta chinesa não vai além de 1,8 milhões de peles, o que deixa os fabricantes da gelatina muito dependentes de importações.


Gelatina de pele de burro, "ejiao" | Foto: Deadkid dk

Há quem produza “falso” ejiao com a pele de outros animais, como porcos, cavalos e vacas. Contudo, para garantir que o ejiao é genuíno, alguns fabricantes fazem agora testes de ADN ao produto, segundo o The Economist.

A outra opção é importar as peles do estrangeiro. E é isso que o país tem feito. Embora importe principalmente de África, este comércio verifica-se um pouco por todo o mundo. No Quirguistão e na Índia, as populações de burros sofreram um declínio de um quinto, durante 2015 e 2016.

A procura de ejiao vai mais longe e chega a alcançar a América do Sul. A Colômbia perdeu quase um décimo dos seus burros e o Brasil cerca de 5%, também durante 2015 e 2016.

Os burros passaram a valer mais mortos do que vivos

Em menos de uma década, a procura de peles de burro inflacionou os preços destes animais, colocando-os fora do alcance dos pequenos agricultores. No Quénia, por exemplo, o preço de um burro aumentou 325% num período de seis meses, no ano passado.

A tentação do lucro rápido e os preços em ascensão têm levado a uma explosão de roubos de burros. No Quénia, registaram-se quase 1000 casos de animais roubados entre dezembro de 2016 e abril de 2017.

Philemon Sibaya, um agricultor de subsistência da África do Sul que possuía um negócio informal de transporte com estes animais, perdeu os seus burros durante o mês de novembro de 2016. “Nessa manhã, não os consegui encontrar”, contou ao The Guardian.

Umas semanas antes, um homem de nacionalidade chinesa tinha visitado a sua aldeia, à procura de burros para comprar. Sibaya recusou-se a vendê-los. “Os meus burros colocam comida na mesa. Construíram esta casa e põem os meus filhos na escola.”

O agricultor acabou por encontrar os cadáveres dos seus burros – só um não tinha sido esfolado. “Não há nada que eu possa fazer a não ser aceitar a situação”, disse. “Não posso trazer os meus burros de volta.”

“Temos assistido a muitos casos como este”, comentou Mishack Matlou, inspetor da Sociedade para a Prevenção de Crueldade Contra Animais. Alguns meses antes, o inspetor tinha resgatado dois adolescentes que estavam a esfolar burros numa aldeia vizinha, provocando a ira da comunidade que os queria matar. “Esta é uma área pobre e eles precisavam do dinheiro. Alguém lhes ofereceu 29 euros pelo trabalho”, disse.

burro

Em resposta a este problema, cerca de 15 países decidiram tomar medidas para controlar o comércio de burros. Em 2015, o Paquistão tornou-se o primeiro país a proibir a exportação de peles de burro. Vários países africanos – entre os quais o Botswana, Burkina Faso, Mali, Níger, Nigéria, Senegal, Gana, Tanzânia e o Uganda – também proibiram a exportação deste produto para a China.

Mas o mercado negro continua a abastecer ilegalmente as fábricas chinesas. “Ainda estamos a ver exportações ilícitas de todos os países que tomaram uma posição contra a venda de peles de burro", explicou Alex Mayers, da organização britânica Donkey Sanctuary. "Não há hipótese nenhuma de sustentar os atuais níveis de procura”.

Outros países abraçaram a oportunidade de investimento – o Quénia abriu três matadouros no espaço de 18 meses e a Namíbia tem planos para construir dois. Ao mesmo tempo, também se está a assistir à multiplicação de instalações de abate não regulamentadas em África, na Ásia e na América do Sul.

Apesar de organizações como a Donkey Sanctuary e a PETA terem apelado ao fim deste comércio, o governo chinês deu um novo impulso à indústria de ejiao, em janeiro, ao reduzir os direitos de importação de peles de burro de 5% para 2%. Em novembro de 2017, a PETA divulgou um vídeo que mostra o abate dos burros nas quintas chinesas, onde são espancados com recurso a martelos.


Está a crescer o comércio ilegal de dentes de jaguar na América do Sul, avisam os conservacionistas, que ligaram este comércio aos projetos chineses de construção civil nos países sul-americanos.

Quando os habitantes locais descobrem que os trabalhadores das empresas chinesas de construção têm interesse em comprar ossos, chifres e outras partes de animais em virtude das suas supostas “propriedades medicinais”, abrem-se as portas para o comércio ilícito destes produtos.

O tráfico de vida selvagem acompanha assim frequentemente os projetos de construção chineses noutros países, uma vez que os trabalhadores de nacionalidade chinesa podem enviar ou levar os objetos com eles para casa.

“Estes projetos são, essencialmente, como aspiradores gigantes da vida selvagem, que sugam tudo de volta para a China”, disse Vincent Nijman, investigador de conservação da Universidade de Oxford Brookes.

Para substituir as partes corporais outrora fornecidas pelos tigres, a medicina tradicional chinesa está a virar-se para os órgãos de outros grandes felinos. Isto são notícias preocupantes para os jaguares, cujos números sofreram um declínio nas últimas duas décadas devido à desflorestação e aos confrontos com os produtores de gado.


Os remetentes dos dentes costumam ser cidadãos chineses a viver noutros países | Foto: Ecopol

Mais de 100 jaguares poderão ter sido mortos em menos de um ano para satisfazer a procura das suas partes corporais na China.

Um artigo da revista científica Nature dá a conhecer os casos de duas destas mortes. Um dos animais foi encontrado a flutuar num canal de drenagem em Belize, na América Central. “O seu corpo estava fundamentalmente intacto, mas faltavam-lhe os caninos”, lê-se no relatório. “[Umas semanas depois], um segundo felino – desta vez um ocelote que pode ter sido confundido com um jaguar jovem – apareceu decapitado no mesmo canal.”

Na Bolívia, somam-se as apreensões de dentes caninos de jaguar. No norte do país, onde várias empresas chinesas estão a trabalhar, anúncios na rádio e panfletos chegam a oferecer mais de 100 euros por cada dente canino – uma quantia superior ao rendimento mensal de muitos residentes locais.


Cria de jaguar | Fotos: Tambako The Jaguar/Flickr

O problema também já chegou ao Brasil, onde o grande felino é conhecido como onça-pintada. “No ano passado, houve mais de 50 apreensões de pacotes que continham partes de jaguar no Brasil. A maioria parecia ter como destino a Ásia e a China. Também vale a pena notar que há importantes comunidades chinesas no Brasil”, explicou a investigadora brasileira Thaís Morcatty.

Os conservacionistas temem a ameaça que este tipo de comércio representa para a vida selvagem global. As empresas chinesas têm vindo a estabelecer grandes projetos de construção em mais de 60 países, incluindo uma central elétrica na Nigéria, vias-férreas em Angola e uma ponte na Tanzânia.

“Estes projetos são geridos por trabalhadores chineses, que convivem com os habitantes locais e enviam objetos para as suas famílias na China. Entre as coisas que enviam estão ossos, peles e chifres ilícitos valiosos para a medicina tradicional”, disse Vincent Nijman. “No final do dia, quase tudo o que pode ser morto e comercializado acaba por ser vítima deste destino.”
urso enjaulado numa quinta no Vietname

A Administração Florestal do Vietname e a ONG Animals Asia assinaram um acordo, no dia 19 de julho, para resgatar os restantes 1000 ursos mantidos em cativeiro para a extração da sua bílis, no país, comprometendo-se a acabar com o comércio de bílis e a encerrar todas as quintas de ursos num período de cinco anos.

O novo acordo preencherá a lacuna jurídica que tem permitido a continuação da exploração de bílis de urso no Vietname, apesar de ter sido proibida. Isto porque torna finalmente ilegal a posse de ursos por particulares e determina que os cerca de 1200 atualmente em cativeiro por todo o país terão de ser transferidos para santuários.

“Fundamentalmente, o governo concordou em preencher a lacuna que tem permitido à exploração de bílis persistir na última década”, disse o diretor da Animals Asia no Vietname, Tuan Bendixsen. “Concordaram que não podem existir ursos em explorações, porque enquanto houver, vai-lhes ser extraída bílis.”

Em 2015, a Animals Asia já tinha alcançado outra vitória na sua campanha, quando conseguiu que a Associação Vietnamita de Medicina Tradicional assinasse um acordo no qual se comprometia a acabar com a prescrição da bílis de urso até 2020.

O que há numa quinta de ursos do Vietname?



A bílis de urso tem sido usada, ao longo de milhares de anos, por vários países asiáticos, para o fabrico de medicamentos para doenças de fígado e da vesícula biliar. Hoje em dia, contudo, já existem alternativas sintéticas ou à base de plantas ao ácido ursodesoxicólico, o princípio farmacologicamente ativo presente na bílis de urso.

Embora a exploração da bílis de urso esteja proibida no Vietname, os ursos continuam a ser capturados e enjaulados em explorações ilegais no país, para que lhes seja retirada bílis. O processo de extração envolve cirurgias invasivas e dolorosas – o líquido é extraído através de um buraco feito na vesícula biliar do animal ou de um cateter.

O site Vice descreveu, num artigo, uma visita a uma destas quintas no norte do Vietname, onde encontrou “ursos sentados, curvados, em jaulas exíguas e enferrujadas, ofegando devido ao calor e à humidade. Os seus excrementos acumulavam-se em montes debaixo de cada uma das suas jaulas. Os ursos eram magros e, a alguns, faltavam tufos de pelo.”

Durante uma visita a uma das explorações do país, a Animals Asia verificou que 20% dos ursos estavam macilentos, muitos gravemente malnutridos, faltava a 20% um membro e 100% tinham lesões nas patas devido ao contacto com as grades.


Ursos numa quinta para extração de bílis no Vietname | Foto: Animals Asia

Efeito nas populações de ursos selvagens

Segundo um relatório de 2016 da organização TRAFFIC, as populações de ursos no sudeste asiático têm caído drasticamente.

“Desde que a exploração de bílis de urso se tornou uma prática comum na China e no Vietname nos anos 80, as populações selvagens destes animais têm sido dizimadas para satisfazer a procura criada pela indústria”, explica a Animals Asia.

“Este acordo mostra que o Vietname reconhece que a exploração de bílis de urso prejudica as populações selvagens. Ao assiná-lo, mostraram que estão empenhados na conservação dos restantes ursos selvagens do país e na proteção do património das gerações futuras”, declarou Tuan Bendixsen.


Ursos resgatados no santuário da Animals Asia | Foto: Animals Asia

Os obstáculos pela frente

A Animals Asia estimou que serão necessários até 17 milhões de euros para resgatar e construir santuários suficientes para todos os ursos. O financiamento trata-se, segundo as autoridades, do principal obstáculo para o resgate dos ursos e o encerramento do comércio.

“Deparamo-nos com dificuldades em encontrar financiamento para prevenir e travar a caça e resgatar os animais selvagens”, declarou Cao Chi Cong, diretor-adjunto da Administração Florestal.

Os especialistas também temem que o mercado de bílis seja, simplesmente, transferido para os países vizinhos, como o Laos e o Camboja.

“Isto, claro está, não termina o trabalho”, disse Jill Robinson, fundadora da Animals Asia. “Muito pelo contrário. Mas significa que trabalhamos juntos com um objetivo mútuo – acabar com a crueldade.”
Urso-negro-asiático em cativeiro numa jaula de dimensões reduzidas para a extração da bílis

Os médicos praticantes de medicina tradicional chinesa (MTC) na Malásia e a TRAFFIC, a rede de monitorização do comércio da vida selvagem, juntaram-se para encontrar soluções de forma a reduzir o uso de espécies de fauna e flora selvagem ameaçadas nos medicamentos tradicionais.

Durante a conferência “Alternativamente Eficaz”, a Federação das Associações de Médicos Chineses e Distribuidores de Medicamentos da Malásia e a TRAFFIC apresentaram substitutos para as espécies usadas e debateram as ameaças causadas pela procura de medicamentos feitos à base destas espécies.

Os participantes foram convidados a assinar uma declaração através da qual se comprometiam a utilizar apenas ingredientes de fontes lícitas, apoiar os esforços para reduzir a procura de medicamentos feitos com espécies ameaçadas e usar exclusivamente recursos selvagens permitidos pelas leis do país. No total, 46 médicos assinaram este compromisso.

“Esta comunidade de praticantes e médicos tem um papel crítico no fornecimento e distribuição de plantas e animais selvagens para os medicamentos. Um compromisso para utilizar apenas recursos da vida selvagem legais e sensibilizar os seus clientes para as alternativas sustentáveis ajudará a reduzir a tremenda pressão sobre os ursos e muitos outros animais selvagens procurados como curas, disse Lalita Gomez da TRAFFIC.

Um dos grandes focos do debate foi a utilização corrente de bílis e vesícula biliar de urso pela indústria de MTC e a ameaça que representa para as populações de ursos selvagens na Ásia. Os ursos são mantidos em jaulas de dimensões reduzidas, durante toda a sua vida, para que lhes seja retirada bílis, que é usada na produção de medicamentos.

Bílis de urso à venda
Bílis de urso à venda | Foto: TRAFFIC

“É a responsabilidade de cada um de nós estimar e proteger os recursos naturais. Os praticantes de medicina chinesa e os comerciantes devem escolher medicamentos produzidos legitimamente, prestar atenção ao conteúdo dos produtos, não comprar ingredientes medicinais de proveniência desconhecida e resistir de forma consciente aos artigos ilegais”, defendeu o presidente da Federação, Ting Ka Hua, que assinou o compromisso.

“Os praticantes de medicina chinesa têm a obrigação de corrigir conceitos infundamentados e inexatos sobre o uso de espécies selvagens na medicina tradicional”, disse.

Como várias inspeções e análises anteriores demonstraram, é fácil encontrar-se bílis e vesícula biliar de urso nas lojas de MTC da Malásia, um país que é um importante produtor e consumidor de partes e derivados de urso.

“A comunidade de praticantes e utilizadores de MTC na Malásia pode ser um dos aliados mais fortes para se acabar com o comércio ilegal de vida selvagem e estamos muito satisfeitos com esta parceria com a maior comunidade de MTC da Malásia”, declarou Kanitha Krishnasamy da TRAFFIC. “As boas notícias são que há substitutos eficazes para os produtos à base de urso disponíveis e a serem usados em todo o mundo e é importante que a comunidade malaia conheça estas alternativas e trabalhe no sentido de as incorporar.”

Para ajudar a que isto aconteça, a Federação tem distribuído informação sobre as espécies de flora e fauna selvagem ameaçadas pela procura de medicamentos tradicionais às associações de praticantes de MTC.
Foto: Animals Asia