No sopé da Serra da Estrela, localiza-se uma quinta com seis casas com telhado de colmo e uma piscina biológica, o Chão do Rio, onde, por vezes, se avistam esquilos e à noite se ouvem mochos e em que, quando chega o pastor com o seu rebanho, o som dos badalos inunda o prado.

Chão do Rio

No sopé da Serra da Estrela, localiza-se uma quinta com seis casas com telhado de colmo e uma piscina biológica, o Chão do Rio, onde, por vezes, se avistam esquilos e à noite se ouvem mochos e, onde, quando chega o pastor com o seu rebanho, o som dos badalos inunda o prado.

O UniPlanet falou com Catarina Vieira, gerente do Chão do Rio, que nos apresentou este projeto.


UniPlanet (UP): Como nasceu o Chão do Rio?

Chão do Rio é o nome de registo da propriedade onde está implantado o Chão do Rio – Turismo de Aldeia. Em 2001, eu e o meu companheiro adquirimos um terreno na aldeia de Travancinha, concelho de Seia, onde existia uma ruína de um antigo abrigo de animais, com potencial para recuperação para uma segunda habitação. No entanto, nessa altura, a nossa principal motivação era a compra de um terreno onde pudéssemos plantar árvores, queríamos deixar um legado para as gerações futuras, embora nessa altura ainda não tivéssemos as nossas filhas. Aquela era uma região onde gostávamos de fazer caminhadas (Serra da Estrela) e, por coincidência, foi ali que descobrimos o terreno que desejávamos comprar.

No início, íamos lá todas as semanas (vindos de Aveiro), apenas para limpar o terreno, plantar árvores e descarregar do stress da semana. Era uma relação com a terra muito física. Ao fim do dia, saíamos dali cansados, mas felizes. Mais tarde viríamos a recuperar a ruína e transformá-la numa casa de fim-de-semana apenas para nós, e ali passámos a ficar aos fins-de-semana. Já em 2006, a nossa vida profissional complicou-se e tornou-se difícil suportar os custos de manutenção de um terreno de 8 hectares apenas para nosso deleite. Mas, foi precisamente deste momento de aperto que começou a surgir a ideia de transformar aquele nosso refúgio num refúgio partilhado. Já com essa ideia em mente fui fazer uma pós-graduação na área do turismo na minha antiga escola de gestão do Porto (a FEP) e numa disciplina de estratégia construí o plano de negócios do então sonhado “Chão do Rio – Estância Rural”. Em rigor já ali estava quase tudo do que é hoje, mas então era só uma ideia.





De qualquer modo nesse curso percebi que com pouco investimento era possível testar se o nosso Chão do Rio atraía outras pessoas para além de nós. Foi por isso que, em 2010, o Chão do Rio começou a receber hóspedes, sob a forma de alojamento local, nessa altura uma família alugava uma quinta inteira de 8 hectares. Rapidamente percebemos que Travancinha, também para outros, era uma boa base para visitar o destino turístico Serra da Estrela e o desejo de ir mais além instalou-se.

Estávamos em 2011 quando contactámos a ADRUSE (Gabinete de Apoio à Ação Local da região) e descobrimos que daí a 15 dias, iria acabar talvez a nossa grande oportunidade de fazer crescer o Chão do Rio. Nesse momento, aquele plano de negócios do Chão do Rio – Estância Rural, bem como a boa vontade de todos os que acreditaram na nossa capacidade de realização, serviram para completar uma candidatura ao antigo PRODER em apenas 15 dias. Quase um ano depois soubemos que a nossa candidatura havia sido aprovada. Em 2012 começámos a construção e em 1/8/2014 começámos a comercializar o Chão do Rio no booking.com.




Foi com enorme surpresa que nesse primeiro momento começamos a esgotar. Na altura, para além de mim à distância e a acumular uma outra profissão, a operação era composta apenas por uma pessoa, a “Super” Emília Esquina, uma antiga auxiliar de Educação, sem a qual o Chão do Rio não teria resistido mais que 15 dias, não fosse a sua inteligência, simpatia natural e capacidade de realização, nada teria corrido como correu. Felizmente, a Emília resistiu à prova de fogo e o bom resultado das primeiras semanas permitiu-nos ultrapassar lacunas e comprar tudo o que o investimento inicial não tinha previsto (máquina de lavar, máquina de secar... e muitos outros). Aos poucos começamos a crescer, os hóspedes adoravam, partilhavam a sua experiência e regressavam. A Sofia Borges (sobrinha da Emília), licenciada em Ciências de Educação juntou-se a nós. Mais tarde eu deixei a minha outra ocupação, a equipa foi crescendo, a operação foi-se profissionalizando, mas depois veio outubro de 2017.

O fogo fechou-nos as portas, mas 7 meses depois estávamos de regresso, mais fortes, já com a certificação Biosphere Responsible Tourism. Fizemos mais uma candidatura à linha valorizar e em outubro de 2019 começamos a construção da nova Fraga & Urze. Um edifício que pode ser uma casa, ou duas, ou um local para pequenas reuniões. Tudo ia bem. Em 18/3/20, decidimos encerrar devido à COVID-19. Durante algumas semanas, foram muitas as incertezas quanto à nossa sobrevivência, atendendo a alguma descapitalização que qualquer investimento traz. No entanto, os auxílios do estado e a perspetiva do desconfinamento permitiram-nos começar a planear toda a nossa operação. Em 5/6 reabrimos portas já Clean&Safe. A nossa nova unidade (Fraga&Urze) continua em execução, com meta de arranque em setembro, mas o nosso percurso tem-nos ensinado, que não chega fazer planos, é preciso adaptarmo-nos às circunstâncias, as quais estão sempre a mudar.






UP: Têm um forte compromisso com a sustentabilidade. Que medidas adotaram para tornar este projeto mais amigo do ambiente e da natureza?

A nossa política de sustentabilidade define medidas em diversas áreas:
Promovemos a biodiversidade...
  • Estamos a recuperar um bosque de folhosas na nossa quinta, plantando bolotas de Carvalhos autóctones;
  • Criamos corredores ecológicos para a circulação das espécies selvagens, através de espécies arbustivas locais;
  • Criamos zonas húmidas como o nosso “Brejo das Libelinhas” e a nossa Piscina Biológica;
  • Criamos zonas abrigo para animais selvagens como coelhos e lebres;
  • Recuperamos a frente ribeirinha da nossa propriedade.
Incentivamos experiências amigas do ambiente...
  • Os nossos hóspedes recebem diversas propostas de experiências através de parceiros locais, como massagens à sombra de carvalhos, workshops de fotografia, caminhadas na serra, passeios a cavalo e passeios no rio em Stand Up Paddle Board.
  • Disponibilizamos bicicletas de utilização gratuita para passear na propriedade ou na aldeia de Travancinha;
  • Criamos um trilho pedestre por onde os nossos hóspedes são convidados a caminhar, despertando para a magia da natureza;
  • As crianças podem apanhar ovos do galinheiro, legumes da nossa horta biológica, dar de comer às ovelhas “Flor” e “Estrela” ou divertir-se em passeios de carro-de-mão;
  • Os mergulhos entre nenúfares, libelinhas e rãs na nossa piscina biológica são inesquecíveis;
  • As zonas de piquenique, o forno de lenha e as churrasqueiras, transformam as refeições em saborosos momentos lúdicos de comunhão com a natureza;
  • Convidamos os nossos hóspedes a explorar a natureza em todos momentos, entregando-lhes uma lanterna para caminhadas noturnas.




Divulgamos o património local e contribuímos para o desenvolvimento da região...
  • O nosso cabaz de pequeno-almoço inclui uma grande variedade de produtos endógenos;
  • Na nossa loja de recordações vendemos artesanato local;
  • Na nossa receção são prestadas informações sobre a região;
  • Participamos ativamente na divulgação da Aldeia de Travancinha através de reportagens fotográficas profissionais dedicadas aos seus pontos de interesse turístico;
  • Os nossos hóspedes são convidados a conhecer e consumir nos estabelecimentos da aldeia e localidades vizinhas;
  • Integramos uma rede de parceiros locais que oferece experiências de animação únicas, abdicando de quaisquer comissões de intermediação...
  • Em momentos de renovação dos nossos equipamentos, doamos materiais em bom estado de conservação a instituições de cariz social localizadas nas proximidades do Chão do Rio.
Reduzimos os impactos ambientais mais adversos...
  • As casas do Chão do Rio confundem-se com a paisagem natural pela utilização de telhados de origem vegetal, construídos com recurso a materiais provenientes da limpeza dos terrenos envolventes.
  • todas as construções foram realizadas com materiais sustentáveis, tais como pedra proveniente de demolições locais e madeira;
  • O aquecimento da água é realizado através de painéis solares;
  • Os nossos esgotos estão ligados à estação pública de tratamento de águas residuais;
  • O nosso aquecimento é realizado através de recuperadores de calor a lenha;
  • Reciclamos e incentivamos à reciclagem em cada uma das nossas casas, através da colocação de ecopontos;
  • A iluminação é efetuada com lâmpadas Led;
  • A iluminação exterior é reduzida ao mínimo para evitar o consumo energético e a poluição luminosa;
  • O nosso “jardim” é um prado espontâneo que não carece de rega;
  • O nosso galinheiro é móvel, evitando a desertificação do solo e contribuindo para o enriquecimento natural da alimentação das nossas galinhas;
  • A manutenção dos espaços exteriores é realizada com recurso a meios manuais e mecânicos, nunca sendo utilizados pesticidas;
  • A nossa piscina principal é biológica, sendo o seu equilíbrio assegurado através da recriação de um ecossistema natural, onde as plantas garantem a purificação da água;
  • As nossas aménities são sabonetes artesanais produzidos na região, recorrendo a matérias primas locais;
  • O papel higiénico e os guardanapos são 100% reciclados e de origem nacional;
  • Os nossos hóspedes têm a opção de não trocar as toalhas diariamente, por forma a ajudarem-nos na redução do consumo de água e detergentes;
  • Reduzimos ao máximo a impressão de materiais publicitários em suporte de papel, privilegiando outros meios de divulgação de menor impacto ambiental;
  • Um fator de decisão essencial nos nossos consumos é o número de quilómetros percorridos. Sempre que possível, compramos localmente.




UP: Que serviços oferecem?

No Chão do Rio os nossos hóspedes vão vivenciar uma experiência de slow tourism, de grande contacto com a natureza, com privacidade, sentindo-se em casa fora de casa. As nossas unidades de alojamento são casas equipadas com tudo o necessário para uma estadia em conforto.

De decoração simples, mas confortável, nas nossas casas os nossos hóspedes vão encontrar o que necessitam para uma experiência confortável nas quatro estações do ano. Tal como na hotelaria convencional oferecemos a possibilidade da limpeza diária. O nosso pequeno-almoço é servido em cabazes e incluí produtos regionais, como o requeijão, o mel, o bolo negro de Loriga... Mas o mais importante para a experiência propiciada são os 8 hectares de uma paisagem rural, com caminhos para passear, zonas de sombra com carvalhos, bicicletas para levar, animais para contactar e uma piscina biológica para mergulhar.

Em complemento, apresentamos ainda aos nossos hospedes um conjunto de parceiros que podem oferecer-lhe experiências como massagens à sombra de carvalhos, ou bird watching, ou caminhadas, ou passeios a cavalo, ou aulas de yoga, concertos com taças tibetanas e workshops de fotografia.






UP: Para quem não conhece o conceito, querem explicar-nos o que é uma piscina biológica?

Uma piscina biológica é um lago para banhos, projetado como um ecossistema natural em equilíbrio. O que torna o banho numa piscina biológica seguro é a maior massa de água por banhista (do que numa piscina convencional), a existência de zonas de jardim com plantas que vão purificar a água e um circuito de água em movimento que favorece a filtragem e oxigenação. Tratando-se de uma água não tratada, a nossa ação é sempre indireta, favorecendo a saúde das plantas, para que estas assegurem a qualidade da água. E a qualidade vê-se bem pelas inúmeras libelinhas que ali nascem. Como onde há água pura há vida, à piscina são atraídos muitos seres que contribuem para o equilíbrio do ecossistema, sendo os mais visíveis os anfíbios, como as rãs ou tritões.





UP: O que produzem na vossa horta biológica?

Produtos adaptados ao local e às estações do ano, por ex: cebolas, espinafres, alhos, alho francês, beterraba, tomates, pimentos, alfaces, couves, feijão, ervas aromáticas, cenouras, abóboras (para a nossa compota), framboesas, flores para secar, morangos...



UP: As refeições são vegan friendly?

Servido diretamente por nós existe apenas o cabaz de pequeno-almoço, com géneros para confeção, onde nos preocupamos mais em valorizar os produtos e produtores locais, do que os produtos vegan, podem ver de que é composto aqui. A pedido, podemos oferecer alternativas vegan (embora, na nossa opinião sejam sempre ambientalmente menos amigas do ambiente, dada a produção industrial e km percorridos dessas alternativas).





UP: Era importante para vocês, serem certificados pela Biosphere?

Sim, a certificação ajudou-nos a dar um rosto reconhecido aos nossos valores e de uma forma mais organizada e estruturada conseguirmos percorrer este processo de melhoria contínua rumo à redução da nossa pegada ecológica e a uma maior integração com a comunidade em que estamos inseridos.


UP: Para terminar, onde está localizado e onde podemos encontrar mais informações sobre o Chão do Rio?

No sopé da Serra da Estrela, no Concelho de Seia, Aldeia de Travancinha.
Podem encontrar mais informações no nosso site e na nossa página do Facebook.

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