Em Madagáscar, há pelo menos 11 mil crianças a trabalhar na extração e triagem de mica, utilizada no fabrico de inúmeros produtos, como cosméticos, tintas para carros e aparelhos tecnológicos.

Trabalho infantil

Mais de metade dos trabalhadores que extraem mica em Madagáscar são crianças, algumas com apenas cinco anos, revelou um relatório do grupo de defesa dos direitos da criança Terre des Hommes Netherlands, fruto de uma investigação realizada ao longo de um ano.

A organização descobriu que pelo menos 11 mil crianças, com idades entre os cinco e os 17 anos, trabalham na extração e triagem do mineral no país.

A mica é depois exportada e utilizada no fabrico de uma grande variedade de produtos – como maquilhagem, aparelhos eletrónicos e tintas para carros – que são vendidos em todo o mundo. Os maiores compradores de mica são as indústrias automóvel e eletrónica.

O trabalho nas minas é perigoso, sendo necessário descer e escavar a grande profundidade para extrair o mineral à mão, e as crianças entrevistadas pelos investigadores queixaram-se de problemas respiratórios, dores musculares e de feridas abertas.

“O facto de mais de metade dos mineiros serem menores de idade é chocante e deveria ser encarado como um apelo à ação global”, defendeu Jos de Voogd, da Terre des Hommes.

A seca, a instabilidade e a extrema pobreza nas regiões do sul de Madagáscar, onde estão localizadas as minas, forçam famílias inteiras a trabalhar nestas explorações, onde escavam, extraem e processam o mineral, conta o jornal britânico The Guardian. Das 13 minas visitadas pelos investigadores, apenas duas possuíam licenças válidas.

As crianças que trabalham nas empresas de triagem recebem menos do que os adultos porque o seu ritmo de trabalho é mais lento e os pagamentos têm por base o número de quilos do mineral que conseguem processar.

“Mesmo que trabalhem o máximo que puderem todos os dias, o seu salário não lhes permite comprar comida suficiente”, concluíram os investigadores, explicando que nenhuma das crianças entrevistadas que trabalhavam na separação da mica recebia o suficiente para poder adquirir três refeições por dia. “Só comem à noite por falta de dinheiro.”

“Nem sempre conseguimos acabar o trabalho porque temos tanta fome”, contou uma das trabalhadoras de 10 anos.


Fotos: Jan Joseph Stok/Terre des Hommes

Na Índia, outro país no qual o trabalho infantil é uma realidade comum no sector da mica, uma reportagem recente da Fundação Thomson Reuters descobriu que a extração ilegal do mineral ainda prolifera no estado de Jharkhand, onde menores continuam a trabalhar – e a morrer – nas minas.

Madagáscar é o terceiro maior exportador de mica do mundo, tendo lucrado 6,5 milhões de dólares com este mineral em 2017.

Contudo, o país também é o quinto do mundo com mais crianças não escolarizadas, sendo que 74% da sua população vive abaixo do limiar nacional de pobreza. Metade dos menores de cinco anos sofre de atrasos no crescimento e a taxa de acesso à eletricidade (13%) também é uma das mais baixas no mundo.

A Terre des Hommes insta as empresas a investigarem as suas cadeias de fornecimento e a participarem em programas que tenham como objetivo melhorar as condições de trabalho dos mineiros.

“Quase 90% de toda a mica extraída no Madagáscar é exportada diretamente para a China e a nossa investigação descobriu que nenhuma das empresas envolvidas está a efetuar as devidas diligências para descobrir de onde o seu produto vem ou como são as condições de trabalho. Elas precisam de assumir a responsabilidade e de acabar com a exploração infantil”, disse Jos de Voogd.

“Não estamos a pedir o boicote da mica proveniente de Madagáscar, porque as pessoas da região onde ela é extraída são muito pobres e dependem da mica e do rendimento que ela proporciona”, continuou o investigador.

“Mas a exploração de crianças tem de acabar e as empresas precisam de pagar aos mineiros adultos valores mais elevados para que possam ganhar um salário condigno.”

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