Cientistas britânicos descobriram um “medicamento natural” no néctar da urze-roxa, que protege os abelhões de doenças.



Cientistas do Reino Unido descobriram que uma substância química presente no néctar das flores da Calluna vulgaris – também conhecida como urze-roxa, queiró ou torga – protege os abelhões de parasitas.

Os investigadores do Jardim Botânico Real de Kew e do Royal Holloway, na Universidade de Londres, testaram o néctar de 17 plantas importantes para a alimentação das abelhas europeias. Queriam saber se elas possuíam propriedades medicinais que pudessem ajudar a proteger naturalmente estes insetos de doenças – um dos factores por trás do seu declínio.

A urze-roxa foi a que apresentou os melhores resultados. Separando os diferentes componentes químicos do néctar desta planta, os cientistas constataram que um único composto – que batizaram de “callunene” – era responsável pela inibição do parasita Crithidia bombi.

Este parasita é comum nos abelhões silvestres e pode ser transmitido entre eles nos seus ninhos ou nas flores.

Para além da urze, os medronheiros (Arbutus unedo) e as tílias também evidenciaram alguma capacidade medicinal.

Urze (Calluna vulgaris) | Foto: Aqwis/ Wikimedia Commons

Esta descoberta é “extremamente importante”, defendem os cientistas, lembrando que cerca de 90% das plantas com flor do mundo, incluindo muitas culturas alimentares importantes, dependem de animais para a sua polinização. A contribuição das abelhas para os serviços de polinização é vital, mas estes insetos estão a sofrer declínios preocupantes devido a ameaças como as doenças, a perda de habitat e o uso de pesticidas.

“Tal como nós, os polinizadores podem contrair doenças que os deixam enfermos”, explicou Hauke Koch, biólogo do Jardim Botânico Real de Kew. “Embora os apicultores consigam frequentemente ajudar as colónias doentes de abelhas-do-mel, administrando-lhes, por exemplo, tratamentos contra parasitas, não podemos proteger as abelhas silvestres de doenças da mesma forma. As nossas descobertas mostram, contudo, que uma boa maneira de ajudar os polinizadores na natureza pode ser através da proteção das plantas medicinais vitais para eles.”

“Manter populações saudáveis de abelhas e de outros polinizadores é essencial para a sustentabilidade dos ecossistemas e a produção de alimentos para os seres humanos. Embora os parasitas sejam uma parte normal da vida das abelhas, a capacidade de os controlar depende do acesso aos tipos certos de plantas”, disse o professor Mark Brown, do Royal Holloway.

“Compreender quais são as plantas necessárias para a preservação de um equilíbrio saudável entre as abelhas e os seus parasitas pode ajudar-nos a restaurar habitats que maximizam a saúde das abelhas.”

Abelhão (Bombus terrestris) na urze | Foto: Hauke Koch

Apesar da abundância da urze na Europa, os cientistas avisam que os seus habitats têm vindo a desaparecer ou a fragmentar-se a um ritmo preocupante. O Reino Unido, por exemplo, perdeu cerca de 85% dos urzais das terras baixas nos últimos 150 anos devido à expansão da agricultura, de acordo com o Wildlife Trust.

“O nosso trabalho mostra que os urzais podem ser ainda mais valiosos do que pensávamos devido ao facto de fornecerem aos abelhões silvestres um néctar medicinal natural que os protege de um parasita relevante”, afirmou Hauke Koch.

“O declínio global da diversidade das plantas pode significar que os polinizadores estão a perder muitas outras espécies vegetais que promovem a sua saúde, sem nos apercebermos disso. Precisamos de continuar a estudar a importância da diversidade das plantas para a saúde dos polinizadores e garantir que essas plantas decisivas, como a urze, são protegidas no seu ambiente natural.”

O investigador acrescentou ainda que, como a callunene está presente no mel de urze, se deveriam investigar os possíveis benefícios desta substância para os seres humanos.

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