Há mais crianças a morrer por falta de acesso a água potável do que por causa de balas, concluiu um novo relatório da Unicef.

Mãe e criança

A falta de água potável e de saneamento mata quase três vezes mais crianças com menos de 15 anos a viver em zonas de conflito do que a violência causada pela guerra, revelou um relatório da Unicef.

As crianças com menos de cinco anos são ainda mais vulneráveis, sendo 20 vezes mais provável que morram de doenças diarreicas do que como resultado dos conflitos, de acordo com a agência da ONU para as crianças.

“Os ataques deliberados [aos serviços de] água e saneamento são ataques às crianças vulneráveis”, disse Henrietta Fore, diretora executiva da Unicef. “A realidade é que há mais crianças a morrer por falta de acesso a água potável do que por causa de balas. A água é um direito básico. É uma necessidade para a vida.”

“Os seres humanos podem fugir ou abrigar-se de balas e bombas, mas procurarão água a qualquer custo”, declarou Omar El Hattab, chefe regional de água, saneamento e higiene da UNICEF no Médio Oriente e Norte de África. “Se as pessoas tiverem sede, beberão qualquer tipo de água. No Iémen, uma criança morre a cada 10 minutos de causas evitáveis, e muitas dessas causas – subnutrição, cólera, diarreia – estão ligadas à insalubridade da água e à falta de saneamento e higiene.”


Foto: Bread for the World/Flickr

O relatório “Water under Fire” analisou dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) relativos ao período de 2014-2016 em 16 países afetados por conflitos a longo prazo – Afeganistão, Burkina Faso, Camarões, Chade, Etiópia, Iémen, Iraque, Líbia, Mali, Myanmar, República Centro-Africana, República Democrática do Congo, Síria, Somália, Sudão e Sudão do Sul.

A análise concluiu que as doenças diarreicas associadas à falta de água potável, saneamento e higiene matam anualmente, em média, 72 mil crianças abaixo dos cinco anos, ao passo que a violência direta da guerra vitima 3400.

A falta de acesso a água e saneamento adequados afeta particularmente as meninas, deixando-as mais vulneráveis a atos de violência sexual quando vão buscar água – uma tarefa habitualmente atribuída às mulheres e meninas em muitos destes países – ou quando usam as latrinas.


Sulem Hire, de 9 anos, carrega água para a sua casa, depois de uma caminhada de 4 km até ao poço. | Foto: UNICEF Ethiopia/Mulugeta Ayene

Os sistemas de água e de saneamento estão a tornar-se alvos frequentes das forças armadas, que veem neles uma forma de atacar os civis, o que constitui uma violação da Convenção de Genebra, lembrou Sian White, da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres. As forças armadas também cortam, por vezes, o fornecimento de energia que mantém infraestruturas vitais, como as bombas de água, em funcionamento. Por outro lado, os conflitos impedem a realização de reparações.

“Os hospitais e as infraestruturas de distribuição de água e de saneamento costumavam estar ‘fora dos limites’, e as partes em conflito respeitavam o seu valor para a vida humana, mas a experiência recente indica que este já não é o caso”, contou Sian White.

Segundo Omar El Hattab, o bombardeamento de uma estrutura de fornecimento de água em Hodeida, no Iémen, em julho de 2018, privou mais de um milhão de pessoas de água potável.

“Os serviços de água, saneamento e higiene nunca deveriam ser interrompidos ou politizados: o acesso à água potável é um direito humano, não um privilégio”, defendeu El Hattab.

A diretora executiva da Unicef pediu o fim da destruição deliberada das infraestruturas hídricas, incluindo os ataques por parte dos governos, e apelou à comunidade internacional para dar prioridade à água e ao saneamento na sua resposta aos conflitos.


Crianças recolhem água de um poço em Abyei, no Sudão | Foto: UN Photo/Fred Noy

Pelo menos 4 mil milhões de pessoas vivem em zonas com escassez de água e 844 milhões não têm acesso a água potável perto de casa.

A escassez de água não é só um problema dos países em desenvolvimento. A Inglaterra, por exemplo, corre o risco de ficar sem água em 25 anos, se não forem tomadas medidas para diminuir o desperdício e o crescimento da procura, avisou recentemente a Agência do Ambiente do país.

Um relatório novo da CDP, uma organização britânica dedicada a analisar os impactos ambientas das grandes corporações, mostrou que as empresas internacionais continuam a esgotar os recursos hídricos globais. Um terço das empresas analisadas no relatório está a utilizar mais água agora do que há três anos.

A organização WaterAid lembra ainda o uso indireto de água. Muitas regiões com escassez de água exportam este recurso na forma de produtos agrícolas, como abacates ou algodão, o que pode levar ao agravamento dos problemas hídricos para as comunidades locais.
1ª foto: Bread for the World/Flickr

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