Uma adolescente recolheu, com a ajuda de amigos, 40 mil bolas de golfe do oceano.

Foca a nadar ao pé de bolas de golfe

Como um cientista que investiga ativamente a poluição marinha por plástico, Matthew Savoca pensava já ter visto de tudo – desde praias totalmente cobertas de lixo plástico a um cavalo-marinho agarrado a uma cotonete.

Foi então que Alex Weber, uma aluna do ensino secundário da Califórnia, o contactou e o levou a questionar essa convicção.

“A Alex contactou-me por email, depois de ter lido os meus trabalhos científicos, o que chamou a minha atenção, já que muito poucos alunos do secundário perdem tempo a ler artigos científicos. Ela estava à procura de orientação para um problema ambiental invulgar”, escreveu Matthew Savoca num artigo para o site The Conversation.

“Enquanto mergulhavam no Santuário Marinho Nacional da Baía de Monterey, perto da cidade de Carmel-by-the-Sea, Alex e o seu amigo Jack Johnston tinham-se deparado repetidas vezes com um grande número de bolas de golfe no fundo marinho.”

Os adolescentes começaram a remover as bolas da água, uma a uma, e, quando finalmente Alex contactou o cientista, já tinham recolhido mais de 10 mil – o que representa cerca de meia tonelada de detritos.

Bolas de golfe na praia
Bolas de golfe retiradas do mar e reunidas na areia | Foto: Alex Weber

Como as bolas de golfe se afundam, em vez de flutuarem e ficarem à vista dos banhistas e dos golfistas, a sua presença no mar tem passado despercebida.

Instruída pelo cientista, Alex começou a registar sistematicamente todas as recolhas de bolas de golfe. Em conjunto, produziram um estudo que documenta a dimensão do problema e algumas formas como poderá afetar a vida marinha.

“Chegados a meados de 2018, os resultados eram surpreendentes. [Alex, o pai e amigos] tinham recolhido quase 40 mil bolas em três locais perto de campos de golfe situados na zona costeira (…) Encorajados por Alex, os funcionários de um destes campos também começaram a recolher as bolas de golfe das praias próximas, acumulando mais de 10 mil”, disse Matthew.

No total, recuperaram 50 681 bolas de golfe da orla costeira e das águas pouco profundas – o que equivale aproximadamente ao peso de uma pick-up.

Alex Weber e Jack Johnston com bolas de golfe
Alex Weber e Jack Johnston com algumas das bolas reunidas | Foto: Robert Beck

“Multiplicando o número médio de bolas perdidas em cada partida jogada (1-3) pelo número médio de partidas jogadas anualmente em Pebble Beach, estimamos que os clientes destes campos populares possam perder mais de 100 mil bolas por ano para o ambiente circundante.”

Bolas de golfe no fundo marinho do Santuário da Baía de Monterey
Bolas de golfe poluem o fundo marinho do Santuário da Baía de Monterey | Fotos: Alex Weber

Perigo para a fauna marinha

As bolas de golfe modernas são feitas de um revestimento de elastómero de poliuretano e de um núcleo de borracha sintética.

“Os produtores adicionam óxido de zinco, acrilato de zinco e peróxido de benzoílo ao núcleo sólido para aumentar a sua flexibilidade e durabilidade. Estas substâncias também são gravemente tóxicas para a vida marinha”, explicou o cientista.

À medida que as bolas se degradam e se fragmentam no mar, podem libertar substâncias químicas e microplásticos para a água ou para os sedimentos. Os pequenos fragmentos resultantes da sua degradação também podem ser ingeridos por peixes, aves e outros animais.

Lontra-marinha segura uma bola de golfe
Lontra-marinha segura uma bola de golfe num dos locais de estudo | Foto: Alex Weber

“A maioria das bolas que recolhemos evidenciava pouco desgaste. Algumas até podiam ter sido revendidas e usadas de novo para jogar. Contudo, outras estavam severamente degradadas e fragmentadas pela ação mecânica persistente das ondas (...) Estimamos que mais de 27 kg de microplásticos irrecuperáveis se tinham soltado das bolas que recolhemos”, escreveu o cientista.

Com muitos dos cerca de 32 mil campos de golfe do mundo localizados perto do mar, inúmeras bolas continuarão a ir parar à água, afundando-se e acumulando-se no fundo marinho.

A sensibilização das partes envolvidas para este problema e a recuperação das bolas logo após estas serem atiradas para o mar são formas de mitigar os seus impactos. Alex também está a trabalhar com os administradores do santuário para o desenvolvimento de operações de limpeza por forma a impedir que esta poluição volte a atingir níveis tão elevados.

“Embora o seu estudo seja local, as descobertas são preocupantes para outras regiões com campos de golfe costeiros. Não obstante, também envia uma mensagem positiva: se uma aluna do secundário pode fazer tudo isto através de trabalho árduo e dedicação, qualquer pessoa o pode fazer”, defendeu Matthew Savoca.




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