As aves marinhas estão a morrer à fome por não conseguirem competir com o apetite insaciável da humanidade por pescado.

Ave marinha

Desde 1950, os números globais de aves marinhas sofreram um declínio de 70% – e os seres humanos são, em grande medida, os culpados. A pesca industrial, em particular, está a privar estas aves dos seus alimentos e a colocar as suas comunidades em risco.

“A pesca [industrial] continua a condenar à fome uma comunidade de aves marinhas que se está a desvanecer, como uma jiboia a apertar a sua presa”, alertou o oceanógrafo francês David Grémillet, coautor de um novo estudo sobre o tema e investigador do Centro Nacional de Investigação Científica de França (CNRS).

O estudo, publicado na revista Current Biology, descobriu que o consumo médio anual de alimentos por parte das aves marinhas caiu quase 20% – de 70 para 57 milhões de toneladas – entre 1970 e 2010. Por outro lado, a captura média anual das presas destas aves pela indústria pesqueira aumentou de 59 milhões de toneladas nos anos 70 e 80 para 65 milhões de toneladas nos últimos anos.

“Apesar do facto de as comunidades mundiais de aves marinhas estarem a diminuir, o nível de competição entre as aves e as pescarias permaneceu igual entre 1970-1980 e 1990-2000”, disse o investigador.

Pinguins africanos
Pinguins africanos (Spheniscus demersus) | Foto: Paul Mannix

A diminuição da quantidade de alimentos disponíveis está a colocar em risco as aves marinhas, que já são o grupo de aves mais ameaçado do mundo.

Desde os anos 70 e 80 perdemos um quarto de todos os pinguins e quase metade dos garajaus e das fragatas”, afirmou David Grémillet. “Entretanto, a competição entre as aves marinhas e a indústria pesqueira continua a aumentar em zonas como as plataformas continentais asiáticas, o mar Mediterrâneo, o mar da Noruega e a costa californiana.”

A situação é particularmente alarmante para o pinguim africano, uma espécie em perigo de extinção. As sardinhas, que perfazem uma parte significativa da sua dieta, estão a ser alvo de sobrepesca no sul de África, comprometendo o futuro da espécie.

“As aves marinhas que se alimentam de calamares, krill antártico e de peixes pequenos de águas intermédias, como os arenques e as sardinhas, são as que estão a ser mais afetadas”, disse Deng Palomares, investigadora da iniciativa Sea Around Us da Universidade da Colúmbia Britânica e coautora do estudo. “No total, analisamos o comportamento de mil milhões de aves marinhas ao longo de quatro décadas, o que é aproximadamente 60% da população mundial destas aves.”

“A exploração desenfreada de pequenos peixes pelágicos, como as sardinhas, anchovas ou sardinelas nas águas ao largo da costa da África Ocidental, pelos navios de pesca industrial para a produção de farinhas destinadas a engordar salmões de viveiro ou galinhas é desastrosa para o ambiente e para as aves marinhas”, defendeu David Grémillet. “E esses recursos deveriam ser utilizados para alimentar as pessoas da região; é uma aberração que [sejam usados] para fazer farinhas de peixe.”

Ave presa em redes de pesca

Deng Palomares explicou que são necessárias medidas urgentes para fazer face a este problema, dado não ser o único que as aves marinhas enfrentam.

Outras ameaças incluem o enredamento em artes de pesca, a ingestão de resíduos de plástico a flutuar nos oceanos, a poluição no mar por hidrocarbonetos, a introdução de espécies predadoras invasoras e a destruição do seu habitat.

“Se não fizermos nada, as populações de aves marinhas vão colapsar”, advertiu a investigadora.
1ª foto: JJ Harrison

Competição aves marinhas/pescarias no mundo | Imagem: Universidade da Colúmbia Britânica


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