Ao convertermos os nossos quintais em habitats dominados por espécies não nativas, pomos em risco a sobrevivência dos insetos e das aves.

Chapim

As comunidades de plantas nativas nas zonas urbanas são frequentemente convertidas em habitats dominados por espécies não indígenas. Estas plantas podem ser menos suscetíveis aos danos causados por ataques de parasitas e exigir menos trabalho de manutenção, mas também criam “desertos alimentares” para os insetos e, consequentemente, para os animais que, como as aves, se alimentam deles.

O declínio na disponibilidade de alimentos pode afetar estes animais, colocando-os em risco de extinção local nas zonas urbanas e suburbanas.

“A maioria dos proprietários acha que as plantas são apenas decorações e não se preocupa com os papéis ecológicos que elas devem desempenhar nas nossas paisagens. Assim, vão ao viveiro e compram a planta mais bonita que conseguem encontrar. A indústria dos viveiros impinge plantas de outros lugares há um século por estas serem invulgares e terem valor de mercado”, disse Doug Tallamy, professor do Departamento de Entomologia e Ecologia da Vida Selvagem da Universidade de Delaware.

Juntamente com a investigadora Desirée Narango e Peter Marra, diretor do Centro de Aves Migratórias do Smithsonian, o professor examinou o impacto das plantas não indígenas nas aves nidificantes presentes nos quintais particulares de centenas de norte-americanos.

A maioria dos insetos herbívoros só consegue alimentar-se de espécies com as quais coevoluiu. As plantas não nativas têm substâncias químicas defensivas nos seus tecidos que repelem os insetos autóctones. Estes insetos não podem comer uma planta a menos que tenham desenvolvido as adaptações necessárias para contornar essas defesas. Para além de terem um cheiro e sabor diferentes, as plantas alóctones também são frequentemente tóxicas para a maioria dos insetos nativos.

“A título de exemplo, as [lagartas das] borboletas-monarcas só se alimentam de asclépias porque essa é a linhagem de plantas à qual se adaptaram”, explicou Doug Tallamy. “Mas agora não se podem alimentar de mais nada. Por isso, quando trazemos plantas exóticas para o país, os nossos insetos não possuem as adaptações necessárias para as comerem sem morrerem.”

Chapim
Poecile carolinensis | Foto: Douglas Tallamy

As descobertas do estudo, publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), mostraram que os jardins residenciais dominados por plantas não nativas têm menos artrópodes, como lagartas herbívoras e aranhas predadoras. Isto são más notícias para as aves que dependem destas espécies para alimentar as suas crias.

Quanto mais plantas não indígenas tinha um jardim, menos provável era que as aves o ocupassem e nele nidificassem. Os pássaros que, mesmo assim, nidificavam, produziram menos crias do que os que o fizeram em quintais dominados por plantas nativas.

A utilização de plantas não nativas força as aves a mudar as suas dietas para presas menos desejáveis e adequadas.

“Essas plantas exóticas atrativas fornecem menos alimentos à base da cadeia alimentar e, como tal, sustentam menos aves do que as plantas nativas”, comentou Doug Levey, da Fundação Nacional de Ciência, que financiou o estudo.

Os investigadores observaram em especial a ave Poecile carolinensis (uma espécie de chapim), que consideraram tratar-se de uma representante ideal das espécies de aves insetívoras.

“[Esta ave] é quase exclusivamente insectívora durante a época de nidificação. Alimenta-se maioritariamente de lagartas, aranhas e outros insetos”, contou Desirée Narango. “Os jardins com plantas não indígenas tornam-se ‘sinks’ [habitats onde a reprodução não é suficiente para igualar a mortalidade] para estes chapins, que precisam de insetos para se reproduzirem e sobreviverem.”

“Estas observações fazem soar o alarme para os outros pássaros”, disse Peter Marra. “Se fizermos um esforço concertado para replantar espécies nativas, isto poderá constituir uma oportunidade para trazer as aves de volta para os nossos quintais.”

Gingko biloba
Gingko biloba | Foto: CS76/Wikimedia Commons

A chave é 70%

Os investigadores descobriram que a chave está nos 70%. Se o quintal tiver mais de 70% de biomassa vegetal nativa, os chapins têm hipótese de se reproduzir e repor a sua população local. Assim que o número de espécies nativas se torna inferior a 70%, essa probabilidade cai para zero.

De forma a promoverem a biodiversidade urbana e redes tróficas sustentáveis, os planeadores urbanos e os proprietários privados devem dar prioridade às espécies vegetais nativas.

“Vejo os nossos resultados como um passo em frente para permitirmos que as nossas paisagens urbanas e suburbanas sejam partilhadas com a biodiversidade”, contou Desirée Narango. “Espero que as nossas descobertas proporcionem metas claras que os proprietários e paisagistas possam tentar alcançar.”

Os investigadores destacaram ainda a importância das árvores nativas, especialmente dos carvalhos, das cerejeiras e dos salgueiros. “Quando se deitam abaixo estas árvores, altera-se o ecossistema dessa zona”, disse Doug Tallamy.

Em vez de um gingko, plante um carvalho. Os gingkos não sustentam nenhuma espécie de lagarta – um importante alimento para as aves –, ao passo que os carvalhos asseguram a subsistência de 557 espécies de lagartas”, explicou o professor.
1ª foto: Chapim-real (Parus major)

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