Os peixes da bacia hidrográfica do Amazonas também já estão contaminados com partículas de plástico.

Piranha-vermelha

Os peixes de água doce da bacia hidrográfica do Amazonas também já estão contaminados com partículas de plástico, revelou um novo estudo publicado na revista científica Environmental Pollution.

Os autores do trabalho de investigação analisaram o conteúdo estomacal de 172 peixes de 16 espécies presentes no Rio Xingu, um dos maiores afluentes do Amazonas, e descobriram que mais de 80% das espécies examinadas – incluindo a piranha-vermelha – tinham partículas de plástico nos estômagos.

“Foi uma descoberta triste porque, na fase inicial da nossa pesquisa, o principal objetivo era compreender a ecologia alimentar dos peixes, mas quando começámos a analisar o conteúdo dos estômagos descobrimos plástico”, contou Tommaso Giarrizzo, investigador da Universidade do Pará e um dos autores do estudo. “É alarmante porque esta poluição está disseminada em toda a bacia Amazónica.”

Os investigadores identificaram partículas de vários polímeros usados no fabrico de artigos de plástico, como sacos, garrafas e artes de pesca. A maioria dos fragmentos descobertos era de cor preta, vermelha, azul, branca ou translúcida e os seus tamanhos variavam entre 1 e 15 mm de comprimento.

Tanto as espécies piscícolas herbívoras como as carnívoras e as omnívoras tinham consumido plástico. Os peixes herbívoros podem confundir os pedaços deste material com sementes, frutos e folhas, e os omnívoros poderão ingerir os plásticos presos nas macrófitas (plantas aquáticas). Por sua vez, os carnívoros podem consumi-los ao se alimentarem de presas contaminadas.

Fragmentos de plástico encontrados nos estômagos de peixes
Fragmentos de plástico encontrados nos estômagos de peixes da família Serrasalmidae no Rio Xingu | Foto: Environmental Pollution

É horrível saber que os detritos plásticos são ingeridos por 80% das espécies de peixes analisadas e que muitas delas são consumidas por humanos na Amazónia. A poluição por plástico é uma séria ameaça para os seres humanos em todo o mundo”, disse Marcelo Andrade, também da Universidade Federal do Pará, ao jornal britânico The Guardian.

No total, foram encontradas 96 peças de plástico nos estômagos de 46 peixes. Mais de um quarto eram de polietileno, um material usado nas artes de pesca, que são frequentemente descartadas nos rios e oceanos. Outras eram de PVC, poliamida, polipropileno, rayon e outros polímeros usados para produzir sacos, garrafas, embalagens de comida, entre outros produtos.

“Embora os efeitos do consumo humano de microplásticos sejam amplamente desconhecidos, as nossas descobertas revelam um problema de saúde pública, já que a Amazónia tem o maior consumo per capita de peixe do mundo”, afirmou Tommaso Giarrizzo.

Os cientistas também veem com inquietação o facto de os microplásticos poderem transmitir substâncias químicas perigosas, que se vão acumulando ao longo da cadeia alimentar.

“Embora se tenha dado mais destaque à poluição por plástico nos oceanos, este estudo reúne-se às provas crescentes de que os plásticos também representam um risco potencial para os ecossistemas fluviais”, disse Steve Ormerod, professor de ecologia e codiretor do Instituto de Investigação da Água da Universidade de Cardiff.

“Em alguns aspetos, estas descobertas não são surpreendentes dado que se crê que o Amazonas transporte cerca de 60 mil toneladas de lixo plástico todos os anos para o Oceano Atlântico, e as amostras para este estudo foram recolhidas perto de Altamira – uma cidade com mais de 100 mil habitantes”, explicou o professor.

Todos os anos, os rios mundiais transportam entre 1,15 e 2,41 milhões de toneladas de plástico até ao mar. Grande parte da poluição é causada pela má gestão dos resíduos ou por despejos intencionais de lixo nos cursos de água.
1ª foto: Piranha-vermelha (Pygocentrus nattereri) por Grook Da Oger/Wikimedia Commons

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