A manter-se o ritmo atual de matança, o futuro dos rinocerontes está em sério risco, conta a realizadora do documentário "Rhino Dollars", Olivia Mokiejewski.

Rinoceronte juvenil

Na África do Sul, um rinoceronte é morto a cada oito horas. A manter-se o ritmo atual de matança, o futuro destes gigantes está em sério risco.

Olivia Mokiejewski, realizadora do documentário “Rhino dollars”, investigou o comércio lucrativo que ameaça este animal, o tráfico do seu chifre, um produto que chega a valer mais do que o ouro ou a heroína.

“Estima-se que restem hoje cerca de 25 mil rinocerontes brancos e negros. Na África do Sul, 1000 [destes animais] morrem todos os anos. Podemos, portanto, presumir que o seu desaparecimento está programado para daqui a uma vintena de anos”, alertou a realizadora.

“Isto aplica-se a muitas espécies. No caso dos leões, estima-se que terão desaparecido em 2050. O problema é que quanto menos animais houver, menor é a diversidade genética e mais rapidamente desaparece a espécie.”

Com o novo documentário, fruto de um trabalho de investigação de dois anos, Olivia Mokiejewski quis mostrar que por trás do comércio ilegal de chifres de rinoceronte se esconde “uma nova face do crime organizado”.

“A forma como funciona é idêntica ao tráfico de drogas ou de armas. Não se trata apenas de ‘um problema para ecologistas’. Aqueles que dizem que ‘a Terra continuará a girar’ esquecem-se de que a pilhagem da natureza é uma das principais fontes de financiamento para o submundo e os grupos terroristas”, contou ao jornal francês Le Monde. “Portanto, não se trata apenas de salvar uma espécie animal. As ameaças não são só ecológicas, mas também económicas e de segurança.”



As máfias que organizam o tráfico de chifres estão “organizadas como empresas”, disse. Na base encontram-se os caçadores furtivos. O topo é ocupado com frequência por empresários asiáticos, sediados na China ou em Hong Kong, que dirigem sociedades perfeitamente legais.

“Estas máfias têm ramificações em vários continentes e são muito bem organizadas. Quando rolam cabeças, são imediatamente substituídas”, explicou Olivia.

A realizadora esteve cara a cara com alguns caçadores furtivos, para melhor compreender o que está na origem destes crimes.

“[Não basta] dizer: ‘quem mata rinocerontes é mau, quem os defende é bom’”, afirmou. “Na África do Sul, as consequências do apartheid são um dos lados do problema. Nesta guerra dos chifres, encontram-se tensões raciais muito fortes. Muitos veem todos os dias os autocarros e os automóveis cheios de turistas, mas não recebem os benefícios económicos da fauna. E quando são contratados como guardas-florestais, recebem um salário de miséria. Desta forma, quando veem um animal, veem dinheiro. Não têm qualquer interesse em proteger os animais. Com um tiro, ganharão 50 ou 100 vezes mais.

“Consegui abordá-los, perguntando-lhes porque o fizeram, mas sem os julgar”, continuou. “Não estão orgulhosos do que fazem, mas explicam-no. Quando lhes dizemos: ‘E o que farão quando já não houver rinocerontes?’, eles respondem: ‘Mataremos elefantes’. Estas pessoas têm desejos como todo a gente, querem ter t-shirts da moda e ouvir música.”


Vídeo: O documentário "Rhino Dollars"

Para Olivia, as soluções devem passar pela colaboração internacional e pela sensibilização do público.

“Seria necessária uma perspetiva global deste tráfico, uma verdadeira colaboração internacional para desmantelar as redes criminosas. Também seria necessária formação no sector aduaneiro, porque, hoje em dia, os chifres já não são transportados numa única peça, mas sob a forma de joias, e as autoridades não aprendem isto. A outra ideia, um pouco idealista, seria trabalhar em colaboração com as populações locais para que os sindicatos do crime tenham menos facilidade em recrutar. Do lado asiático, é preciso explicar-se que as virtudes do chifre de rinoceronte são totalmente imaginárias, que não foram provadas cientificamente.”

O chifre de rinoceronte é muito procurado na Ásia, especialmente no Vietname, por se acreditar, erroneamente, que tem propriedades curativas e afrodisíacas e que é capaz de curar o cancro, a ressaca e outros problemas de saúde. É ainda visto como um símbolo de status.

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