35% do peixe capturado é atirado, sem vida, de volta para a água ou apodrece antes de ser consumido, concluiu um novo relatório da FAO.

muitas sardinhas empilhadas

Segundo o relatório da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) sobre a pesca, aproximadamente 35% das capturas mundiais de peixe são desperdiçadas e não chegam aos pratos dos consumidores.

Em cerca de um quarto destas perdas, os peixes são atirados, sem vida, de volta para a água por serem demasiado pequenos ou de espécies indesejadas.

Contudo, a maioria das perdas deve-se à falta de conhecimento ou de equipamento de refrigeração para manter o peixe fresco, o que faz com que este apodreça antes de ser consumido.

“[O facto de existir] desperdício alimentar num planeta onde há fome é ultrajante”, disse Lasse Gustavsson, diretor executivo da organização Oceana na Europa.

O relatório também revela que um terço das espécies de peixe que são alvo de pesca comercial estão a ser sobrepescadas e que, atualmente, a aquacultura já fornece mais de metade do peixe consumido a nível mundial.

Contudo, este tipo de produção pode prejudicar as populações piscícolas, já que muitas vezes os peixes da aquacultura são alimentados com pescado selvagem capturado no mar. Acresce ainda o problema de poder causar poluição.

“A aquacultura está longe de ser uma panaceia, já que é muitas vezes insustentável. Utilizarem-se 20 milhões de toneladas de peixes, como cavalas, sardinhas e anchovas, para alimentar peixes de aquacultura em vez de pessoas é um desperdício de alimentos incontestável”, defendeu Lasse Gustavsson.



A pesca emprega 60 milhões de pessoas no mundo e envolve 4,6 milhões de embarcações, dados que demonstram a dimensão do sector, mas também preocupam a FAO, que teme que existam demasiados barcos a tentar capturar poucos peixes.

“Desde 1961 que o crescimento anual global do consumo de peixe tem sido o dobro em relação ao crescimento da população”, disse José Graziano da Silva, diretor-geral da FAO.

A sobrepesca abunda em algumas regiões, denuncia o relatório. Nos mares Mediterrâneo e Negro e na zona sudeste do Pacífico, dois terços das espécies são alvo de pesca excessiva. “Conhecemos a situação”, disse Lasse Gustavsson. “Temos as soluções: estabelecer limites de captura de peixe de acordo com os pareceres científicos e travar a pesca ilegal e destrutiva. Tudo o que nos falta é a ação política.”

De acordo com outros estudos que incluem as estimativas da pesca ilegal, as reservas de peixes selvagens estão a diminuir mais rapidamente do que os dados da FAO sugerem.

“Existe demasiada pressão sobre os recursos marinhos e precisamos de muitos mais compromissos dos governos para melhorar o estado das suas pescarias”, disse Manuel Barange, diretor do departamento de pescas e aquacultura da FAO.

Daniel Pauly, da iniciativa de investigação Sea Around Us da Universidade da Colúmbia Britânica, no Canadá, tem sido muito crítico a respeito dos anteriores relatórios da FAO por não terem em consideração a pesca ilegal e, consequentemente, subestimarem significativamente as capturas totais, mas acolheu favoravelmente o novo relatório por ter utilizado um leque muito mais vasto de informação.

“A crise da sobrepesca será difícil de resolver. Contudo, as colaborações entre diferentes partes interessadas podem ajudar a dar a volta a algumas das tendências negativas. Esta é a melhor edição do [relatório da FAO sobre a pesca] que eu já li.”

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