“Há anos que as plantações de abacates de Petorca usam toda a água. E agora os rios secaram, assim como os aquíferos”, disse Veronica Vilches, ativista.

Abacate

Para se produzir um quilo de abacates são necessários dois mil litros de água, quatro vezes mais do que a quantidade necessária para se produzir um quilo de laranjas e dez vezes mais do que o necessário para um quilo de tomates.

Na maior província produtora de abacates do Chile, Petorca, a quantidade de água necessária é ainda maior. “Esta é uma região muito seca, onde quase nunca chove, por isso cada hectare cultivado requer 100 mil litros de água por dia, uma quantidade equivalente ao que mil pessoas utilizam num dia”, contou Rodrigo Mundaca, agrónomo e ativista, ao The Guardian.

Muitas plantações de abacates em Petorca instalam canos e poços ilegais para redirecionar a água dos rios e irrigar as suas culturas. Em 2011, a Direção Geral de Águas do Chile publicou uma investigação na qual mostrou a existência de pelo menos 65 canais subterrâneos ilegais que levavam água dos rios para plantações privadas.

Os habitantes locais queixam-se de que os rios secaram e de que os níveis das águas subterrâneas desceram, causando uma seca regional que os obriga a beber água entregue por camiões. E esta água está muitas vezes contaminada.

“Há anos que as plantações de abacate usam toda a água (…) E agora os rios secaram, assim como os aquíferos”, disse Veronica Vilches, ativista e diretora do sistema Água Potável Rural (APR) de San José, que tem a seu cargo a distribuição de água por aproximadamente 1000 residências.

“As pessoas estão a ficar doentes por causa da seca – ficamos numa situação em que temos de escolher entre cozinhar e lavar, ir à casa de banho em buracos no chão ou em sacos de plástico, enquanto as empresas agrícolas ganham cada vez mais dinheiro”, contou a ativista.

O leito seco do rio La Ligua
O leito seco do rio La Ligua | Foto: Danwatch

Diversas cadeias de supermercados presentes no Reino Unido e na Dinamarca – como a Tesco, Aldi, Lidl, Morrisons e Waitrose – adquirem abacates produzidos em Petorca.

Só o Reino Unido importou mais de 17 mil toneladas de abacates do Chile em 2016, 67% dos quais provenientes da região Valparaíso, à qual Petorca pertence. Em 2017, a procura por estas frutas subiu 27% no país.

As plantações de abacates (a maioria da variedade Hass) cobrem agora a província de Petorca, conferindo uma cor verde à paisagem árida. “Aqui há mais abacates do que pessoas, mas só falta água às pessoas, nunca aos abacates”, desabafou Veronica Vilches.

Para além de prejudicarem o ambiente e os ecossistemas locais, as monoculturas de abacate também estão a afetar o modo de subsistência dos moradores e dos pequenos agricultores, que são levados a deixar a província à procura de emprego, causando o envelhecimento da população.

Monocultura de abacate
Plantação de abacate em Petorca | Foto: Danwatch

Água contaminada

Muitos habitantes locais veem-se agora obrigados a usar água transportada por camiões-cisterna. Cada indivíduo tem direito a 50 litros por dia.

“A qualidade é terrível. A água é muitas vezes amarela ou está suja; outras vezes tem um forte cheiro a cloro. Eles dizem que é potável, mas as pessoas ficam doentes quando a bebem, por isso somos forçados a fervê-la ou a comprar água engarrafada”, declarou Rodrigo Mundaca.

Um estudo encomendado pela APR em 2014 mostrou que os níveis de coliformes (bactérias presentes nas fezes) na água levada pelos camiões eram muito mais elevados do que o limite legal. “Os coliformes são indicadores dos níveis de poluição na água”, explicou Veronica. “Para enviarmos abacates de qualidade para os europeus, acabamos por beber água com porcaria.”

Algumas empresas asseguram-se de que as pessoas mantêm as suas "bocas caladas" dando apoio às comunidades, conta o The Guardian.

“Há muitas pessoas que apoiam o patrão porque ele lhes dá emprego”, disse Rodrigo Mundaca. “E também há zonas pobres onde os proprietários destas empresas construíram igrejas, centros comunitários, campos de futebol… de forma a ganharem o apoio das pessoas. Quando o povo se queixa da falta de água, eles ameaçam acabar com esses benefícios e volta tudo rapidamente ao normal.”

Também há quem recorra à intimidação. Tanto Veronica como Rodrigo já receberam ameaças de morte, como resultado do seu ativismo em defesa do direito à água. “Pararam em frente à minha casa, num carro com os vidros escurecidos, e insultaram-me. Depois disseram que, se eu não parasse, me matavam. Também já me ofereceram dinheiro para ficar calada. Mas eu vou continuar no meu caminho. Eles não podem comprar a minha dignidade”, defendeu Veronica Vilches.

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1 comentários. Diz-nos o que pensas

  1. se o meu conforto , poe outros em risco. Vou deixar de comer abacate.

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