Documentos internos da FDA revelam a presença de resíduos de glifosato – um herbicida associado ao cancro – numa série de alimentos comuns.

Bolachas

Cientistas do governo dos Estados Unidos detetaram glifosato – um herbicida classificado pelo Centro Internacional de Investigação do Cancro da OMS como “provavelmente cancerígeno” – numa série de alimentos comuns, revelaram os documentos internos obtidos pelo jornal The Guardian.

“Trouxe bolachas de trigo, granola e farinha de milho de casa e há uma quantidade significativa [de glifosato] em todas elas”, escreveu Richard Thompson, químico da agência que vigia os medicamentos e os alimentos nos EUA, num e-mail a que o The Guardian teve acesso.

Os documentos internos também revelaram que a Food and Drug Administration (FDA, na sigla em inglês) tem tido dificuldade em descobrir alimentos sem resíduos do pesticida. Richard Thompson escreveu que os brócolos eram a única comida que tinha “à mão” na qual não tinha detetado glifosato.

A FDA analisa anualmente os alimentos vendidos no país para detetar e monitorizar os níveis de resíduos de pesticidas. Apesar de o glifosato ser usado há mais de 40 anos na produção alimentar, a agência só há dois anos começou a testar os alimentos para a deteção de vestígios deste químico. Os resultados oficiais destes testes deverão ser divulgados ainda este ano ou no início de 2019.


E-mail de Richard Thompson

As pessoas querem saber que contaminantes há na sua comida”, disse Tracey Woodruff, professora da Faculdade de Medicina da Universidade de Califórnia em São Francisco. “Ajuda-as a tomar decisões informadas. Os contribuintes pagaram para que o governo faça este trabalho, deviam poder ver a informação.”

O glifosato é o ingrediente ativo de inúmeros herbicidas – nomeadamente do Roundup da Monsanto – e é amplamente usado em todo o mundo, sendo pulverizado diretamente em algumas culturas, como o milho, a soja, o trigo e a aveia. Alguns agricultores, como os produtores de espinafres e de amêndoas, também o utilizam nos campos antes das estações de cultivo.

Segundo o The Guardian, o facto de as descobertas de Richard Thompson terem sido feitas enquanto ele validava os seus métodos analíticos poderá significar que não serão incluídas no relatório oficial.

O químico Narong Chamkasem da FDA também descobriu resíduos de glifosato “acima dos níveis de tolerância” no milho, lê-se noutro e-mail. Os níveis detetados foram de 6,5 partes por milhão e o limite legal é de 5,0 ppm.

Como este milho não era considerado uma “amostra oficial”, nas palavras de um supervisor da FDA, a descoberta de níveis ilegais não foi denunciada à Agência de Proteção Ambiental (EPA, na sigla em inglês).

Roundup
Ativistas colocam etiquetas nas embalagens do Roundup da Monsanto que avisam que o produto pode causar cancro | Foto: Global Justice Now

Os documentos revelaram ainda que Chamkasen já tinha descoberto glifosato em várias amostras de mel em 2016 e em produtos de aveia.

Quando questionado pelo jornal britânico relativamente aos e-mails, um representante da FDA declarou apenas que a agência não tinha encontrado níveis ilegais no milho, soja, leite e ovos, os quatro alimentos incluídos na sua investigação especial sobre o glifosato, e não abordou as descobertas não oficiais reveladas nos e-mails.

Apesar de as empresas agroquímicas e as autoridades reguladoras afirmarem que os resíduos de pesticidas na comida não são prejudiciais para a saúde se estiverem dentro dos limites legais, muitos cientistas contestam esta alegação, dizendo que a exposição alimentar prolongada a combinações de pesticidas pode ter efeitos imprevistos.

“Mesmo com níveis baixos de pesticidas, estamos expostos a tantos e não consideramos o facto de que temos exposições cumulativas”, disse a toxicóloga Linda Birnbaum, diretora do Instituto Nacional de Ciências da Saúde Ambiental dos EUA.

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