É possível viver-se sem produzir lixo? O UniPlanet falou com a Ana Milhazes Martins, embaixadora do Movimento Lixo Zero Portugal, para responder a esta questão.

Ana Milhazes Martins

É possível viver-se sem produzir lixo?
O UniPlanet falou com a Ana Milhazes Martins, embaixadora do Movimento Lixo Zero Portugal, para responder a esta questão.


UniPlanet (UP): Quando ouviste falar pela primeira vez sobre o desperdício zero?

Já não me recordo muito bem, mas sei que foi através da Bea Johnson há já vários anos, em alguma entrevista online, mas confesso que na altura não mexeu comigo. Acho que ainda não estava preparada! Foi apenas no início de 2016, quando comecei a preocupar-me em fazer menos lixo que comecei a pesquisar sobre o assunto e voltei a descobrir a Bea, pois já não me lembrava. Identifiquei-me imediatamente! Comecei a ler o livro, em inglês (a edição portuguesa só saiu em setembro de 2016) e fui colocando as várias dicas em prática em cada área da minha casa e da minha vida, adaptando sempre, uma vez que temos vidas completamente diferentes, em países também muito diferentes (a Bea vive nos Estados Unidos da América).


livro


UP: Que mudanças tens feito na tua vida para seguir este estilo de vida? Qual foi aquela que te custou mais?

Tenho feito várias mudanças e confesso que muitas delas não foram assim muito progressivas. Quando me identifico com alguma coisa, mergulho de cabeça. Mas considero que aquilo que está na base deste estilo de vida, eu já estava a tentar viver desde 2011, ao viver de uma forma mais simples e mais devagar. Portanto já desde essa altura que havia uma recusa deliberada ao consumo e uma preocupação em comprar ou aceitar apenas aquilo que verdadeiramente necessitava. Com isso, ganhei imenso tempo, poupei dinheiro, libertei-me de imensas coisas que não me faziam feliz, desde tralha física até compromissos e mesmo pessoas.

Com o desperdício zero, comecei a recusar ainda mais: praticamente tudo aquilo que vem embalado (sobretudo se for em plástico) e o que não é produzido de forma sustentável. Também prefiro fazer as minhas compras a pequenos produtores ou mercearias em vez das grandes cadeias de supermercados. Para além de estarem muito mais preparados para receberem clientes mais preocupados com o ambiente, acabamos por criar uma relação de proximidade com as pessoas e eu acho muito mais simpático fazer compras desta forma. Já para não falar, dos espaços que são muito mais agradáveis e com muito menos gente.
Outra das mudanças foi começar a afastar-me de grandes confusões. Já raramente ia a centros comerciais, mas agora deixei mesmo de ir. Prefiro estar ao ar livre e na natureza.


Fruta e legumes


Acho que nenhuma mudança me custou, pois se custasse demasiado não faria sentido. Acho que devemos seguir aquilo em que acreditamos, mas que faça obviamente sentido na nossa vida.
Estou agora a tentar viver sem carro (ainda só comecei há alguns dias e quero experimentar durante um mês). Talvez seja esta mudança que mais me vai custar, ainda assim acredito totalmente que é o melhor. E se enquanto antes (pois já queria fazer esta mudança há algum tempo) achava que ter carro era ter liberdade e poder sair quando me apetecesse, hoje em dia, penso exatamente o contrário, pois estou a experienciar isso mesmo. Ter carro significa falta de liberdade: estamos presos muitas vezes a um empréstimo, a todas as despesas mensais e anuais que implica um carro, como combustível, portagens, parques de estacionamento, inspeção, seguro… Depois perdemos imensa qualidade de vida quando estamos no trânsito, entramos em stress, ainda discutimos uns com os outros… comecei a pensar nas vezes em que estava presa no trânsito (praticamente todas as vezes em que conduzia) e que isso sim era falta de liberdade, pois não podia sair dali!

Mas como referia há pouco, foi apenas quando fiz essa mudança mental que resolvi experimentar fazer este desafio. Se o tivesse feito antes, estaria em sofrimento, pois continuava presa à ideia de que ter carro é que me dava liberdade.
Vamos ver como corre, mas se correr bem o objetivo é vender o carro e viver sem carro.



UP: Nem todas as lojas devem aceitar frascos de vidro e sacos de pano. Como fazes as tuas compras? Fazes compras online?

Até agora não tive qualquer problema em nenhuma loja, mas também faço compras em sítios que já conheço e onde sei que à partida irão aceitar. Quando não aceitam, não compro.
Faço algumas compras online, pois há coisas que não consigo encontrar no Porto. Tento sempre fazer encomendas maiores e peço que utilizem apenas papel/cartão reciclado ou mesmo reutilizado de outra encomenda. Também faço algumas vezes encomendas online a projetos de Lisboa, como é o caso da Saponina, e trago a encomenda quando vou a Lisboa, ou então, aproveito a ida a Lisboa para levar a caixa e o papel que acondicionou os produtos que me chegaram pelo correio e assim devolvo, pois poderá ser utilizado em novas encomendas.

Uma das coisas que fazia antes, quando trabalhava numa empresa, era fazer encomendas com vários colegas. Assim encomendávamos tudo de uma vez só. Mas sem dúvida que o melhor é tentarmos comprar tudo perto do local onde vivemos e acredito que o futuro vai passar por aí. Para além de estarmos a apostar no comércio local, estamos a reduzir a nossa pegada ecológica.



Sacos e frascos


UP: Costumas recusar tudo o que sabes que vais acabar por descartar. O que ainda deitas no caixote do lixo?

Neste momento o meu antigo caixote do lixo apenas tem pelo do meu cão, que vou despejando junto a árvores, pois sei que os pássaros gostam de utilizar o pelo para os ninhos.
No meu frasco de vidro que utilizo como o meu caixote do lixo, tenho algumas etiquetas interiores de roupa, autocolantes, cerdas de uma escova de dentes de bambu (pois não são biodegradáveis), lentes de contacto e pulseiras de festivais.



UP: Que produtos de limpeza usas?

Uso essencialmente vinagre de cidra (que faço em casa) e bicarbonato de sódio. Compro também alguns detergentes a granel: o da louça e o da roupa. São detergentes ecológicos.


Objetos para uma vida desperdício zero


UP: A tua vida é 100% livre de plástico ou ainda usas algum no teu dia-a-dia?

Uso muito plástico, até porque tinha imensa coisa em plástico e não faria nenhum sentido livrar-me de tudo só porque estava a tentar viver uma vida desperdício zero. O mais sustentável é aquilo que já existe, portanto não faz sentido deitar um tupperware de plástico fora e comprar um de vidro. Tenho por exemplo um pente de plástico que deve ter mais de 20 anos mas que está em ótimo estado e que uso todos os dias. Tenho também imensos utensílios de cozinha de plástico que estão como novos. Tenho o meu smartphone por exemplo e ainda tenho o meu carro. Na verdade a nossa vida está cheia de plástico e não há mal nenhum nisso, pois é um material resistente e extremamente versátil. O grande problema é utilizar o plástico da forma que usamos. Criamos imensos utensílios descartáveis que são usados apenas durante alguns segundos e que depois duram centenas de anos na natureza. Para além disso, começamos também a utilizar o restante plástico que é reutilizável, de uma forma praticamente descartável. E, hoje em dia, é tudo tão barato, que estamos sempre a comprar coisas novas, sem sequer pensar no assunto.

A nossa relação com o plástico tem mesmo que mudar urgentemente, não só por uma questão de saúde do planeta, mas também da nossa própria saúde.



Logo


UP: Como surgiu o Movimento Lixo Zero Portugal?

Acabou por surgir de forma muito espontânea e de certa forma para satisfazer uma necessidade minha. Quando comecei a viver um estilo de vida desperdício zero no início de 2016, encontrava imensa informação lá fora, mas quase nenhuma em Portugal. Pensei para mim mesma “Será que não há mais ninguém a tentar viver desta forma? Não pode ser!”. Até que encontrei a página zero waste Portugal que era gerida pela Rosana e não por mim na altura. Vi que estava um pouco desatualizada mas falava da Bea e de tudo o que tinha lido! Falei com a Rosana e criamos o grupo de facebook com o objetivo de fazer nascer uma comunidade de zero wasters em Portugal. Eu própria queria perceber que dúvidas e problemas é que as pessoas enfrentavam no seu dia-a-dia quando iam às compras, por exemplo. Entretanto a Rosana que estava bastante desligada do facebook, passou-me a gestão da página.

Felizmente o movimento tem crescido imenso, somos cada vez mais, e tenho conseguido estar presente em vários meios de comunicação para divulgar este estilo de vida.



Talheres reutilizáveis


UP: Que conselhos tens para quem quer começar este estilo de vida?

Para seguir um passo cada dia e começar por aquilo que é mais simples, para procurar ajuda na comunidade e não querer fazer logo tudo à primeira. É também importante adaptarmos tudo à nossa própria vida, pois todos temos vidas diferentes.

Acho que uma dica importante é ter a palavra Não sempre na ponta da língua. Vivemos numa sociedade altamente consumista, que se preocupa com tudo, menos com o essencial e está em cada um de nós o poder de recusar este estilo de vida e vivermos de acordo com aquilo em que acreditamos e que nos torna mais felizes. Pois só faz sentido estarmos aqui se formos felizes!



UP: Onde podemos encontrar mais informação sobre o Movimento Lixo Zero Portugal?

Na página do Facebook e Instagram e também no meu blog Ana, Go Slowly, onde disponibilizo um guia desperdício zero para os subscritores da minha newsletter.


Veja também:
As 10 Dicas do Desperdício Zero de Bea Johnson
Desperdício Zero – Como Começar: 7 Áreas para Simplificar na sua Vida e em Casa

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