Se a tendência de extinções se mantiver, “o maior mamífero na Terra no espaço de alguns séculos poderá vir a ser a vaca doméstica com cerca de 900 kg”, revelou um novo estudo publicado na revista científica Science.

Vaca

A expansão dos primeiros humanos pelo planeta coincidiu com a extinção de mamíferos de grande porte, como os mamutes, o tigre-de-dentes-de-sabre e o gliptodonte.

“Existe um padrão muito claro de extinções com base na dimensão, que segue a migração dos hominíneos para fora de África”, disse Felisa Smith, professora de biologia da Universidade de Novo México, nos EUA, e autora de um novo estudo publicado na revista científica Science.

O estudo estimou que este tipo de extinção por tamanho começou há pelo menos 125 mil anos em África, 90 mil anos antes do que se pensava. Nessa altura, o mamífero africano médio era 50% menor do que os seus homólogos noutros continentes.

À medida que os primeiros humanos migraram para fora de África, estas extinções começaram a verificar-se em regiões e períodos que coincidem com os padrões da migração humana, notaram os investigadores. Com o passar do tempo, o tamanho corporal médio dos mamíferos nos outros continentes caiu, chegando a ficar abaixo do de África.

Na América do Norte, por exemplo, a massa corporal média dos mamíferos terrestres caiu de 98 kg para 7,6 kg após a chegada dos humanos.

Se esta tendência de extinções se mantiver, “o maior mamífero na Terra no espaço de alguns séculos poderá bem vir a ser a vaca doméstica com cerca de 900 kg”, escreveram os autores do estudo.

Isto significaria a queda da massa corporal média para menos de três quilos – aproximadamente o tamanho de um cão da raça Yorkshire Terrier – e a perda de animais como os elefantes, os hipopótamos e as girafas, espécies atualmente classificadas como “vulneráveis” pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN). Em março, morreu, no Quénia, Sudan, o último exemplar macho da espécie rinoceronte-branco-do-norte.

Estátua de um mamute
Estátua de um mamute à entrada da Universidade de Nebraska-Lincoln. | Foto: Craig Chandler

Segundo estimativas, a taxa de extinção atual é 100 a 1000 vezes superior à de antes do aparecimento da humanidade. As causas são complexas e estão muitas vezes interligadas: a desflorestação, a caça, a conversão de habitats em plantações, a poluição, a urbanização, entre outras.

Que impacto teriam estas extinções na biodiversidade?

“Se esta tendência continuar e perdemos todos os [mamíferos] atualmente ameaçados, então o fluxo de energia e a composição taxonómica serão totalmente reestruturados”, disse Felisa Smith. “De facto, o tamanho corporal dos mamíferos ao redor do mundo reverter-se-ia para o de há 40 milhões de anos.”

Esta reestruturação teria “profundas implicações” para os ecossistemas do mundo. Os grandes mamíferos costumam ser herbívoros que devoram grandes quantidades de vegetação, permitindo a transferência de nutrientes num ecossistema.

“Os tipos de serviços ecossistémicos proporcionados pelos grandes mamíferos são muito diferentes dos prestados pelos de pequena dimensão”, explicou Kate Lyons, coautora do estudo.

Felizmente, outros especialistas em vida selvagem consideram este cenário da extinção dos mamíferos de grande porte pouco provável, em parte devido aos esforços de conservação.

“Não acho que seja muito provável”, contou Thomas Brooks, cientista da UICN à Reuters, explicando que outros estudos sugeriram que os animais de grande porte – como os elefantes – têm maior probabilidade de beneficiar das áreas protegidas do que os mais pequenos.

Para além disso, outros mamíferos selvagens com aproximadamente a dimensão de uma vaca – como o búfalo-africano e o urso-pardo – estão classificados pela UICN como fora de perigo.

“O meu lado otimista gostaria de dizer que não vai acontecer já que adoramos os elefantes”, comentou Felisa Smith. Contudo, a investigadora acrescentou que as populações dos grandes mamíferos terrestes estão a sofrer declínios e que “uma população em declínio é a trajetória para a extinção”.

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