Procura por peles de burro na China leva ao declínio destes animais no mundo

Procura por peles de burro na China leva ao declínio destes animais no mundo

27 de Abril, 2018 0

Em muitos países africanos, as populações de burros têm sofrido declínios drásticos nos últimos anos. A população de burros do Quénia, por exemplo, perdeu metade dos seus animais desde 2009. No Botswana, o declínio foi de 60%, entre 2011 e 2016, e no Lesoto de um quinto.

Qual é a principal causa deste fenómeno? A crescente procura das peles destes animais na China, onde são usadas para produzir ejiao, uma gelatina consumida no país há milénios e usada na medicina tradicional chinesa por se acreditar que cura toda uma variedade de problemas de saúde – como a insónia e a anemia – e que até previne o cancro.

Com a ascensão da classe média chinesa, a procura deste produto tem aumentado e a gelatina, outrora de consumo mais modesto, também aparece agora em cremes faciais, doces e licores, para além das diversas preparações medicinais.

Ao mesmo tempo, com o êxodo rural, passaram a ser utilizados menos burros na agricultura e transporte. Estes fatores fizeram com que o número destes animais na China caísse mais de 40% entre 1990 e 2016.

O país asiático necessita de aproximadamente 4 milhões de peles de burro por ano para produzir 5000 toneladas de ejiao, mas a oferta chinesa não vai além de 1,8 milhões de peles, o que deixa os fabricantes da gelatina muito dependentes de importações.


Gelatina de pele de burro, “ejiao” | Foto: Deadkid dk

Há quem produza “falso” ejiao com a pele de outros animais, como porcos, cavalos e vacas. Contudo, para garantir que o ejiao é genuíno, alguns fabricantes fazem agora testes de ADN ao produto, segundo o The Economist.

A outra opção é importar as peles do estrangeiro. E é isso que o país tem feito. Embora importe principalmente de África, este comércio verifica-se um pouco por todo o mundo. No Quirguistão e na Índia, as populações de burros sofreram um declínio de um quinto, durante 2015 e 2016.

A procura de ejiao vai mais longe e chega a alcançar a América do Sul. A Colômbia perdeu quase um décimo dos seus burros e o Brasil cerca de 5%, também durante 2015 e 2016.

Os burros passaram a valer mais mortos do que vivos

Em menos de uma década, a procura de peles de burro inflacionou os preços destes animais, colocando-os fora do alcance dos pequenos agricultores. No Quénia, por exemplo, o preço de um burro aumentou 325% num período de seis meses, no ano passado.

A tentação do lucro rápido e os preços em ascensão têm levado a uma explosão de roubos de burros. No Quénia, registaram-se quase 1000 casos de animais roubados entre dezembro de 2016 e abril de 2017.

Philemon Sibaya, um agricultor de subsistência da África do Sul que possuía um negócio informal de transporte com estes animais, perdeu os seus burros durante o mês de novembro de 2016. “Nessa manhã, não os consegui encontrar”, contou ao The Guardian.

Umas semanas antes, um homem de nacionalidade chinesa tinha visitado a sua aldeia, à procura de burros para comprar. Sibaya recusou-se a vendê-los. “Os meus burros colocam comida na mesa. Construíram esta casa e põem os meus filhos na escola.”

O agricultor acabou por encontrar os cadáveres dos seus burros – só um não tinha sido esfolado. “Não há nada que eu possa fazer a não ser aceitar a situação”, disse. “Não posso trazer os meus burros de volta.”

“Temos assistido a muitos casos como este”, comentou Mishack Matlou, inspetor da Sociedade para a Prevenção de Crueldade Contra Animais. Alguns meses antes, o inspetor tinha resgatado dois adolescentes que estavam a esfolar burros numa aldeia vizinha, provocando a ira da comunidade que os queria matar. “Esta é uma área pobre e eles precisavam do dinheiro. Alguém lhes ofereceu 29 euros pelo trabalho”, disse.

burro

Em resposta a este problema, cerca de 15 países decidiram tomar medidas para controlar o comércio de burros. Em 2015, o Paquistão tornou-se o primeiro país a proibir a exportação de peles de burro. Vários países africanos – entre os quais o Botswana, Burkina Faso, Mali, Níger, Nigéria, Senegal, Gana, Tanzânia e o Uganda – também proibiram a exportação deste produto para a China.

Mas o mercado negro continua a abastecer ilegalmente as fábricas chinesas. “Ainda estamos a ver exportações ilícitas de todos os países que tomaram uma posição contra a venda de peles de burro”, explicou Alex Mayers, da organização britânica Donkey Sanctuary. “Não há hipótese nenhuma de sustentar os atuais níveis de procura”.

Outros países abraçaram a oportunidade de investimento – o Quénia abriu três matadouros no espaço de 18 meses e a Namíbia tem planos para construir dois. Ao mesmo tempo, também se está a assistir à multiplicação de instalações de abate não regulamentadas em África, na Ásia e na América do Sul.

Apesar de organizações como a Donkey Sanctuary e a PETA terem apelado ao fim deste comércio, o governo chinês deu um novo impulso à indústria de ejiao, em janeiro, ao reduzir os direitos de importação de peles de burro de 5% para 2%. Em novembro de 2017, a PETA divulgou um vídeo que mostra o abate dos burros nas quintas chinesas, onde são espancados com recurso a martelos.

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