Em 17 anos, um terço das aves desapareceram do meio rural de França, avisam dois novos estudos.



As populações de aves no interior de França sofreram um declínio de um terço nos últimos 17 anos, revelaram dois estudos novos, cujos autores descreveram a situação como “catastrófica”.

São dezenas as espécies de aves que viram os seus números cair, verificando-se, em alguns casos, declínios de dois terços.

O principal culpado apontado pelos investigadores é o uso intensivo de pesticidas na agricultura, especialmente nas monoculturas de trigo e milho. Isto está a fazer com que os insetos, dos quais os pássaros se alimentam, desapareçam.

“Estamos a transformar os nossos campos em desertos. Estamos a perder tudo; e nós precisamos dessa natureza, dessa biodiversidade – a agricultura precisa dos polinizadores e o solo da fauna. Sem isso, em última análise, não sobreviveremos”, alertou Benoit Fontaine, biólogo de conservação do Museu Nacional de História Natural de França e coautor de um dos estudos.

Espécies comuns como o papa-amoras, a sombria e a laverca sofreram declínios de pelo menos um terço. As petinhas-dos-prados foram mais desafortunadas: os seus números caíram quase 70%.
Os investigadores concluíram ainda que o declínio geral se intensificou em 2016 e em 2017.


Petinha-dos-prados (Anthus pratensis) | Foto: Myosotis Scorpioides

O Museu de História Natural descreveu a dimensão e o ritmo deste desaparecimento como “algo ao nível de uma catástrofe ecológica”.

Segundo um outro trabalho de investigação, existem, hoje em dia, menos 421 milhões de aves em 25 países europeus do que havia no início dos anos 80.

“Quase não restam insetos, esse é o problema número um”, desabafou Vincent Bretagnolle, ecólogo do Centro Nacional para Investigação Científica.

“Todas as aves dependem dos insetos de uma forma ou de outra”, explicou Benoit Fontaine. “Até as aves granívoras alimentam as suas crias com insetos e as aves de rapina alimentam-se de pássaros que comem insetos.”

Com o declínio de quase 80% nos números de insetos voadores que um estudo realizado na Alemanha revelou recentemente, as coisas tornam-se complicadas. “Sem 80% da sua comida, não se pode manter uma população estável”, disse o cientista.

Apesar de um plano do governo francês para reduzir o uso de pesticidas em metade até 2020, as vendas destes produtos continuam a subir no país.

“O que é mesmo alarmante é que todas as aves no ambiente agrícola estão a sofrer declínios ao mesmo ritmo, mesmo as aves [que também costumam prosperar noutros ambientes]”, explicou Bretagnolle. “Isso mostra que a qualidade geral do ecossistema agrícola se está a deteriorar.”

Outras causas que se juntam à falta de insetos são a desflorestação, a expansão das monoculturas e a ausência da prática outrora comum de se colocarem os campos em pousio.

“Se a situação ainda não for irreversível, todos os intervenientes no sector agrícola devem trabalhar em conjunto para mudar as suas práticas”, defendeu Fontaine.
1ª foto: Sombria (Emberiza hortulana) | Sergey Pisarevskiy/Flickr

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