Há crianças com apenas 12 anos a trabalhar sob condições perigosas, no Paquistão, para fazer as ferramentas cirúrgicas usadas em todo o mundo.



Há crianças com apenas 12 anos a trabalhar sob condições perigosas, no Paquistão, para fazer as ferramentas cirúrgicas usadas nos consultórios e salas de operações um pouco por todo o mundo.

Dentro de pequenas oficinas, as crianças cortam, perfuram e transformam peças de aço em instrumentos cirúrgicos para exportação. Por este trabalho, recebem 0,80€ por dia.

Embora estejam expostas constantemente a poeiras de metais e ao ruído ensurdecedor das máquinas que trabalham o metal, não utilizam óculos de proteção, máscaras ou equipamentos para proteção auditiva.

Os instrumentos cirúrgicos representam 10% das exportações totais do Paquistão e 99% da produção destas ferramentas está centrada em Sialkot, Punjab, onde têm sido sinalizados casos de trabalho infantil em várias oficinas.

Zain, de 12 anos, começou a trabalhar numa das oficinas de Sialkot há oito meses, depois da morte do seu pai. Ele trabalha oito horas por dia, seis dias por semana e recebe 20€ por mês. “Eu sei que é um trabalho perigoso, mas tenho de pagar algumas dívidas e ajudar a minha família”, contou ao jornal britânico The Guardian.

Em alturas mais atarefadas, Zain chega a trabalhar 12 horas por dia. À noite, muitas destas crianças sofrem de tosse seca, asma e outros problemas respiratórios.

Aos 12 anos, Azwar também começou a trabalhar numa pequena oficina. “Tenho de ajudar os meus pais e irmãos a pagar as contas”, disse.



Pelo menos três das empresas que exportam ferramentas cirúrgicas para o Reino Unido afirmaram comprá-las a estas oficinas. Esta revelação suscitou preocupações de que os instrumentos usados rotineiramente pelo serviço nacional de saúde do país pudessem ter sido fabricados com recurso a trabalho infantil.

Entre 80 e 90% dos instrumentos cirúrgicos do Reino Unido são fabricados no Paquistão. O país é ainda o terceiro maior comprador destes produtos paquistaneses.

“Sabemos que muitas [das ferramentas cirúrgicas] vieram do Paquistão. Ficaria surpreendido se pelo menos alguns dos instrumentos usados no Serviço Nacional de Saúde não fossem feitos nessas pequenas oficinas”, confessou o cirurgião Mahmood Bhutta, fundador do Grupo Médico de Comércio Equitativo e Ético da Associação Médica Britânica, instituição que investigou este problema pela primeira vez em 2008.

Embora as condições e os salários tenham melhorado nalgumas das fábricas de maiores dimensões desde essa investigação inicial, o cirurgião acredita que ainda há sérios motivos para preocupação.



“Os orçamentos do Serviço Nacional de Saúde são limitados. Mas as poupanças não devem fazer-se às custas dos direitos humanos”, defendeu Cindy Berman, da Iniciativa de Comércio Ético.

“Sabemos que existe trabalho infantil no setor de instrumentos cirúrgicos do Paquistão, frequentemente nas etapas iniciais da produção, e é provável que alguns destes instrumentos acabem por vir parar cá”, disse.

Cindy Berman acrescenta ainda que o trabalho infantil floresce quando os trabalhadores adultos não conseguem alimentar, alojar e vestir as suas famílias e é por isso que órgãos públicos como o serviço nacional de saúde precisam de garantir que estão a pagar preços justos e a adquirir os produtos a fornecedores éticos.

O trabalho infantil é “comum num país onde a pobreza é endémica, o nível de cumprimento das leis laborais é baixo, os sindicatos escassos e as margens de lucro baixas”, escreveu o The Guardian. Embora o país não tenha realizado uma sondagem oficial desde 1996, estima-se que haja entre 5,7 e 12,5 milhões de menores a trabalhar no Paquistão.

Em Punjab, onde estão localizadas as oficinas, é proibido aos menores de 18 anos trabalharem em “indústrias perigosas” e aos menores de 14 anos exercerem qualquer trabalho.
1ª foto: Laura Salvinelli

Subscrever a Newsletter

0 comentários. Diz-nos o que pensas

Obrigado pelo comentário! Respeite os outros leitores. Comentários ofensivos ou com linguagem imprópria serão eliminados.