“A Poezia do Outomno” – António Nobre

“A Poezia do Outomno” – António Nobre

24 de Setembro, 2012 2

Noitinha. O sol, qual brigue em chammas, morre
Nos longes d’agoa… Ó tardes de novena!
Tardes de sonho em que a poezia escorre
E os bardos, a sonhar, molham a penna!

Ao longe, os rios de agoas prateadas
Por entre os verdes cannaviaes, esguios,
São como estradas liquidas, e as estradas
Ao luar, parecem verdadeiros rios!

Os choupos nus, tremendo, arripiadinhos,
O chale pedem a quem vae passando…
E nos seus leitos nupciaes, os ninhos,
As lavandiscas noivam piando, piando!

O orvalho cae do céu, como um unguento.
Abrem as boccas, aparando-o, os goivos…
E a larangeira, aos repellões do vento,
Deixa cair por terra a flor dos noivos.

E o orvalho cae… E, á falta d’agoa, rega

O val sem fruto, a terra arida e nua!
E o Padre-Oceano, lá de longe, prega
O seu Sermão de Lagrymas, á Lua!

Tardes de outomno! ó tardes de novena!
Outubro! Mez de Maio, na lareira!
Tardes…
  Lá vem a Lua, gratiae plena,
Do convento dos céus, a eterna freira!

António Nobre
(1867-1900)

Comentários
2 comments on ““A Poezia do Outomno” – António Nobre
  1. A Nova Civilização

    Lindo, é a única palavra que encontro

    24 de Setembro, 2012 Reply
  2. UniPlanet

    António Nobre foi e é um Grande Poeta!

    26 de Setembro, 2012 Reply
Deixe uma resposta

Your email address will not be published.