A cada segundo, depositamos em aterros ou incineramos o equivalente a um camião de lixo cheio de têxteis, revelou um novo relatório.



A cada segundo, depositamos em aterros ou incineramos o equivalente a um camião de lixo cheio de têxteis. Menos de 1% do material usado para produzir vestuário é reciclado e transformado em roupas novas. Estas são algumas das conclusões de um novo relatório da Fundação Ellen MacArthur sobre o impacto e o futuro da moda.

“A indústria têxtil de hoje em dia está assente num modelo linear obsoleto de usa-faz-descarta e é extremamente esbanjadora e poluidora, declarou Ellen MacArthur, velejadora britânica e presidente da fundação com o seu nome, acrescentando que o novo relatório “apresenta uma visão ambiciosa de um novo sistema, com base nos princípios da economia circular, que oferece benefícios à economia, sociedade e ao ambiente”.

Desde o séc. XX, as roupas têm sido cada vez mais encaradas como produtos descartáveis e a indústria tornou-se altamente globalizada, o que significa que os artigos são frequentemente concebidos num país, fabricados noutro e comercializados em todo o mundo, a um ritmo cada vez mais acelerado.

Esta tendência acentuou-se ainda mais nos últimos 15 anos, com o aumento da procura por parte de uma classe média em crescimento e o surgimento da “fast fashion” (moda rápida), fenómenos que levaram à duplicação da produção durante este período de tempo.

Atualmente, o crescimento da produção está intrinsecamente associado ao declínio da utilização de cada artigo, o que leva a uma quantidade incrível de desperdício. Estima-se que mais de metade da produção da moda rápida seja descartada em menos de um ano e que o número médio de vezes que uma peça de roupa é usada tenha caído 36% nos últimos 15 anos.


Rio contaminado pelos resíduos industriais do sector têxtil | Foto: RiberBlue

Recursos, saúde e ambiente

“A indústria têxtil depende sobretudo de recursos não renováveis – 98 milhões de toneladas, no total, por ano –, incluindo petróleo para produzir fibras sintéticas, fertilizantes para cultivar algodão e químicos para produzir, tingir e finalizar fibras e têxteis, explica o relatório.

“A produção têxtil (incluindo a produção de algodão) também usa cerca de 93 mil milhões de metros cúbicos de água anualmente, contribuindo para problemas em regiões onde a água escasseia, escreveram os autores do trabalho. “Com os seus baixos níveis de utilização (…) e baixos níveis de reciclagem, o atual sistema linear e esbanjador é a principal causa desta pressão imensa e crescente nos recursos.”

A utilização de substâncias potencialmente perigosas na produção têxtil também tem um impacto sério na saúde dos agricultores e dos trabalhadores das fábricas, assim como no ambiente. É frequente os resíduos industriais e tintas usados pelo sector contaminarem os cursos de água.

As estimativas apontam para que, durante a lavagem, as nossas roupas libertem meio milhão de toneladas de microfibras de plástico para os oceanos, todos os anos. Estas fibras são ingeridas por peixes e outros animais marinhos e entram na cadeia alimentar, o que significa que podemos acabar por comer as nossas próprias roupas.

Os investigadores preveem que os impactos negativos da indústria têxtil aumentem drasticamente até 2050.



"Pelo futuro da moda e do planeta"

O relatório da Fundação Ellen MacArthur defende a necessidade de um novo modelo para o sector, assente nos princípios da economia circular, no qual as roupas, os tecidos e as fibras reentram na economia após a sua utilização e nunca acabam como desperdício. Para tal, o trabalho apela à tomada de quatro medidas:

  1. Suprimir gradualmente o uso de substâncias potencialmente perigosas e a libertação de microfibras.
  2. Aumentar a vida útil da roupa, por exemplo, através do apoio e promoção, por parte da indústria, de esquemas de aluguer de roupa a curto prazo.
  3. Melhorar radicalmente a reciclagem.
  4. Apostar na utilização de materiais renováveis.

“O relatório indica um caminho a seguir para criarmos melhores empresas e um melhor ambiente”, disse Stella McCartney, estilista que se uniu a esta causa. “Abre a discussão que nos permitirá encontrar uma forma de trabalharmos em conjunto a fim de melhorarmos a nossa indústria, para o futuro da moda e o futuro do planeta.”

O relatório foi apoiado publicamente por marcas como a H&M, a C&A e a Nike.


Vídeo: Entrevista com Ellen MacArthur e Stella McCartney
1ª foto: True Cost

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