Dois dos inseticidas mais usados no mundo têm um efeito tóxico direto nas aves canoras que se alimentam de sementes, diz um novo estudo.

Tico-tico

Um novo estudo revelou que dois dos inseticidas mais usados no mundo – imidacloprida (neonicotinóide) e clorpirifos (organofosforado) – têm um efeito tóxico direto nas aves canoras que se alimentam de sementes.

“Os estudos sobre os riscos dos neonicotinóides têm incidido nas abelhas, cujas populações têm sofrido declínios. Contudo, não são só as abelhas que estão a ser afetadas por estes inseticidas”, disse Christy Morrissey, professora de biologia da Universidade de Saskatchewan, no Canadá.

“O que nos surpreendeu foi a rapidez dos efeitos, particularmente da imidacloprida”, contou a professora. “Os pássaros evidenciaram uma perda significativa de massa corporal e sinais de envenenamento agudo (letargia e perda de apetite). Os testes de migração mostraram que as aves não conseguiram orientar-se.”

“Foram observados efeitos com a ingestão do equivalente a apenas três ou quatro sementes de colza tratadas com imidacloprida ou oito grânulos de clorpirifos, por dia, durante três dias”, explicou Margaret Eng, investigadora que liderou o estudo.


Tico-tico-coroado | Foto: Logan Ward

Os neonicotinóides tornaram-se a classe mais popular de inseticidas entre os agricultores.
“Hoje em dia, os agricultores têm acesso a sementes que, em muitos casos, já estão revestidas com neonicotinóides, contou Christy Morrissey.

“Os pássaros que fazem paragens durante a migração podem estar a comer estas sementes, mas também podem ingerir grânulos de clorpirifos, confundindo-os com areia, algo que comem habitualmente para ajudar a digerir as sementes.”

Juntamente com Margaret Eng, a professora expôs um grupo de tico-ticos-coroados, capturados durante a migração da primavera, a doses realistas de imidacloprida e clorpirifos, durante três dias.

Os resultados mostraram que os neonicotinóides alteraram a orientação migratória das aves e que os animais perderam até 25% das suas reservas de gordura e massa corporal.

“Estes químicos estão a ter um forte impacto nas aves canoras. Estamos a observar perdas de peso significativas e uma alteração considerável na orientação migratória das aves”, explicou Margaret Eng.



“Muitas aves migratórias de pequeno porte utilizam os terrenos agrícolas como zonas de paragem para reabastecer em voos longos. Estes inseticidas neurotóxicos são amplamente usados na América do Norte, mas os seus efeitos na capacidade migratória das aves ainda não tinham sido testados”, disse Bridget Stutchbury, investigadora da Universidade de York, que também colaborou no estudo. “Embora se pensasse que os neonicotinóides tinham uma menor toxicidade para os vertebrados, de facto mostraram-se mais nocivos para estas aves canoras do que os químicos organofosforados, que são mais antigos.”

Margaret Eng disse-se “encorajada” pelo facto de a maioria das aves ter sobrevivido após a cessação da dosagem. “Mas os efeitos que vimos foram suficientemente graves para que as aves provavelmente sofressem atrasos ou mudanças nas suas rotas de voo, que poderiam reduzir as suas hipóteses de sobrevivência ou causar a perda de uma oportunidade de reprodução.”

Para Morrissey, o estudo “poderá ter implicações importantes para as decisões sobre a regulamentação destes pesticidas. A imidacloprida e o clorpirifos são extremamente controversos relativamente à sua segurança para o ambiente ou para os seres humanos e está a ser considerada uma proibição da imidacloprida no Canadá, esperando-se que o governo federal tome uma decisão sobre este inseticida e o seu uso no Canadá em dezembro.”
Foto da capa: Kelly Colgan Azar

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