O Gana e a Costa do Marfim estão a elaborar planos para colocar um ponto final na desflorestação, recuperando as suas florestas degradadas.



Os governos do Gana e da Costa do Marfim estão a elaborar planos para pôr um ponto final em toda a nova desflorestação, recuperando e replantando as suas florestas degradadas. Estes planos surgem após as investigações da organização Mighty Earth e do jornal britânico The Guardian, que revelaram a extensão da destruição das florestas e áreas protegidas dos dois países, impulsionada pela indústria do chocolate.

“Uma grande quantidade do cacau usado no chocolate produzido pela Mars, Nestlé, Hershey’s, Godiva e outras grandes empresas de chocolate foi cultivada ilegalmente”, concluíram os investigadores, que também avisaram que, se não forem tomadas medidas preventivas, até 2030, a Costa do Marfim perderá todas as suas florestas.

As investigações trouxeram à luz o facto de algumas autoridades costa-marfinenses corruptas estarem a aceitar enormes subornos para permitir que os pequenos agricultores cortem e queimem florestas protegidas de forma a plantar cacau nelas. Isto também está a levar ao surgimento de vilas e aldeias com milhares de habitantes dentro de parques nacionais.

O cacau produzido ilegalmente é posteriormente comprado por intermediários e vendido aos grandes comerciantes de cacau, como a Barry Callebaut, Olam e a Cargill, fornecedores de marcas como a Cadbury, a Mars e a Nestlé.



Segundo a Mighty Earth, as medidas planeadas pelos governos são prometedoras, mas não serão bem-sucedidas se os comerciantes de cacau e os fabricantes de chocolate não investirem neste esforço.

“O grande perigo agora é que a indústria vá adiar a tomada de uma decisão e culpar os governos do Gana e da Costa do Marfim, fazendo-os resolver o problema sem dar um contributo financeiro suficiente. Mas quem tem o dinheiro e os recursos técnicos para resolver isto é a indústria”, disse Etelle Higonnet, autora do relatório “O Segredo Obscuro do Chocolate” da Mighty Earth.

O jornal The Guardian contactou as marcas Mars, Hershey Company e Mondelez para saber as suas posições, mas estas não confirmaram se iriam investir verbas nos planos dos governos.

Segundo o projeto de plano da Costa do Marfim, estes comerciantes tomariam, cada um, responsabilidade por algumas florestas protegidas degradadas, organizando os agricultores para que estes plantem árvores ao mesmo tempo que cultivam o cacau na sua sombra. Este é um modo mais sustentável de cultivar cacau do que o atual, em que os produtores cortam árvores antigas para garantir que os seus cacueiros dispõem de muita luz.

Algumas florestas costa-marfinenses ganharão estatuto de parque nacional e um destes parques, o de Marahoué, poderá perder o seu estatuto por estar em tão más condições.



Os planos do Gana incluem um compromisso para acabar com as novas operações de desflorestação e transparência na cadeia de fornecimento, entre outras medidas.

Não fica claro quem financiará os planos dos dois países. A Costa do Marfim espera que sejam os comerciantes a pagar, mas não especificou quais seriam as consequências se eles recusassem. Acresce ainda o problema das comunidades que se instalaram nas áreas protegidas – o governo já foi acusado de violações dos direitos humanos por ter despejado milhares de produtores de cacau do parque nacional de Mont Péko.

Os preços do cacau em ambos os países caíram um terço no ano passado e a economia do Gana tem sido afetada por preços baixos do ouro e do petróleo. Os esforços de monitorização e reflorestação serão muito dispendiosos e o país terá dificuldade em financiá-los.

Para Etelle Higonnet, é claro: as empresas e os comerciantes de chocolate devem pagar.

“As empresas precisam de pagar pela plantação das árvores no próximo ano. Elas vão ter, provavelmente, lucros de quatro mil milhões de dólares, porque o preço das barras de chocolate manteve-se o mesmo mas o preço do cacau está a colapsar”, disse. “Portanto, o que podem eles fazer com esse dinheiro extra? Bem, podem usá-lo para plantar árvores.”

Existe ainda a preocupação de que, com a maior restritividade na África Ocidental, as empresas transfiram o comércio para outras regiões, como a Amazónia, a África Central e o sudeste asiático.

“Continuaremos a reproduzir os mesmos desastres que vimos na África Ocidental a menos que protejamos estas florestas agora”, disse a investigadora.
1ª Foto: WWF

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