“O Reino Unido tem uma responsabilidade enorme. Submeter outros países a pesticidas que causam danos ou mortes é uma violação dos direitos humanos.”



O paraquat, um herbicida altamente tóxico cujo nome comercial é Gramaxone, foi proibido na União Europeia há uma década. O pesticida é tão letal que um só gole pode ser fatal, tendo já causado milhares de mortes acidentais e suicídios em todo o mundo.

Contudo, a fabricante de pesticidas suíça Syngenta continua a exportar milhares de toneladas desta substância para outras partes do mundo – sobretudo para países em desenvolvimento –, sendo responsável por 95% das exportações europeias de paraquat.

Desde que, em 2015, uma fábrica na Bélgica deixou de exportar o herbicida, as exportações de paraquat da UE têm origem na unidade industrial da Syngenta no Reino Unido, em Huddersfielf, de acordo com a ONG suíça Public Eye.

“O facto de a UE ter decidido proibir o pesticida por motivos ambientais e de saúde, mas mesmo assim continuar a exportá-lo para países com regulamentações e restrições muito mais fracas é, para mim, chocante”, declarou Baskut Tuncak, relator especial da ONU sobre resíduos tóxicos. “O impacto é muitas vezes sentido fora dos países onde as empresas implicadas têm sede. É uma dupla moral e um exemplo da necessidade de controlos à escala mundial.”

Desde 2015, a Syngenta exportou 122 831 toneladas de paraquat, a partir do Reino Unido, uma média de 41 000 toneladas por ano, conta o The Guardian.

Quase dois terços destas exportações, por volume, – 62% – vão para países em desenvolvimento, como o Brasil, México, Índia, Indonésia, Guatemala e Venezuela. Outros 35% vão para os Estados Unidos, onde a substância só pode ser aplicada por utilizadores registados.

“O paraquat causa milhares de envenenamentos todos os anos em países em desenvolvimento. O Reino Unido tem uma responsabilidade enorme… Submeter indivíduos de outros países a pesticidas que causam graves danos à saúde ou provocam mortes é uma óbvia violação dos direitos humanos”, disse Laurent Gaberell, da ONG Public Eye.

A indústria de produtos fitofarmacêuticos defende que o paraquat é seguro, desde que seja usado convenientemente, que está entre os herbicidas mais eficazes e que tem poucas alternativas.

Nick Mole, da Pesticide Action Network, refuta estas alegações, dizendo: “Existe um grande número de alternativas reais – ou não o teríamos suprimido na UE. As pessoas podem prescindir dele, mas isso poderá abalar os lucros da Syngenta e eles vão se bater com unhas e dentes por esses lucros.”

“É uma enorme falha no sistema regulador: se um pesticida está proibido, não devia ser exportado para ser utilizado noutros países”, defendeu.

Foto: A sede da Syngenta na Suíça (Arnd Wiegmann/Reuters)

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