Os cães-selvagens-africanos, ou mabecos, também votam, mas de uma forma que é inédita até no mundo animal: com espirros!



Também há democracia no reino animal. Antes de decidirem deslocar-se em grupo, os suricatas, os gorilas-das-montanhas e vários outros animais “votam”, normalmente através de uma vocalização, sendo necessário um número mínimo de votos para que o grupo de animais prossiga.

Os cães-selvagens-africanos, ou mabecos, também votam, mas de uma forma que é inédita no mundo animal: com espirros! Segundo um novo estudo publicado na revista científica Proceedings of the Royal Society B, os espirros parecem indicar uma reação positiva a uma proposta para partir em busca de alimento, numa matilha de mabecos.

“Quantos mais espirros ocorriam, maior era a probabilidade de que a matilha partisse para caçar. O espirro serve como um tipo de sistema de votação”, concluiu Neil Jordan, coautor do estudo e investigador da Universidade de Nova Gales do Sul, em Sydney.

A equipa de investigadores estava a estudar os cães, no Botswana, quando se apercebeu de um hábito invulgar destes animais. “Começámos todos a questionarmo-nos: ‘Porque é que estes cães espirram tanto?’”, conta Reena Walker, coautora do estudo.

Embora observassem cães a espirrar durante o repouso, a maioria dos espirros ocorria durante o ritual que precede a partida para a caça, no qual os animais correm lado a lado, abanam a cauda e tocam nas cabeças uns dos outros freneticamente durante alguns minutos – um pouco semelhante à excitação de um cão quando o seu dono regressa a casa.



Às vezes, estes rituais dão frutos e os animais partem para caçar; outras vezes, não, e os membros da matilha voltam a deitar-se e a adormecer.

Os cientistas repararam que quantos mais espirros se ouvissem durante o ritual, maior era a probabilidade de os cães irem caçar. Se o ritual fosse iniciado por um membro dominante da matilha, só eram necessários três espirros para que a matilha partisse em busca de alimento. Se, pelo contrário, era iniciado por um membro de posição inferior, eram necessários 10 espirros para assegurar a caçada.

“Francamente nunca pensei que os espirros fossem um fator importante… Esta é mesmo uma grande descoberta”, disse Dedan Ngatia, do Centro de Investigação Mpala, no Quénia, ao National Geographic.

Os autores do estudo lembram, contudo, que, por enquanto, ainda não se sabe com toda a certeza se os espirros serão realmente um mecanismo de votação ou uma confirmação física de uma decisão tomada por outros meios desconhecidos.

“Fisiologicamente, a exalação rápida pode servir para preparar a matilha para a caça, ao desobstruir a cavidade nasal para tornar mais fácil farejar as presas e correr, mas isto não invalida a possibilidade de que espirrar também possa ser um verdadeiro mecanismo de votação”, escreveram os investigadores, sublinhando a necessidade de se estudar mais o assunto.

Reena Walker espera que o estudo ajude a chamar a atenção para esta espécie em perigo. Os números oficiais mais recentes apontam para a existência de apenas 6600 cães-selvagens-africanos no continente. A fragmentação de habitat e as doenças são algumas das principais ameaças que estes animais enfrentam.

“São animais absolutamente fantásticos dedicados à cooperação e ao núcleo familiar da sua matilha”, disse a investigadora. “Quantas mais pessoas se aperceberem de quão fantásticos estes animas são, melhor.”

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