“Sou inspetor há quase 20 anos e este é mesmo um dos piores casos que já vi”, disse Marcelo Gonçalves Campos, inspetor do Ministério do Trabalho.



Uma equipa de jornalistas da CNN acompanhou a operação de uma unidade especial de inspeção móvel, que tinha recebido denúncias sobre a ocorrência de exploração laboral nas fazendas da pequena cidade de Arapoema, onde grandes áreas da Amazónia têm sido desflorestadas para dar lugar a explorações de gado.

“Sou inspetor há quase 20 anos e este é mesmo um dos piores casos que já vi”, disse Marcelo Gonçalves Campos, inspetor do Ministério do Trabalho, à CNN. “Eles estão a ser tratados, sem qualquer exagero, como animais, dormindo no mesmo curral que o gado.”

Entre os trabalhadores que a unidade encontrou estava Luiz Cardoso da Silva, de 69 anos. Há dois anos que ele e seis familiares trabalhavam e viviam numa fazenda, construindo cercas e removendo ervas daninhas das pastagens. Dormiam no chão de um curral de gado, rodeado de lama. Não tinham WC, apenas uma torneira no exterior, com a qual tomavam banho e lavavam a roupa e os pratos.

Não recebiam dinheiro. O proprietário da fazenda dava-lhes as refeições, descontava-as dos seus ordenados e, feitas as contas, dizia-lhes que lhe ficavam a dever dinheiro.

“Não consigo lembrar-me da última vez que recebi algum dinheiro do patrão. Jamais imaginei sair dessa situação. Achava que a minha vida tinha acabado aqui”, confessa uma das vítimas.

“Não se pode ir embora porque se deve o dinheiro da comida que ele deu, tem-se uma dívida”, diz Luiz Cardoso da Silva, ou Seu Luiz como é conhecido, explicando que temia pela segurança da sua família se abandonasse o local.

Segundo André Wagner, coordenador desta operação, a servidão por dívida é comum nesta região do Brasil. “Veem-se pessoas a trabalhar em condições degradantes, com um horário de trabalho fatigante, a comer uma refeição por dia, sem receberem qualquer forma de salário ou um muito reduzido porque a sua comida e ferramentas são descontadas”, conta.

Desde 1995, as unidades especiais de inspeção móveis – constituídas por inspetores, advogados de acusação e agentes da polícia federal – já resgataram mais de 50 000 trabalhadores do que, no país, são consideradas condições análogas ao trabalho escravo. Um terço destes trabalhava em explorações de gado, mas há muitos outros a trabalhar em minas de carvão, plantações de cana-de-açúcar, na construção civil e em fábricas de roupa.

A luta contra a exploração laboral parece não ter fim, já que cerca de 25 000 brasileiros são submetidos a condições análogas ao trabalho escravo, todos os anos, segundo dados da Comissão Pastoral da Terra.

De acordo com André Wagner, as indeminizações para os trabalhadores explorados costumam rondar os 1800€, embora, em casos extremos, possam ser 10 vezes superiores. No caso de Seu Luiz, os sete familiares receberão cerca de 35 000€, em conjunto.

No meio da luta contra a “escravidão moderna”, está Xavier Plassat, um frade dominicano que possui uma rede de agentes e informadores que enviam denúncias de abusos às autoridades federais. Isto já levou à morte de alguns destes ativistas, entre os quais a freira Dorothy Stang, em 2005.

“A escravatura é um sistema e tem várias raízes: impunidade, ganância, vulnerabilidade e miséria. Se não se faz face a todos ao mesmo tempo, teremos provavelmente as mesmas pessoas a voltar ao mesmo ciclo de escravidão”, declarou o frade.


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