O número de espécies de animais e plantas em risco de extinção pode ser muito mais elevado do que pensamos, diz um novo estudo.



O número de espécies de animais e plantas em risco de extinção pode ser muito maior do que se pensava, sugere um novo estudo da Universidade de Columbia.

Os mapas da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), que definem a área de distribuição de cada espécie e que são criados com base em avistamentos comunicados por especialistas, são usados para desenvolver a sua Lista Vermelha, a qual atribui um estatuto de conservação (vulnerável, ameaçada, criticamente ameaçada, etc.) às espécies selvagens.

Don Melnick, professor da Universidade de Columbia, e os seus colegas acreditam que estes mapas, dos quais depende em grande medida a exatidão do estatuto atribuído às espécies, sobrestimam quase sempre a verdadeira área de distribuição, ao incorporarem zonas impróprias para habitat. Por sua vez, isto resulta numa sobrestimação significativa da dimensão da população e, consequentemente, numa subestimação do risco de extinção.

“Preocupados com esta questão, procurámos determinar até que ponto os mapas se desviavam da realidade”, explica Don Melnick. O investigador defende que um modelo mais exato "é essencial, se queremos planear com precisão as medidas necessárias para deter as ameaças [às espécies], a nível local e global”.


Chita, uma espécie "vulnerável" segundo a UICN | Foto: Dave Meier

Para conferir a sua teoria, a equipa de investigação estudou 18 espécies de aves, com diferentes estatutos de conservação, endémicas dos Gates Ocidentais, uma região montanhosa na Índia.

Os investigadores recolheram dados disponibilizados livremente e georreferenciados sobre o clima, a vegetação, a ecologia e os atributos dos Gates Ocidentais. A equipa também examinou dados da plataforma eBird, uma base de dados de ciência cidadã – um tipo de investigação científica realizada, parcialmente ou na sua totalidade, por cidadãos e cientistas amadores, que recolhem e analisam informação. Todos estes dados foram verificados por peritos locais.

Com esta informação, os investigadores construíram perfis de onde cada ave pode ser encontrada – a que altitude, em que tipos de vegetação, entre outros fatores –, calculando novas áreas de distribuição para as espécies, que estarão, segundo acreditam, mais perto da realidade do que os mapas da UICN.

Os cientistas descobriram que os mapas de 17 das 18 espécies de aves continham grandes áreas de habitat inadequado e que sobrestimavam em grande medida as suas áreas de distribuição, algo que os deixou "profundamente surpreendidos". Segundo eles, o estatuto de pelo menos 10 das 18 espécies estudadas deveria ser reclassificado.

"17 das áreas de distribuição destas aves foram gravemente sobrestimadas pela BirdLife International (BLI) e pela UICN", diz Vijay Ramesh, um dos autores do estudo. "Além disso, descobrimos que metade destas espécies não habita em 60% das áreas mapeadas pela BLI."

Por exemplo, segundo estimaram, a distribuição da ave Eumyias albicaudatus (visível na primeira imagem do artigo) é cerca de 65% inferior à definida pela UICN e os cientistas sugerem que a espécie seja reclassificada de “quase ameaçada” para “vulnerável”.

Anthus nilghiriensis, uma espécie "vulnerável" | Foto: Nishad H. Kaippally

Da mesma forma, a espécie Anthus nilghiriensis, classificada pela UICN como "vulnerável", terá uma área de distribuição de menos de 1392 km2 e não de 11 558 km2, como sugere a BLI, o que significa que a sua distribuição está sobrestimada em 88% e que a ave deveria ter estatuto de "ameaçada".

“A redução drástica do tamanho da área de distribuição e a crescente fragmentação do habitat indicadas pelo nosso estudo levam-nos a deduzir que estas aves endémicas estão muito mais ameaçadas do que alguma vez se imaginou”, explica Don Melnick.

Os investigadores sugerem a utilização de um novo modelo para se estimarem as áreas de distribuição e melhor se avaliarem as ameaças enfrentadas pelas espécies, no qual se deveria integrar o uso de dados de ciência cidadã digitalizados e georreferenciados, assim como dados biológicos e geofísicos e modelos estatísticos sofisticados.

“Os critérios da UICN para determinar os níveis de ameaça para as espécies são excelentes; contudo, os dados, aos quais estes critérios estão a ser aplicados, precisam de ser atualizados, utilizando uma abordagem como a que desenvolvemos para os Gates Ocidentais. Usando dados de ciência cidadã de um modo cuidadoso, podemos descobrir que existe uma necessidade urgente de começar a proteger espécies que pensávamos que estavam a prosperar mas que, na realidade, estão em risco de desaparecer.”

1ª foto: Eumyias albicaudatus (N. A. Naseer)

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